08 outubro 2014

Resenha Crítica: "Fair Play" (2014)

 "Fair Play" coloca-nos não só perante os meandros do desporto de alta competição na Checoslováquia durante o regime Comunista, mas também diante do quotidiano no território na primeira metade dos anos 80, através de um grupo restrito de personagens. Por vezes com um tom algo documental, "Fair Play" apresenta-nos a Anna (Judit Bárdos), uma jovem praticante de atletismo que ambiciona representar a Checoslováquia nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, uma competição que vai decorrer em 1984. Não somos poupados a várias cenas dos treinos desta ao lado de Marina (Eva Josefíková), a sua colega e concorrente, embora mantenham alguma afinidade, sendo ambas treinadas por Bohdan (Roman Luknár), um indivíduo disposto a tudo para vencer. Marina e Anna encontram-se no Centro de Treinos, tendo de obedecer a um conjunto de regras rigorosas, incluindo tomar esteroides como o stromba, uma substância proibida para ajudar na recuperação e potenciação muscular, algo que aos poucos coloca em risco a saúde da protagonista. Esta é filha de Irena (Anna Geislerová), uma antiga praticante de ténis, hoje empregada de limpezas, tendo visto a sua vida ser destruída devido ao marido ter partido para Hamburgo como dissidente e apoiar as causas políticas destes elementos. Irena tenta puxar ao máximo pela filha, procurando que esta consiga a todo o custo obter os números considerados mínimos para chegar aos Jogos Olímpicos e finalmente poder fugir do país, algo que nem parece ser um desejo da jovem. A vida de Anna parece dividir-se entre os treinos e a relação com Tomas (Ondrej Novák), um indivíduo que toca numa banda e tem um pai que é biólogo. As cenas entre o casal surgem marcadas por uma serenidade distinta do ritmo frenético dos treinos, nos quais o corpo de Anna é testado ao máximo e os seus sentimentos pouco interessam desde que cumpra com os resultados pretendidos. Esta apresenta uma enorme proximidade com a mãe, vivendo com a mesma, enquanto Irena procura que esta se concentre na competição, mesmo que isso implique injectar esteroides na filha quando esta decidiu deixar de tomar os mesmos. Irena tem ainda uma forte amizade com Marek Kriz (Roman Zach), um dissidente, ajudando este a copiar textos considerados anti-regime, algo que a coloca na alçada das autoridades, uma situação paradigmaticamente visível quando a sua casa é revistada de forma desumana. Aos poucos percebemos que a vida destes personagens se encontra maioritariamente controlada pelo sistema político que os integra, com Irena a ser espiada devido à sua amizade com Marek (é praticamente impossível não nos recordarmos de "A Vida dos Outros"), Anna a ser obrigada a ter rendimento para não ser expulsa do Centro Desportivo, enquanto Andrea Sedlackova aborda um drama que tem como pano de fundo um período melindroso da ex-Checoslováquia (quando ainda estava sob a alçada da União Soviética). Com um ritmo bastante fluído e um argumento marcado por alguma inteligência, "Fair Play" apresenta-nos ao relacionamento de uma mãe e a sua filha, num território onde as condições para viver e para o livre arbítrio estão longe de ser as ideais. Irena tornou-se uma empregada de limpezas e acabou por se afastar do esposo. Anna vive para os treinos, tendo de integrar o sistema ou ser rejeitada pelo mesmo, apesar de mostrar alguma resistência e ter ideais fortes. A atitude de Anna distingue-se bastante da de Marina, com esta última a apresentar pouca preocupação em injectar esteroides no seu corpo, desde que consiga os objectivos pretendidos, uma situação que evidencia bem os contrastes entre as duas atletas, bem como a naturalidade com que o doping era visto por alguns elementos. 

Vale tudo para vencer para os elementos responsáveis pelo treino de Anna, uma situação exposta na figura de Bohdan, o impetuoso treinador de Marina e Anna. Roman Luknár é capaz de atribuir um tom algo soturno a Bohdan, um elemento que vemos quase sempre a acompanhar Anna nos treinos, seja no pavilhão, seja ao ar livre (como na montanha), seja na piscina, enquanto esta procura conseguir melhorar a cada dia que passa. Esta é também a história de uma jovem que pretende singrar no mundo do desporto, embora seja contra a utilização de Stromba, apesar de ser traída pela sua mãe. Diga-se que a progenitora nem parece mal intencionada, procurando acima de tudo que a sua filha consiga sair do país e assim finalmente poder ter liberdade de escolha, algo que causa um momento de maior tensão entre as duas. Anna Geislerová parece ser a calma em pessoa como Irena, conseguindo espelhar o ressentimento desta mulher por não ter saído do país, procurando um futuro diferente para a filha, esperando que esta saia da Checoslováquia. Esta é uma nação representada como opressora, onde as casas podem estar sob escuta, os cidadãos vigiados por serem contra os ideais do Governo vigente, enquanto os personagens são apanhados no meio de todo este turbilhão. Veja-se o revés que a relação entre Tomas e Anna sofre devido a esta situação, mas também a própria perseguição a Marek, bem como a forma como a intimidade de Irena é desrespeitada. No centro de tudo também está a relação entre uma mãe e a sua filha, exposta com algum realismo e humanidade, onde por vezes nem sempre as melhores opções para uma parecem ser as da outra, com Anna a parecer bem mais naïve do que a mãe. Judit Bárdos interpreta com eficiência esta atleta, convencendo quer nas cenas de maior pendor dramático com a mãe e o namorado, bem como num telefonema feito numa cabine telefónica para o pai, quer nos momentos mais físicos. Anna é uma jovem que gradualmente começa a querer desafiar as regras que lhe impõem, apesar de perceber que sem estas será muito difícil singrar numa nação que se procura imiscuir nas decisões dos seus habitantes. Nesse sentido, "Fair Play" procura recuperar a atmosfera da época, sem recursos a falsas nostalgias, exibindo que estamos perante um Governo disposto a tudo para contrariar os princípios do filme no que diz respeito ao desporto e tudo o resto, com Andrea Sedlackova a abordar com alguma sagacidade a utilização dos esteroides nos atletas desta nação, bem como os efeitos nocivos dos mesmos, não só pelos perigos que podem causar a nível físico, mas também por poderem causar a desqualificação e desvirtuarem a verdade desportiva. 

Os rumores dos esteroides nos atletas soviéticos, durante a Guerra Fria, não são novidade, ou não fosse um período em que uma mera competição desportiva logo ganhava enorme significado político. Não é que o dopping só exista neste período e nos países ligados à União Soviética. Veja-se o recente escândalo protagonizado por Lance Armstrong, ídolo para muitos que viu o seu nome ser arrastado para a lama após confessar tomar substâncias dopantes. Andrea Sedlackova aborda estas temáticas de forma bastante simples, sobressaindo sobretudo devido ao realismo que procura incutir na atmosfera política e social deste tempo, para além de nos apresentar a uma protagonista que facilmente capta o nosso interesse devido aos episódios que a envolvem. As cenas dos treinos e das competições são filmadas de forma sóbria, sendo capazes de transmitir o esforço que Anna incute para melhorar a cada dia, bem com as dúvidas que lhe começam a surgir. Existe uma cena em que é particularmente marcante, nomeadamente, quando Anna se sente mal e o treinador quer que esta prossiga, exprimindo bem a forma como estes treinos pouco respeitavam o atleta como ser humano. As cenas do treino contrastam com a intimidade no interior do lar e a cumplicidade que tem com a mãe, com as primeiras a evidenciarem alguma frieza, algo dicotómico do lar simples e acolhedor de ambas. É neste espaço que Irena copia os textos de Marek, mas também onde Anna procura colocar as ideias em dia, embora a vida de ambas esteja longe de ser livre. Diga-se que a rádio que estas ouvem é a Europa Livre, um pequeno pormenor que expõe bem o feitio determinado e subversivo destas mulheres, com o argumento a ser bastante assertivo na construção destas duas fortes personagens femininas que vivem num período conturbado da História da Checoslováquia. Os cenários exteriores indicam que estamos maioritariamente na época de Outono e Inverno, com as folhas caídas, a presença da neve e as roupas "pesadas" a indicarem esta situação, embora a maior frieza pareça surgir dos elementos políticos que rodeiam estas duas mulheres, quer seja o treinador e os elementos ligados ao comité desportivo, quer sejam os agentes que invadem as suas casas. A arquitectar toda esta narrativa está uma surpreendente Andrea Sedlackova, uma cineasta que procura apresentar algum rigor histórico, embora tome algumas liberdades ao serviço da narrativa, colocando-nos perante um competente drama humano. Entre a política e o desporto da época, "Fair Play" apresenta-nos de forma bastante simples a uma história intrincada, onde está muito mais em jogo do que a qualificação para os Jogos Olímpicos, com a cineasta checa a surpreender pela positiva na sua terceira longa-metragem como realizadora.

Título original: "Fair Play".
Realizadora: Andrea Sedlácková
Argumento: Andrea Sedlácková e Irena Hejdová.
Elenco: Vlastina Svátková, Judit Bárdos, Anna Geislerová, Roman Luknár.

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