03 outubro 2014

Resenha Crítica: "Aimer, boire et chanter" (Amar, Beber e Cantar)

 Em "Mélo", Alain Resnais procurou evocar uma estética teatral, não faltando a presença de um pano vermelho no final a terminar o "espectáculo", tendo posteriormente adaptado duas peças de Alan Ayckbourn, algo que resultou no díptico "Smoking/No Smoking" e na longa-metragem "Coeurs". Alain Resnais recupera em "Aimer, boire et chanter" essa procura de reunir o teatro, o cinema e a música, ao mesmo tempo que desafia as barreiras destes meios artísticos naquela que é a última obra cinematográfica deste realizador de enorme relevância para a História do Cinema. Diga-se que se recuarmos mais no tempo encontramos mais referências teatrais, tais como numa das suas obras-primas, "O Último Ano em Marienbad", bem como em "Stavisky", embora em "Aimer, boire et chanter" estejamos perante uma obra marcada por maior leveza, onde a morte é confrontada, a vida celebrada e reavaliada e os personagens saudavelmente caóticos. Os cenários interiores por onde deambulam os personagens são maioritariamente e propositadamente artificiais, marcados pela presença de cortinas pintadas por onde os personagens entram e saem, qual peça de teatro, enquanto muito também ocorre fora do campo. Os próprios objectos que rodeiam os cenários são marcados por enorme artificialidade, uma situação visível no jardim de Colin (Hippolyte Girardot) e Kathryn (Sabine Azéma), um casal, onde não falta uma mesa acompanhada por duas cadeiras, um candeeiro raramente utilizado e um conjunto de flores, sobressaindo a aparente simplicidade decorativa que rodeia este espaço. A própria colocação dos personagens diante da câmara de filmar e o modo como dialogam remetem também para essa teatralidade, algo visível em momentos em que temos Colin, Kathryn, Tamara (Caroline Silhol) e Jack (Michel Vuillermoz) juntos até este último deslocar-se, existindo longas permanências nos mesmos espaços, enquanto os personagens falam imenso e expõem os seus sentimentos. Por sua vez, os cenários exteriores e naturais surgem filmados de forma bela e dinâmica, prontos a mesclar os locais e as histórias bem reais dos personagens com a teatralidade que permeia as suas vidas. Essa teatralidade é visível quando ficamos perante alguns longos monólogos dos personagens e o pano de fundo é axadrezado, com as cores a preto e branco a sobressaírem ao mesmo tempo que realçam os elementos em foco. Também temos direito a alguns cenários exteriores desenhados por Bluch, um desenhador, que surgem como apresentação aos espaços externos das habitações dos personagens, com Alain Resnais a criar uma obra meia surreal, que facilmente capta a nossa atenção. A centelha que inflama a narrativa é a notícia que George Riley padece de uma doença terminal, tendo apenas cerca de um a seis meses de vida. A notícia é contada pelo Dr. Colin à sua própria esposa, Kathryn, uma mulher faladora, que logo liga a Jack, o melhor amigo de George, a contar a triste notícia, esquecendo-se que o esposo quebrou o sigilo entre médico e paciente que existia para com o doente. A notícia deixa Jack arrasado. Este é um empresário endinheirado e infiel à sua esposa Tamara, tendo com esta uma filha, Tilly (Alba Gaïa Kraghede Bellugi). George é casado com Monica (Sandrine Kiberlain), mas esta abandonou-o devido às constantes incompatibilidades entre ambos, habitando com Simeon (André Dussollier), um agricultor aparentemente calmo que tem o hábito de chutar as árvores quando se encontra irritado (algo que proporciona alguns gags divertidos). Jack procura que Monica se reúna com George nos momentos finais da vida deste último, um desejo que esta inicialmente reluta em cumprir. 

Colin, Kathryn e Tamara participam numa peça de teatro do grupo amador local, numa zona rural localizada algures em Yorkshire. Perante a desagradável notícia em relação a George, Kathryn decide que estes devem convidá-lo a participar na peça com o grupo, naquele que poderá ser um modo deste se entreter e conviver com estes elementos. O espectáculo teatral em questão é uma adaptação de "Relatively Speaking" de Alan Ayckbourn, o autor de "Life of Riley", a peça que serviu de base para o argumento do último filme de Alain Resnais. George vai dar vida a um dos protagonistas, o namorado da personagem interpretada por Tamara, uma mulher com quem se vai envolvendo, embora nunca o cheguemos realmente a ver. Alain Resnais concentra boa parte da narrativa nos efeitos que George causa naqueles que o rodeiam, mas nunca o exibe junto de nós, numa decisão corajosa de um cineasta que aos 91 anos evidencia uma surpreendente irreverência. É difícil olharmos para "Aimer, Boire et Chanter" e não sentirmos alguma melancolia pela recente partida de Alain Resnais, com o cineasta a ter aqui um exemplar que permite terminar com chave de ouro uma carreira com um conjunto de obras que marcaram a História do Cinema. Nome associado à Nouvelle Vague, tendo a sua primeira longa-metragem sido lançada em 1959, de seu nome "Hiroshima Mon Amour", uma obra magnífica, Alain Resnais contou com uma carreira de enorme relevo, com a sua fase a partir dos anos 80 a ser marcada pela procura de jogar com o cinema e outros meios artísticos. Veja-se o já citado "Mélo", mas também "On Connaît la Chanson", adaptado de uma série televisiva, onde procurava jogar com a música, substituindo por vezes os diálogos dos personagens com a mesma. Em "Les Herbes Folles" apresentava-nos a uma história saudavelmente caótica, fantasiosa e algo surreal, onde um homem gerou uma obsessão por uma mulher cuja mala foi roubada, com este a ter encontrado a carteira com a documentação. Já lá estavam presentes Sabine Azéma, a sua esposa, e André Dussollier, colaboradores habituais do cineasta, com quem este proporcionou alguns magníficos momentos de cinema. Azéma e Dussolier também estão presentes em "Aimer, Boire et Chanter", um filme que podemos até remeter para uma junção entre as obras de Alain Resnais que procuravam lidar com questões relacionadas com a memória e a procura de jogar com diferentes meios artísticos, como "Mélo", "On Connaît la Chanson", entre outros. Veja-se que a certa altura do filme encontramos os personagens a reavaliarem as suas vidas e os seus relacionamentos, mas também a confrontarem a passagem do tempo nas suas pessoas e os feitos do passado, com a notícia da doença terminal de George a ser o gatilho que permite o disparar de um conjunto de situações algo rocambolescas. Jake fica preocupadíssimo em relação ao amigo, mas não acha grande piada em relação ao envolvimento que a esposa se encontra a desenvolver com George, enquanto Kathryn deixa-nos surpreendidos perante alguns segredos do seu passado, com os personagens a dialogarem muito entre si, seja em falas aparentemente quotidianas, seja a ensaiarem para a peça de teatro, seja a exporem confidências. George nunca aparece presencialmente ao longo do enredo, mas sabemos que este é desorganizado, conquistador e um enigma para boa parte daqueles que convivem consigo. As mulheres sentem um estranho fascínio pela sua pessoa, algo que vai colocar Colin, Jake e Simeon à beira de ataques de nervos perante a possibilidade deste poder roubar os corações das respectivas caras-metades. 

As temáticas relacionadas com as relações conjugais e o avançar da idade são abordadas com um enorme charme e humor por parte de Alain Resnais, com este a prender-nos a uma narrativa que ocorre entre a Primavera e o Outono, algo visível nos próprios cenários e tonalidades que os acompanham mas também na banda sonora. Os cenários interiores parecem saídos de um palco de teatro, tal como as próprias interpretações, com os actores e actrizes a interpretarem personagens que se encontram por vezes a ensaiar para uma peça de teatro. A certa altura do filme a peça de teatro parece apenas uma desculpa para este grupo peculiar se reencontrar e fazer sobressair as personalidades dos seus elementos. Sabine Azéma concede à sua personagem um enorme ritmo, uma mulher já na casa dos seus cinquenta e muitos anos, faladora, com um passado marcado por algumas aventuras sexuais, uma relação aparentemente estável com Colin e um vício pelo álcool difícil de esconder. Hippolyte Girardot atribui uma calma notória a Colin, um médico com enorme rigor na forma como coloca as horas nos vários relógios da casa, embora a sua vida sexual não pareça andar a correr da melhor maneira. Dialoga imenso com a mulher, com quem ensaia para a peça de teatro, embora George venha colocar a relação de ambos em perigo. Temos ainda mais dois casais, entre os quais Jack e Tamara, interpretados com competência por Michel Vuillermoz e Caroline Silhol. Esta é conhecedora das traições do marido, enquanto Jack tem uma dificuldade latente em esconder as infidelidades apesar de amar a mulher. Jack procura fazer de tudo para agradar à filha, mas por vezes parece esquecer-se que esta está quase a fazer dezasseis anos de idade. É certo que pretende efectuar uma festa de arromba para a mesma, mas nem por isso parece estar ao corrente de muito do que se passa na vida desta personagem que raramente vemos ao longo do enredo. Temos ainda Monica e Simeon, com Sandrine Kiberlain a conseguir expressar o conflito latente da sua personagem entre ficar com o novo companheiro ou regressar temporariamente para George. Já de André Dussollier, os elogios são muitos. Este esteve em "L'Amour à mort", "Mélo", "Les Herbes Folles", entre outras obras de Alain Resnais, conseguindo que o seu personagem em "Aimer, boire et chanter" tenha um dos gags mais divertidos do filme. O seu personagem ama fielmente Monica, embora esta ainda não pareça ter esquecido totalmente o marido, numa relação marcada pela presença do espaço campestre artificial, onde não falta muita lenha cortada e sentimentos exacerbados a serem expostos. O argumento é eficaz a arquitectar estes caóticos relacionamentos, numa obra onde assistimos a personagens a entrarem e saírem do "palco", com Alain Resnais a procurar respeitar a peça de teatro "Life of Riley" de Alan Ayckbourn, num filme que nunca procura apresentar um grande realismo. 

A própria peça que os personagens ensaiam acaba por se interligar com a vida destes personagens, enquanto notamos um enorme cuidado nos cenários por parte de Jacques Saulnier. Este colaborara com Alain Resnais em obras como "O Último Ano em Marienbad", trocando a luxuosa e fria mansão onde se desenrolava o enredo desse filme por um conjunto de cenários simples, cujas modificações ao longo das estações do ano vão sendo verificadas em pormenores como folhas das árvores caídas no Outono. Os cenários são ainda marcados pelas cortinas coloridas, com Alain Resnais a deixar-nos bem claro que estamos perante um filme, onde nem falta a presença de uma toupeira claramente falsa que contribuiu para este tom irreal de "Amar, Beber e Cantar". Não é só o trabalho destes elementos que sobressai, com a banda sonora a merecer algum destaque. Veja-se os sons algo agressivos na festa de anos da filha de Jack e Tamara, ao mesmo tempo que assistimos à fúria da segunda por Tilly se encontrar a dançar com George (no fora de campo). O próprio título do filme em francês remete para uma canção composta por Lucien Boyer, com as músicas a adequarem-se relativamente bem ao tom da narrativa. Existe alguma melancolia e nostalgia a rodear o enredo, onde por vezes parecendo por vezes que não nos estamos a despedir de George mas sim de Alain Resnais. Diga-se que esta nem é a primeira obra onde este aborda a morte, provavelmente a sua, bastando recuar a "Vous n'avez encore rien vu", onde Antoine d’Anthac, um argumentista de peças de teatro, reúne depois da sua morte vários elementos para darem a sua opinião sobre o trabalho de um grupo que pretende ensaiar a peça “Eurídice”. O vídeo dessa peça permite aos actores e actrizes recordarem de forma bem viva as memórias do passado a interpretarem os respectivos personagens, numa obra marcada por alguma melancolia e uma procura notória de reunir elementos de teatro e cinema. "Aimer, boire et chanter" é um pedaço delirante de cinema, onde os cenários parecem saídos de um palco de teatro e os personagens são figuras cheias de vida cujas dinâmicas permitem-nos despertar os mais diversificados sentimentos. Estes personagens amam, bebem, representam, erram, têm dúvidas, mostram que o maior palco é o da vida, aquele onde as emoções nem sempre são controláveis e fiáveis, com "Aimer, boire et chanter" a exibir a enorme incapacidade de controlarmos a passagem do tempo e evitarmos a morte. Por isso mesmo o melhor é aproveitar a vida, e ver "Aimer, boire et chanter" é exactamente isso, aproveitar alguns deliciosos pedaços de arte que o cinema tem para nos oferecer e fazer apreciar. Quanto a Alain Resnais, o mínimo que podemos fazer em sua memória é agradecer e procurar que as suas obras nunca caiam no esquecimento. 

Título original: "Aimer, boire et chanter".
Título em Portugal: "Amar, Beber e Cantar".
Realizador: Alain Resnais. 
Argumento: Laurent Herbiet e Alain Resnais.
Elenco: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihol, Michel VuillermozAndré Dussollier.

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