14 outubro 2014

Resenha Crítica: "The Babadook" (O Senhor Babadook)

 Com uma atmosfera opressora, adensada pelos seus planos fechados e um trabalho de sonoplastia meritórios, "The Babadook" troca os sustos avulsos por uma tensão gradual e latente durante boa parte da narrativa, fazendo com que temamos o pior em relação ao futuro da dupla de protagonistas. No centro de tudo encontra-se Amelia (Essie Davis) e Samuel (Noah Wiseman), o seu filho, um jovem com seis anos de idade. Esta é uma mulher que perdeu o marido num acidente de automóvel há sete anos, devido ao esposo ter conduzido de forma acelerada, uma situação gerada por esta se encontrar em trabalho de parto. A condução imprudente levou a um mortal acidente de viação, com Amelia a associar o nascimento do filho à morte do esposo, algo que gera alguma dificuldade desta mulher em amar o seu rebento, apesar de se esforçar para alcançar esse sentimento. Amelia é uma mãe solteira solitária, que trabalha num lar de idosos, tendo uma depressão latente que é adensada pelo relacionamento complicado que mantém com Samuel. Este é um jovem problemático e algo violento, que teme a possibilidade de ter monstros no seu quarto, procurando armar-se de forma a defender-se de um possível ataque, assustando as crianças da sua idade a ponto de o quererem afastar da escola e integrá-lo num programa de ensino especial, algo que é do desagrado de Amelia. Samuel é um jovem algo peculiar, sem problemas em dizer o que pensa mesmo que sejam falas algo macabras que resultam em algum humor negro, apresentando claros problemas de relacionamento com os outros seres humanos, sobretudo os da sua idade, uma situação latente na festa de aniversário de Prue, a sua prima, onde parte o nariz da mesma. Quando a mãe lhe lê "Mister Babadook", um livro de banda desenhada tridimensional que se encontrava na estante do jovem, que conta com o monstro do título como protagonista, o jovem Samuel fica obcecado pelo mesmo, gerando um comportamento por vezes agressivo, preocupando a sua mãe, ao mesmo tempo que deixa a paciência desta no limite. Essie Davis exibe paradigmaticamente essa angústia e cansaço de Amelia através do seu olhar, por vezes marcado por algum vazio, próprio de alguém que ainda não conseguiu largar completamente o passado e tem ainda de lidar com um filho problemático que exige imenso de si. Não dorme, não ama, os seus sentimentos parecem cada vez mais um vazios, perdendo-se entre uma profissão pouco estimulante e um filho que exige uma atenção desgastante. Mais do que explorar sustos avulsos, "The Babadook" procura abordar as dificuldades de uma mãe solteira em cuidar do seu filho, dos sacrifícios feitos em prol deste, com a saúde mental de Amelia a parecer deteriorar-se pelo caminho, exibindo alguma frustração pela incapacidade em lidar com o petiz apesar de se esforçar nesse sentido. Aos poucos começa a entrar numa espiral descendente que se adensa quando o misterioso ser aparece em forma física e parece possuí-la, soltando os seus desejos mais reprimidos. Fica o jovem Samuel em perigo, com o seu medo de monstros a parecer afinal algo justificado, num filme cujo maior foco é a relação conturbada entre uma mãe e o seu filho. Ou, se preferirmos, muito se concentra nas dificuldades de uma mulher em ser mãe, com o feitio de Samuel e a solidão a que esta está sujeita a piorarem tudo.

 A solidão de Amelia é latente. Claire, a irmã, pouco lhe liga, sobretudo devido a não apreciar a presença de Samuel, o trabalho no lar é deprimente, ao contrário do seu anterior emprego no qual escrevia artigos para crianças em jornais, algo que teve de deixar de fazer, tendo na Srª Roach (Barbara West),uma vizinha idosa que padece de Parkinson, um porto de abrigo. Amelia tem num colega de trabalho um elemento masculino interessado em si, embora o argumento raramente dê atenção a esta subtrama, uma ponta solta que poderia e deveria ter sido resolvida ao longo do filme. Este é uma das poucas falhas a apontar a Jennifer Kent em "The Babadook", a obra que marca a estreia desta actriz australiana na realização de longas-metragens, com esta a mostrar que sabe e respeita o legado que lhe antecedeu, surpreendendo pela maturidade apresentada. A certa altura do filme encontramos Amelia a fazer zapping, algo que por vezes permite a "The Babadook" deixar-nos perante trechos de "I Tre Volti della paura" de Mario Bava, entre muitos outros, recuando até ao cinema mudo (incluindo a Georges Méliès), exibindo o fascínio de Jennifer Kent pelo cinema do género, procurando homenagear várias obras cinematográficas ao incluir pequenos trechos no seu filme. Jennifer Kent sabe utilizar vários dos elementos dos filmes associados às obras de terror ao serviço do enredo (embora seja tão cliché que o cão fofinho seja sempre o primeiro a morrer), construindo uma obra cinematográfica onde o maior terror advém dos elementos que menos se esperam. É na relação entre a mãe e filho que se centra boa parte do enredo, com a possessão e o Sr. Babadook a simbolizarem os desejos reprimidos desta mulher que não consegue amar totalmente Samuel. Quer esta queira, quer não, o nascimento de Samuel está associado à morte do esposo. Como lidar diariamente com alguém que não amamos totalmente ou associamos a um dos episódios mais negros das nossas vidas? Parte do enredo de "The Babadook" centra-se nestas questões e diga-se que não existe uma resposta fácil para as mesmas, com Jennifer Kent a realizar um drama humano competente, onde o terror não surge em sustos avulsos mas sim no que tememos poder acontecer nesta relação familiar. Samuel parece ser um jovem algo transtornado, apresentando alguma violência e temor pelos monstros, embora adore que a mãe lhe leia a história dos três porquinhos, apesar do "lobo mau" poder  estar no interior da sua casa. Teme os monstros que podem estar debaixo da cama ou escondidos dentro do armário, tal como qualquer criança, procurando apetrechar-se para um possível confronto, algo que proporciona diversos episódios que deixam a sua mãe de "cabelos em pé", tais como levar para a escola um lançador de dardos, partir um vidro da casa, entre outros momentos. A sua mãe por vezes deixa-o dormir consigo, embora exista um momento paradigmático deste afastamento, nomeadamente quando ambos se encontram na mesma cama e Amelia nem o abraça. A própria Claire, salienta que Amelia também não tem paciência para Samuel, com o terror no filme a surgir também desta relação conturbada. A chegada de Babadook e a sua presença transtornam ainda mais esta mulher, com Jennifer Kent a criar todo um ambiente tenso, onde realmente tememos que tudo pode acabar mal para Samuel ou Amelia.

Noah Wieseman convence como este jovem peculiar e violento, pouco dado a grandes amizades embora também não pareça ser a criança mais rodeada de mimos por parte da progenitora. De Essie Davis já elogiámos o trabalho, embora valha ainda a pena realçar a forma convincente como surge mais intensa no último terço, onde uma possessão solta os seus desejos interiores. É, também, sobre os medos interiores, seja o de uma criança que teme os monstros, seja de uma mãe que teme perder a cabeça com o filho, que se concentra este filme. Jennifer Kent aposta imenso nos close-ups para evidenciar bem os rostos dos seus personagens e os seus sentimentos, aproximando muitas das vezes a câmara dos mesmos para incrementar o tom algo claustrofóbico do filme. A casa da dupla de protagonistas facilmente se torna num local perigoso, rodeado de árvores despidas de folhas, embora o perigo esteja no seu interior, sobretudo a sua cave, local ideal para os demónios invadirem as almas e trazerem o terror aos incautos que esperam escapar-se. Se inicialmente ouvimos os possíveis sons do Sr. Babadook, posteriormente este aparece pelos quartos e pelo espaço da casa, utilizando um chapéu, longas garras "à Nosferatu", surgindo quase como uma sombra, com Jennifer Kent a utilizar com contenção este personagem que gera uma enorme paranoia em Amelia (será que este existe mesmo ou terá sido criado pela mente desta mulher). Veja-se quando rasga o livro e o deita fora, com o mesmo a surgir refeito à sua porta, mas também quando vê o semblante do monstro na esquadra da polícia ou no acidente de carro que provoca e quase coloca em risco a sua vida e do seu filho. Jennifer Kent procura dar-nos pequenos rasgos que estimulam a possibilidade do terror estar prestes a surgir, tais como a luz que falta, a porta que se abre, a imagem que se esbate e fica difusa, o som que toma proporções mais elevadas, a presença do canídeo fofinho que não tem um destino lá muito agradável, com o último terço a ser marcado por alguns elementos mais convencionais do género, embora mais uma vez a cineasta aborde a questão através do ponto de vista familiar. Tudo parece simples mas muito é trabalhado, com "The Babadook" a explorar os perigos dos sentimentos reprimidos durante demasiado tempo, sobretudo quando estes se arriscam a soltar, num filme que mescla com eficácia o drama humano e terror, surpreendendo pela maturidade da cineasta. A própria paleta cromática contribui para esta atmosfera de opressão, algo que a cineasta procurou ter em atenção durante a elaboração da obra: "I had a genius production designer, Alex Holmes. We talked about how I wanted few colors, just variations on cool blue and burgundy. We stuck with those two colors in varying shades, and then black and white". Vale ainda a pena realçar o cuidado colocado na elaboração do livro "Mister Babadook" (com ilustrações de Alexandra Juhasz), com as suas figuras sinistras a  remeterem para elementos algo góticos, ao mesmo tempo que Jennifer Kent joga com as histórias dos monstros que se escondem debaixo da cama que atemorizaram várias crianças. Se no seu primeiro trabalho conseguiu dar-nos algo como "The Babadook", então é com grande curiosidade que encaramos aquilo que esta poderá fazer a seguir, comprovando mais uma vez que as mulheres estão a conseguir ganhar o seu espaço no cinema do género.

Título original: "The Babadook". 
Título em Portugal: "O Senhor Babadook". 
Realizadora: Jennifer Kent.
Argumento: Jennifer Kent.
Elenco: Essie Davis, Noah Wiseman, Daniel Henshall, Hayley McElhinney, Barbara West, Ben Winspear.

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