19 outubro 2014

Resenha Crítica: "Les Amants du Pont-Neuf" (1991)

 Os protagonistas de "Les Amants du Pont-Neuf" deambulam solitários pelas ruas. Lá fora encontramos festas, obras, gentes que passam mas não lhes ligam. A reunião é feita no momento de um acidente. Alex (Denis Lavant), provavelmente bêbado e até pedrado, deita-se na estrada e parte do seu pé e perna são atropelados, algo visto por Michèle (Juliette Binoche). Ambos são dois vagabundos. Vagueiam sem saberem o que o destino lhes espera ou aquilo que pretendem para as suas vidas. Ninguém lhes liga. Aparentemente. E nós, quantas vezes nos questionámos sobre a vida dos sem-abrigos que encontramos? Podemo-nos condoer, até dar uma "esmola" e ter uma conversa ocasião, mas Alex e Michèle exibem-nos que ninguém vive nas ruas por acaso. Aos poucos começa a formar-se uma estranha relação entre estes dois personagens, até de alguma intimidade. Ele é um artista de rua, alcoólico, que necessita de calmantes para dormir e satisfazer o seu vício, tendo em Hans (Klaus-Michael Gruber numa interpretação digna de relevo), outro dos elementos que habita pela Pont Neuf, um dos poucos pontos de contacto. Ela é uma artista, outrora tivera uma obra exposta no museu, saíra de casa e fora abandonada pelo namorado, que a trata com um desprezo revoltante no último encontro, quando esta até parece andar pelas ruas devido a procurar pelo mesmo. A sua visão deteriora-se a cada dia que passa, com esta a temer o dia em que poderá deixar de ver. Não deixa de sentir, embora a vida não lhe seja simpática. É sobre estes personagens que Leos Carax se preocupa em explorar as características e relacionamentos, criando mais uma vez momentos que variam entre o romantismo, lirismo e irracionalidade. Não poderia faltar as cenas dos personagens a correr, tal como Alex e Anna em "Mauvais Sang", mas também a utilização brilhante da banda sonora. Mas não são apenas Alex, Michèle e Hans que são personagens de "Les Amants du Pont-Neuf", também a própria ponte é protagonista, é o espaço de reunião e desunião, em obras, pronta a reconstruir-se, tal como os protagonistas parecem estar a precisar de mudanças. Tudo parece simples, mas Leos Carax exibe como poucos a capacidade de explorar a dinâmica entre estes personagens, muitas das vezes silenciosos, que se exprimem e nos colocam perante um nascer de uma relação num meio improvável. Michèle era uma artista, tendo ido parar à ponte para dormir após entrar numa espiral descendente, tal como Hans, um personagem secundário de enorme espessura. E o mais assustador de "Les Amants du Pont-Neuf" é que a situação em que caíram Michele, Hans e até Alex poderia acontecer a qualquer um de nós. O mundo exterior pouco lhes liga. Michele e Alex ainda observam durante a noite uma discoteca através das janelas, onde assistem a dança, felicidade, som, ritmo, ou seja, a muito do que parece faltar às suas vidas, embora a companhia um do outro consiga colmatar algumas agruras e lacunas.

 A relação entre a dupla de protagonistas está longe de ser maravilhosa. Não são Romeu e Julieta, Ilsa e Rick, Satine e Christian, Harry e "Slim", mas sim duas figuras que parecem ajudar-se mutuamente a colmatar algumas das insuficiências a nível de relacionamentos que têm. Por vezes parece existir amor entre os dois, mas longe do fulgor, embora Leos Carax até nos proporcione um belo momento com fogo de artifício (remetendo para as comemorações do bicentenário do Dia da Bastilha em 1989), onde os personagens procuram aderir à festa, mas parece faltar algo às suas vidas para comemorarem. Temos ainda as cenas em que andam pela montanha russa e dançam, com alguma poesia à mistura num cenário improvável para sentimentos tão vivos. A visão de Michèle piora, esta não quer deixar de ver e só durante a noite se sente mais confortável. Este não é o espaço para revelar se esta cura ou não a doença, mas sim para voltar a elogiar a dupla formada por Denis Lavant e Juliette Binoche, que já tinha colaborado com Leos Carax em "Mauvais Sang". Lavant é um colaborador habitual de Leos Carax, que insistiu na sua presença, mesmo quando o actor se lesionou e obrigou ao adiamento das filmagens, algo recompensado com mais uma interpretação admirável que compensa o tempo em que o espectador ganha com o filme. De roupas muitas das vezes gastas, cara em alguns momentos suja, comportamentos por vezes rudes, pouco dado a grandes falas e amizades, o personagem interpretado por Denis Lavant parece condenado a auto-destruir-se. Não dorme, o que ganha como artista de rua dá-lhe para o álcool, prazer momentâneo que inebria, adormece, deixa-nos momentaneamente alheados do mundo. Mas e o acordar? A mesma merda de realidade de sempre. Talvez por isso seja tão comum vermos este personagem a beber, mas também Hans, um homem outrora respeitável. Também Michèle adere ao álcool. Precisa de esquecer, mas acima de tudo precisa de algo que a alegre e aqueça. A reunião de Michèle e Alex permite dar algum calor humano a estes dois. Ela anda sempre acompanhada pelas suas pinturas, procurando pintar, embora saiba que um dia também pode perder a sua paixão de retratar o mundo através do seu olhar. A rodeá-los encontra-se a ponte, em construção, mas também a bela cidade de Paris, com a cinematografia de Jean-Yves Escoffier a ser capaz de exacerbar a mesma, mas também a dureza dos momentos pouco "turísticos" da dupla de protagonistas. Estes são dois alienados da sociedade, vivem nas margens, longe de tudo e de todos, apresentam em alguns momentos atitudes algo irresponsáveis, embora mais tarde descubramos que procuram por Michèle. Leos Carax também é associado ao cinéma du look, associado ao estilo em detrimento da substância, bem como a histórias marcadas por personagens alienados da sociedade, romances condenados ao fracasso, entre outros elementos, embora seja injusto falar que o conteúdo não iguala o estilo. "Les Amants du Pont-Neuf" coloca-nos perante uma relação entre dois personagens caídos em desgraça, em reconstrução num cenário também ele em mudança, onde não se parecem integrar embora se complementem de uma forma tão estranha e real que facilmente nos conquista.

 Existe muito de real, mas também de irreal, como se estivéssemos entre o sonho e a realidade, entre a utopia do "paz, amor e uma cabana" e o "tens de acordar para a vida", apesar de aqui a cabana nem existir e os personagens dormirem ao relento. O que parece real são os sentimentos, nesta obra que parece tirar alguma inspiração de "L'Atalante" de Jean Vigo (veja-se no momento final, onde o casal se encontra a "bailar" no fundo do mar, tal como os protagonistas de "L'Atalante), tendo ainda causado sensação pelo seu largo orçamento. Carax ainda conseguiu a permissão para filmar na Pont Neuf entre os dias 28 de Julho e 18 de Agosto de 1989, mas a lesão de Denis Lavant impediu essa situação, conduzindo à dispendiosa decisão de criar uma réplica em Lansargues, algo que aumentou e muito o orçamento do filme, uma situação polémica que exibe bem a confiança do cineasta no que estava a fazer, mas também de quem o apoiou a nível financeiro. Percebe-se a procura de Carax em ter uma ponte o mais parecida possível com a do local: este é o cenário primordial por onde deambulam os personagens, algo que seria impossível sem ter a mesma. Claro que nem tudo faz sentido, tal como a presença das autoridades praticamente não serem sentidas numa obra onde os protagonistas cometem claras transgressões. Veja-se quando o protagonista queima os posters do metro onde existe o anúncio da família de Michèle a procurar pela mesma, mas também quando roubam um veículo marítimo da polícia. Mas "Les Amants du Pont-Neuf" não é um filme sobre realismo, é, sim, uma obra sobre sentimentos, sobre uma relação entre duas figuras estranhas, que vivem de forma marginal num território francês que supostamente teria todas as condições de lhes proporcionar um modo de vida diferente. Os próprios protagonistas são algo marginais, sobretudo Alex que, com a ajuda de Michèle, utiliza calmantes para colocar nas bebidas dos clientes e roubar os mesmos, com ambos a procurarem sobreviver. Esta até parece oriunda de uma família com algumas posses, mas más decisões e um notório sentido de auto-destruição lançaram-na para o fundo do poço, bem como uma doença de difícil cura e um desgosto amoroso. Nem sempre estes personagens ficam pela ponte. Também caminham por Paris, pelo metro, pelos locais populares, pelos cafés rodeados de gente, embora pareçam viver num mundo à parte que, mais cedo, ou mais tarde, sabemos que terá de terminar. No entanto existe espaço para a esperança, para a neve que cai e banha o cenário de poesia, de estranho calor quando o tempo é de frieza. Aquando da sua estreia, "Les Amants du Pont-Neuf" não reuniu o consenso da crítica e do público. A mim convenceu-me e quase que posso dizer que a espaços me apaixonou.

Título original: "Les Amants du Pont-Neuf". 
Título em Portugal: "Os Amantes da Ponte Nova".
Realizador: Leos Carax. 
Argumento: Leos Carax. 
Elenco: Juliette Binoche, Denis Lavant, Klaus Michael Grüber.

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