15 outubro 2014

Resenha Crítica: "The Judge" (O Juiz)

 O Rotten Tomatoes contém no início da página dedicada a cada filme um consenso que remete para a média das notas das críticas publicadas pelos vários elementos que constam no mesmo, algo que é bastante discutível e falacioso, sobretudo se pensarmos que não existe distinção entre os principais sites e as páginas algo duvidosas. Sobre "The Judge", entre os vários elementos colocados, é salientada a palavra cliché, algo que não deixa de ser notório, com o filme a contar com vários lugares-comuns, aos quais podemos acrescentar elementos como uma história que é relativamente previsível, longe de ser marcada pela originalidade e subtileza. No entanto, também não deixa de ser latente que a intenção de David Dobkin parece ser realizar um melodrama comovente, pontuado por alguns momentos de humor, que facilmente extravasa as barreiras do filme de tribunal, com os desequilíbrios do filme a serem compensados pelas extraordinárias interpretações de Robert Duvall e Robert Downey Jr. Duvall interpreta Joseph Palmer, um juiz conhecido pela defesa implacável da lei, contando com uma enorme reputação em Carlinville, no Indiana, um local onde habita e exerce a sua profissão. Downey Jr. interpreta Hank Palmer, um dos três filhos do juiz. Hank é um advogado que exerce com sucesso a sua profissão em Chicago, conhecido pela sua excessiva confiança e arrogância, bem como por alguns comportamentos desprezíveis e um casamento prestes a ruir devido a uma traição de Lisa (Sarah Lancaster), a sua esposa, uma situação que o preocupa devido à filha de ambos. Quando recebe a notícia da morte da mãe, Hank logo se dirige até Carlinville, a cidade onde passou grande parte da sua infância e adolescência, encontrando Glen (Vincent D'Onofrio), o seu irmão mais velho, e Dale (Jeremy Strong), o caçula, um elemento com autismo que anda quase sempre acompanhado por uma máquina de filmar em Super-8. Também reencontra o pai, uma figura com quem quase sempre manteve uma relação complicada e não falava há vários anos, algo exemplificado quando Joseph abraça todos os que o visitam, com excepção de Hank. Existe um enorme ressentimento entre ambos em relação a episódios do passado, algo difícil de ultrapassar, sobretudo quando apresentam personalidades mais parecidas do que parecem ser capazes de admitir. Boa parte do filme vai centrar-se no complicado relacionamento entre Hank e Joseph, com Robert Downey Jr. e Robert Duvall a proporcionarem-nos alguns momentos dignos de atenção. Tanto são capazes de nos fazer rir como de comover, ficando particularmente na memória a cena em que Hank procura cuidar do pai, um indivíduo que padece de cancro no cólon, quando este se descuida na casa de banho e fica praticamente prostrado. A relação entre ambos vai conhecer uma mudança quando Joseph é acusado de ter atropelado e conduzido à morte de Mark Blackwell (Mark Kiely), um elemento que o juiz outrora condenara a vinte anos de prisão devido ao assassinato de uma jovem que fora violada pelo criminoso. Joseph não se lembra de ter cometido o crime, tendo na memória que saiu de casa para ir comprar ovos, embora esse desconhecimento não o impeça de ser interrogado, com Dwight Dickham (Billy Bob Thornton) a surgir como um advogado de acusação que promete não dar tréguas ao juiz. Inicialmente Joseph rejeita que o filho seja o seu advogado, contratando C.P. Kennedy (Dax Shepard), um elemento inexperiente que tem por hábito vomitar antes de entrar em tribunal, sendo uma presa fácil para Dickham.

Cedo percebemos que mais tarde ou mais cedo Hank vai assumir a defesa do pai, revelando a sua enorme capacidade como advogado, com Robert Downey Jr. a expor o seu carisma e a enorme confiança do personagem que interpreta. As cenas de tribunal são geralmente intensas, com Robert Downey Jr., Robert Duvall e Billy Bob Thornton a sobressaírem, com David Dobkin a nem parecer ter muito que fazer, deixando o trio a exibir o seu talento. Hank procura defender o pai a todo o custo, apesar de não ter contemplações para com o último, com ambos a apresentarem interpretações e modos distintos de encarar a lei, ao mesmo tempo que exorcizam fantasmas antigos em pleno tribunal. Joseph não quer utilizar para a sua defesa o facto de estar nos últimos meses da sua vida e a quimioterapia causar-lhe alguma degradação das suas capacidades físicas, procurando manter a sua reputação, embora Hank pareça disposto a tudo para não ver o pai ser preso. Está em jogo o orgulho de Hank como advogado, bem como os laços familiares que o ligam ao pai, com o protagonista a não esconder alguma emoção na defesa do caso, procurando exibir a sua competência não só para tirar o progenitor de perigo, mas também para ganhar a admiração do mesmo. O enredo de "The Judge" não se limita a estas tramas relacionadas com a acusação efectuada a Joseph e a relação deste com o filho. Temos ainda a subtrama relacionada com o reencontro de Hank com Samantha (Vera Farmiga), a sua ex-namorada, que abandonara quando ainda era um jovem adulto. Esta tem uma filha, Carla (Leighton Meester), com quem Hank teve relações sexuais num bar, sem saber quem era a progenitora da mesma. Aos poucos, Hank e Samantha voltam a recordar-se de episódios do passado, bem como do presente de ambos. O pior é quando este desconfia que Carla pode ser a sua filha, enquanto parece gradualmente voltar a estabelecer laços com Samantha, com "The Judge" a não poupar no sentimentalismo. Diga-se que "The Judge" raramente é subtil na abordagem das suas temáticas, quase que só faltando uma placa a avisar: "momento a exibir que Hank está a voltar a apreciar o regresso a casa" (quando anda de bicicleta com a camisola dos Metallica); "exibição da bandeira dos EUA como símbolo de justiça" (a bandeira é exibida várias vezes, parecendo surgir um paralelo entre a mesma e a justiça no país), entre vários outros momentos que expõem a falta de subtileza do filme. No entanto, apesar de David Dobkin não primar por atribuir alguma finesse a alguns dos temas de "The Judge", também não deixa de ser agradável acompanhar a história destes personagens, seja o relacionamento complicado entre Joseph e Hank, seja a relação entre o protagonista e Samantha, seja a relação do personagem interpretado por Robert Downey Jr com os irmãos e a filha, com David Dobkin a ancorar-se num elenco de respeito, capaz de elevar uma obra que até tem sido algo injustiçada pela crítica e pelo público. Temos ainda a relação do avô com a neta, com estes a conhecerem-se pela primeira vez, algo revelador da desunião no interior deste seio familiar, com Robert Duvall a ter uma daquelas interpretações que elevam claramente um filme e deixam marca no espectador. Este cria um juiz complexo, de idade avançada, algo taciturno e pouco dado a grandes sorrisos, que aos poucos começa a relacionar-se com o seu filho do meio, após vários anos de separação.

A dinâmica entre Robert Downey Jr. e Robert Duvall é fundamental para o filme funcionar, com o primeiro a provar que tem um talento imenso, que merece mais do que andar constantemente a repetir o papel de Tony Stark, embora este seja o elemento mais positivo desses filmes de uma franquia que depende imenso do actor. Em "The Judge", Robert Downey Jr. atribui um enorme sarcasmo e confiança ao seu personagem, conseguindo com facilidade variar para os momentos mais dramáticos e expor-nos a fragilidade de Hank, um elemento que aos poucos parece começar a apreciar este "regresso a casa". Não existe uma mudança de um momento para o outro, mas parece óbvio que estes episódios vão deixar marca no protagonista, com a versatilidade e o talento de Robert Downey Jr. a atribuírem outra dimensão a este personagem, algo evidente em boa parte das cenas que este integra. Veja-se quando está num bar e facilmente exibe o seu talento para resolver problemas, bem como a sua sagacidade em tribunal, sendo acompanhado por um elenco secundário bastante competente, algo visível em elementos como Billy Bob Thornton, Vera Farmiga, Vincent D'Onofrio e Jeremy Strong. Billy Bob Thornton como o advogado rival, um elemento que pretende a todo o custo provar que o pai do protagonista é culpado, conseguindo estar praticamente à altura de Hank, após se ter revelado "areia a mais para o camião" de C.P. Kennedy. Vincent D'Onofrio como o irmão mais velho de Hank, um elemento que ficou a vida toda no local onde nasceu, que perdeu uma carreira promissora no desporto, formando família, ao mesmo tempo que procura cuidar de Dale, o irmão mais novo. Por sua vez, Vera Farmiga prova que uma actriz de talento consegue fazer muito com pouco, com o argumento a dar pouca substância á sua personagem, mas a actriz consegue convencer como a ex-namorada de Hank, uma mulher que desde sempre cuidou da sua filha, que estabeleceu amizade com a mãe do protagonista, tendo um restaurante/bar e um fraquinho pelo personagem interpretado por Robert Downey Jr. "The Judge" apresenta um leque alargado de personagens, bem como uma ambição que vai muito mais além do que ser um filme de tribunal. Aliás, considerar "The Judge" um filme de tribunal é um erro. Acima de tudo está a relação conturbada entre um pai e o seu filho, exposta sem grande imaginação mas de forma convincente, com a dupla de protagonistas a sobressair. No entanto, existe ainda espaço para procurar explorar a relação entre os três irmãos, entre o protagonista e a sua antiga cidade, com o filme a assumir os seus clichés sem grandes problemas, algo que resulta numa obra relativamente competente e agradável de seguir. O argumento e a cinematografia rondam a mediania, com a banda sonora a variar entre o intrusivo e o adequado, num filme cujos desequilíbrios são equilibrados por Robert Downey Jr. e Robert Duvall. Apesar de todos os clichés que se podem apontar a "The Judge", também não deixa de ser notório que existe uma procura de contar uma história, de apresentar sem rodeios um relacionamento complicado entre um pai e o seu filho, com David Dobkin a destacar-se sobretudo pela forma como deixa espaço para os seus actores e actrizes sobressaírem, algo que resulta num filme bem intencionado, a espaços competente, cuja dupla de protagonistas vale por si só o preço do bilhete. Ou seja, que se lixem os consensos dos tomates.

Título: "The Judge".
Título em Portugal: "O Juiz".
Realizador: David Dobkin.
Argumento:  Nick Schenk e Bill Dubuque.
Elenco: Robert Downey, Jr., Robert Duvall, Vera Farmiga, Vincent D'Onofrio, Jeremy Strong, Dax Shepard, Billy Bob Thornton.

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