09 outubro 2014

Resenha Crítica: "Lancelot du Lac" (1974)

 Visão pouco romântica, pragmática e desencantada das lendas da Távola Redonda e do Rei Artur, "Lancelot du Lac" surge como um drama de época onde os sentimentos são expostos de forma sóbria mas nem por isso deixam de estar presentes. O filme tem muito de Robert Bresson, não faltando os elementos do elenco amadores ou estreantes, interpretações sóbrias, atenção aos actos e gestos dos personagens (veja-se a atenção dada aos cavaleiros a subirem nos cavalos, a colocarem a armadura na cabeça, a pegarem na lança, mas também quando temos a atenção dada às mãos de Lancelot e Guinevere, a fazer recordar o detalhe atribuído aos actos do carteirista de "Pickpocket"), os elementos de cariz religioso, uma cuidada cinematografia, entre outros elementos. Bresson deixa-nos perante o regresso de Lancelot (Luc Simon), Gawain (Humbert Balsan) e companhia ao Reino, após falharem na missão de encontrarem o Santo Graal, tendo pelo caminho perdido um elevado contingente de homens. Lancelot surge algo desiludido, tendo Guinevere (Laura Duke Condominas), a mulher de Artur, à sua espera. Lancelot e Guinevere mantêm um romance secreto, embora este pareça inicialmente querer afastar-se desta, enquanto Mordred (Patrick Bernhard) congemina contra o protagonista e o Rei. Com a fama em baixa junto dos elementos do Reino, Lancelot vê-se na obrigação de ter de participar num torneio, do qual sai gravemente ferido, embora ainda tenha um papel a dizer nos destinos do território. A história é aparentemente simples, sendo exposta com um enorme desencanto e alguma melancolia. A mesa redonda, onde outrora se reuniam os cavaleiros, passou a ser um palco onde apenas existem lembranças de glória e concórdia, visto que vários dos elementos já faleceram e outros conheceram o sabor inglório do fracasso. Lancelot é uma sombra dos tempos de glória, Artur já não transporta consigo a aura dos grandes líderes e Mordred mantém uma malícia contida pronta a ser expressa em actos de traição. No meio deste universo masculino temos Guinevere, uma mulher que simboliza o desejo, atraiçoando Artur, amando Lancelot e também a parecer algo cínica. Robert Bresson volta a tirar interpretações bastante minimalistas por parte dos elementos do elenco, com estes a serem capazes de cumprir de forma exímia aquilo que é pretendido, ao longo de uma obra capaz de expressar de forma paradigmática e crua o desencanto destes homens. Não é nos feitos gloriosos do passado ou no talento destes homens para o combate que "Lancelot du Lac" procura concentrar as suas atenções, mas sim na exploração e problematização da condição destes elementos como seres humanos, na forma como lidam entre si, como expõem as suas frustrações e inquietações, permitindo a Robert Bresson elaborar um fascinante olhar sobre estas figuras lendárias que fazem parte do imaginário colectivo.

Existem alguns anacronismos na representação destas figuras, que chegam à sua terra desorientadas e sem o Santo Graal, símbolo divino, algo que fica paradigmaticamente representado quando Guinevere salienta a Lancelot que este não queria o objecto sagrado mas sim Deus. A religião está sempre muito presente no quotidiano destes elementos, em particular na figura de Lancelot, com este a questionar o que terá feito a Deus e a procurar perceber o seu papel neste mundo. A desilusão parece óbvia, chegando ao ponto deste renunciar perante Deus ao seu romance com Guinevere, algo que revela a esta mulher, pouco tempo depois de dizer que a ama. O momento é marcado por uma calma pouco comum, própria de vários trabalhos de Bresson, com os personagens a exporem os seus sentimentos de uma forma muito própria e a separação temporária a ficar marcada pelo retirar do anel oferecido por Guinevere a Lancelot. Por vezes parece que existe um enorme desprendimento da parte dos personagens e diga-se que essa frieza é exibida logo no início do filme, quando ficamos perante o lado negro destas aventuras medievais fantasiosas (com uma violência explícita algo rara nas obras do cineasta). Veja-se quando encontramos os esqueletos dos soldados enforcados, bem como a violência a envolver os combates, onde o sangue e a morte sobressaem em detrimento do possível heroísmo de Lancelot e os seus homens. A aparente pouca vontade de Lancelot em participar no torneio é reveladora das dúvidas deste homem em prosseguir pela via guerreira e do questionamento que este faz em relação ao seu papel na Terra. Lancelot conheceu as glórias no passado, tendo vencido duelos, eliminado inimigos, mas agora parece procurar alguma paz e melhorar como ser humano, procurando até uma improvável amizade com Mordred e afastar-se de Guinevere, uma tarefa aparentemente impossível. A relação entre estes dois é marcada pelo espectro da traição e alguma repressão do desejo por parte de Lancelot, embora acabe por ceder aos sentimentos que nutre pela esposa do rei. Artur surge representado também como uma figura algo desiludida perante a vida, questionando as razões para Deus ter proporcionado um trágico destino a vários dos seus homens, assistindo à degradação do seu Reino. Outrora prosperaram, hoje encontram-se em querelas entre si e parecem apenas viver do passado, tendo um presente pouco radioso e ainda menos promissor. Mordred é a faceta mais visível da traição, contrastando com a lealdade de Gawain em relação a a Lancelot, com este último a ter no sobrinho de Artur uma figura pronta a defender a sua honra. Temos ainda o cenário do Reino, marcado pelo interior do castelo e várias tendas, onde estes homens se encontram tão próximos mas ao mesmo tempo tão distantes, formando alianças, efectuando actos de traição, regendo-se por códigos de conduta pouco respeitados e valores de cavalaria que parecem andar em desuso. 

Estes são homens marcados pelo passado e pelo presente, que questionam o seu lugar no Mundo após anos de glória. Estamos sem dúvida alguma perante uma adaptação distinta das lendas do Rei Artur, despojada de grandes adornos e glamour, onde até as batalhas são exibidas de forma bastante prática. É dada atenção ao embate das armas com os corpos ou os escudos, enquanto os cavaleiros caem pelo chão e as feridas podem ser fatais, com os cavalos a terem tanta ou mais atenção do que aqueles que os comandam. As armaduras são pesadas, cobrem parte dos corpos destes homens, embora Robert Bresson faça questão de demonstrar que estas deixam algumas partes dos corpos desprotegidos, enquanto coloca estes cavaleiros diante das câmaras, a defenderem valores e causas que parecem estar a entrar no seu ocaso. Já as imagens em movimento impressionam pelo detalhe, ficando particularmente na memória as cenas finais, onde chega o ponto alto da decadência e ocaso destes cavaleiros. Diga-se que a tragédia já se adivinhava para estes homens, ao longo de uma obra que nos apresenta aos mesmos já longe da glória, capazes de se perderem no caminho e pelo destino. Lancelot ainda vence alguns confrontos no torneio (um momento onde sobressai o trabalho de montagem e a habilidade de Bresson em jogar com o som e as imagens em movimento), conhecendo a sua húbris, após anos de glória, enquanto assistimos a uma nobreza em decadência, onde apenas Gawain parece guardar alguns dos ideais associados à mesma. Tal como salienta Tony Pipolo em “A Passion For Film”, “This portrait of Gawain as a man of courage and virtue is at odds with the one in much of the literature, but it shares a strong family resemblance with Bresson’s most admirable protagonists. His presence in so late a film suggests a compromise between early and late Bresson; Gawain carries the torch, so to speak, which is literally what we see him doing in his first appearance in the film”. Este apresenta alguma ingenuidade e idealismo, defendendo a honra de Lancelot e de Guinevere, demonstrando laços de lealdade que parecem em desuso no reino. Ficamos assim perante uma das mais recomendáveis adaptações das lendas do Rei Artur ao grande ecrã, com Robert Bresson a incutir o seu cunho autoral e oferecer-nos algo de sublime.

Título original: "Lancelot du Lac".
Título em Portugal: "Lancelote do Lago".
Realizador: Robert Bresson. 
Argumento: Robert Bresson.
Elenco: Luc Simon, Laura Duke Condominas, Humbert Balsan, Vladimir Antolek-Oresek, Patrick Bernhard

Sem comentários: