07 outubro 2014

Resenha Crítica: "The Boxtrolls" (Os Monstros das Caixas)

 Elogio à diferença e capacidade de superação, "The Boxtrolls" pode não ser o mais imaginativo filme da Laika mas nem por isso deixa de ser uma proposta que deve ser tida em consideração, surgindo como uma obra de animação capaz de chegar simultaneamente às crianças e aos adultos. O filme realizado por Graham Annable e Anthony Stacchi é ainda marcado por um cuidado trabalho em stop motion, apenas prejudicado em alguns momentos pelo 3D (está no filme praticamente apenas para "sacar" mais dinheiro aos pais), enquanto somos apresentados à peculiar história de Eggs. Este foi supostamente raptado pelos "Monstros das Caixas", ou pelo menos é o que pensam os humanos de Cheesebridge, tendo sido colocado à guarda destes seres, onde foi educado de forma muito própria, formando amizade com estes monstros de distintas formas cujas caixas de cartão que utilizam simbolizam os seus nomes e servem para se esconderem dos humanos. Estes "monstros" habitam nas zonas subterrâneas, onde criaram um abrigo com diversas condições para a sobrevivência, alimentando-se de insectos, enquanto pela calada da noite invadem a superfície para encontrarem bugigangas nos caixotes do lixo. A fama de raptores de crianças e, sobretudo, a possibilidade de poderem roubar todo o queijo da cidade conduzem a que Archibald Snatcher convença o Lorde Portley-Rind a deixá-lo exterminar estes monstros, pretendendo receber em troca o chapéu branco, um símbolo de poder no interior da cidade, dando-lhe não só direito a governar, mas também a degustar diversas especialidades de queijo. Portley-Rind é um político algo inepto, mais preocupado em provar queijos do que em governar, sendo pai de Winnie Portley-Rind, uma jovem impertinente e algo mimada que pouca atenção recebe do progenitor. Em contrapartida, Eggs forma uma larga amizade com os "Boxtrolls", tais como Fish, Shoe, entre outros, com o filme a deixar-nos perante uma miríade de seres que facilmente nos conquistam, apesar do seu aspecto físico parecer ter saído dos monstros dos filmes de terror. Quando vários Monstros das Caixas são raptados por Archibald e os seus três lacaios, Mr. Gristle, Mr. Trout, e Mr. Pickles, Eggs decide ir até à superfície para procurar salvar a sua "família". É na superfície que este conhece Winnie, com quem forma gradualmente uma relação de amizade, apesar das notórias diferenças a nível de personalidade que ambos apresentam, com o protagonista a pensar inicialmente que é mesmo um "monstro da caixa". Junto dos humanos, este protagoniza alguns episódios caricatos, fruto da sua inadaptação ao convívio com os mesmos, tendo de correr contra o tempo para salvar os seus companheiros e a sua vida.

Não faltam alguns revezes e reviravoltas, bem como alguma aventura ao longo de "The Boxtrolls", um filme de animação que procura defender o direito à diferença e expor os perigos que os estereótipos e o medo do desconhecido podem causar. O medo e desconhecimento dos humanos em relação aos monstros não está assim tão distante de alguns dos episódios negros da nossa História, onde assistimos a guerras e extermínios devido ao receio, ignorância, preconceito e motivações políticas. Veja-se o caso dos índios nos EUA, bem como o Holocausto, para além de algumas colonizações que correram de forma mais sangrenta, entre vários outros exemplos. No caso dos monstros das caixas, estes são figuras inofensivas, incapazes de falarem como os humanos, bem intencionados, embora o seu aspecto seja bem distinto do nosso, apesar do filme em alguns momentos falhar em explorar alguns elementos individuais destes seres. As caixas permitem que estes se escondam no seu interior, algo que não acontece com Eggs, demasiado alto para caber na mesma. Este é um jovem algo desajustado da realidade dos humanos, fiel aos monstros, que se envolve numa aventura de difícil resolução enquanto procura conhecer-se melhor a si próprio, tornando-se num herói improvável. O enredo e o arco do personagem não é dos mais originais, com a história, apesar das suas meritórias mensagens, até ser bastante genérica, mas a dupla de realizadores consegue incutir alguma dinâmica e interesse à narrativa, sabendo utilizar alguns lugares-comuns a favor do filme. Veja-se a capacidade do protagonista em superar-se e procurar lidar com uma descoberta relacionada com a sua identidade, bem como a sua relação com Winnie, para além de um personagem relevante que descobre quando se encontra preso, numa história que consegue chegar facilmente a adultos e crianças, algo que parece ser tradição da Laika, o mesmo estúdio que nos trouxe "Coraline" e "ParaNorman". O estúdio beneficia ainda da boa qualidade do stop-motion e a capacidade desta técnica dar um tom especial a um filme de animação que tem sido demasiado desprezado pelo público no seu país de origem. Veja-se o cuidado na elaboração dos cenários, quer na cidade onde todos parecem ser fãs de queijo (um local que parece saído da Inglaterra Vitoriana, com o filme a ter um tom de época), quer no plano subterrâneo, onde parece existir uma certa nostalgia ou não fosse o caso destes monstros reaproveitarem objectos que os humanos já não parecem querer utilizar. Temos ainda o interessante caso de dois lacaios de Archibald questionarem se são eles os vilões ou os heróis, com o primeiro a dar a ideia de que está a procurar salvar a cidade, quando apenas pretende exterminar os monstros para conquistar poder no interior da mesma e poder ir às provas de queijo, apesar de ser alérgico ao mesmo.

A alergia de Archibald ao queijo permite alguns gags ao longo do filme, com "The Boxtrolls" a não descurar os elementos de comédia e contar com alguns gags e humor slapstick capazes de despertar alguns risos. No entanto, não é um filme para fazer rir imenso, sobressaindo mais pelas mensagens que pretende transmitir e pela forma gradual como a narrativa vai aumentando de intensidade, apesar de estar longe de surpreender. Ou seja, funciona como entretenimento para toda a família (tendo até algumas piadas e temáticas que só vão ser entendidas pelos adultos, para além de um momento ou outro que até pode ser assustador para os mais jovens), conta com um elaborado trabalho em stop-motion, os personagens são relativamente interessantes, apresenta um tom negro muito próprio dos filmes de animação da Laika, embora falte-lhe alguma capacidade de surpreender. Temos ainda uma banda sonora que sobressai, sobretudo com a música "Quattro Sabatino", bem como no número musical da Madame Frou Frou, uma cantora que esconde uma identidade surpreendente, para além de contarmos com uma pouco subtil crítica ao mundo da política através do pai de Winnie, um indivíduo que se preocupa antes com o acessório do que com aquilo que é realmente importante para o povo. Essa crítica surge ainda presente quando o personagem e os seus homens de confiança preferem investir num queijo de enormes proporções (em formato de roda), ao invés de utilizarem o dinheiro para construírem um hospital, tal como estava previsto. Nem é preciso recuarmos muito, basta olharmos para o dinheiro investido em estádios de futebol no Europeu aqui em Portugal (quando em alguns casos nem são utilizados), bem como no Brasil para o Mundial e percebemos que as prioridades por vezes parecem andar trocadas (e nem vamos entrar por caminhos mais críticos do ponto de vista político, com "The Boxtrolls" a não esconder que também pretende chegar aos adultos). Encontramos ainda um conjunto de personagens bastante peculiares, típicos das obras da Laika, por vezes até com aspecto algo assustador, no caso, os Monstros das Caixas (elaborados com uma enorme minúcia), num filme que teve como base o livro "Here Be Monsters!", embora a história do seu protagonista pareça ter claramente sido inspirada em Tarzan. Com um protagonista relativamente interessante, um bom trabalho de stop motion, aventura, algum humor e emoção, "The Boxtrolls" não compromete e evidencia a capacidade da Laika em gerar filmes de animação que conseguem chegar aos espectadores de várias faixas etárias sem nunca descurar o seu público-alvo: os mais novos.

Título original: "The Boxtrolls".
Título em Portugal: "Os Monstros das Caixas".
Realizadores: Graham Annable e Anthony Stacchi.
Argumento:  Irena Brignull e Adam Pava.
Elenco vocal original: Isaac Hempstead-Wright, Elle Fanning, Ben Kingsley, Toni Collette, Jared Harris, Simon Pegg, Nick Frost, Richard Ayoade, Tracy Morgan.

Sem comentários: