10 setembro 2014

Resenha Crítica: "Veronica Mars" (2014)

 Filme financiado graças aos fãs e feito para os seguidores da série "Veronica Mars", a obra cinematográfica realizada por Rob Thomas nunca deixa de ter aquele sabor a "episódio de longa duração", mas nem por isso deixa de ser um agradável regresso a este universo narrativo. Uma das séries mais injustiçadas pelas audiências e pela estação televisiva que a cancelou na sua terceira temporada, "Veronica Mars" teve no Kickstarter uma plataforma ideal para Rob Thomas, o criador da série, conseguir desenvolver um filme que continuasse os eventos da mesma, respeitando o legado deixado, ao mesmo tempo que procura atrair novos espectadores. Numa breve apresentação, "Veronica Mars" deixa-nos perante alguns dos momentos-chave que servem para recordar alguns dos episódios ocorridos ao longo da série, mas também para apresentar a mesma aos espectadores que apenas viram o filme, com Rob Thomas a não poupar nas cenas narradas pela protagonista, recuperando um pouco da atmosfera noir da série. Os eventos do filme decorrem cerca de nove anos depois dos acontecimentos da terceira temporada, com Veronica (Kristen Bell) a ter abandonado a cidade ficcional de Neptune, na California, tendo partido para Nova Iorque, onde mantém uma relação relativamente estável com Stosh "Piz" Piznarski (Chris Lowell) e se prepara para ser contratada para a Truman-Mann, uma prestigiada empresa de advocacia. Na entrevista para ser contratada, Veronica Mars exibe a sua confiança, não só nos seus estudos e currículo, mas também a enfrentar o episódio da sex tape que circulou sobre a sua pessoa, parecendo conquistar os possíveis empregadores. No entanto, tudo muda quando esta recebe uma chamada de Logan Echolls (Jason Dohring), o seu problemático ex-namorado, agora a trabalhar na Marinha dos EUA, que é acusado da morte da namorada, Carrie Bishop (Andrea Estella), uma estrela da música pop, que contava com o nome artístico Bonnie DeVille, que foi encontrada sem vida na banheira, tendo sido eletrocutada. Apesar de alguma relutância, Veronica regressa a Neptune, onde o seu pai, Keith (Enrico Colantoni), continua a trabalhar como detective na Mars Investigations, ficando surpreendido com o regresso da filha, com Rob Thomas a jogar com a nostalgia dos fãs e a colocar a protagonista a atender o telefone, qual recepcionista a ouvir sobre o caso e a fazer recordar os episódios. O pai fica contente com o regresso da filha mas também algo preocupado com a sua decisão em regressar, com a cidade de Neptune, qual espaço urbano dos filmes noir, a encontrar-se mais corrupta do que nunca, com o xerife Dan Lamb (Jerry O'Connell demasiado caricatural, a ser claramente um dos elementos em menor destaque) a parecer pouco preocupado em impor a lei. Quando todos parecem acreditar que Logan é o assassino e todas as provas parecem indicar essa situação, Veronica é a única que acredita na inocência do mesmo, gerando-se novamente alguma intimidade entre os dois. A protagonista e Logan tiveram um romance falhado no passado, com Jason Dohring a conseguir expor mais uma vez a faceta irascível do seu personagem, tanto capaz de se envolver numa luta na festa que reúne os elementos da escola secundária, como apresentar afeição para com Veronica.

Logan procura explicar a sua versão dos acontecimentos, com os flashbacks a serem utilizados de forma certeira ao longo deste filme de investigação, mas também a tecnologia, com "Veronica Mars" a não ter problemas em explorar os benefícios e os malefícios dos tablets, iphones e afins ao serviço da missão levada a cabo pela protagonista. Nesse sentido, vamos ter personagens a comunicar através de iphones, portáteis, a ouvirem através de escutas, com Veronica a acreditar que a única maneira de conseguir provar que Logan é inocente é encontrar outra possibilidade sobre o crime. Esta situação vai conduzir Veronica Mars a deixar temporariamente de lado o regresso a Nova Iorque, com esta a voltar a colocar no activo os seus dotes para a investigação, com Rob Thomas a criar um motivo suficientemente credível para esta regressar ao oficio e assim justificar a elaboração do filme. O cineasta é sagaz a mesclar aquilo que considera ser necessário para o filme e os elementos colocados para satisfazerem os fãs da série. Essa situação parece ficar paradigmaticamente representada na festa de comemoração dos dez anos da turma na escola secundária de Neptune, onde se reúnem Veronica (ainda que esta tenha pouca vontade em ir ao evento), Piz, Logan, Gia, Wallace e Cindy, "Weevil", entre outros, um acontecimento que parece ter sido incutido na narrativa mais para agradar aos seguidores do programa televisivo do que propriamente para acrescentar algo ao enredo, apesar do argumento conseguir integrar a festa na investigação desenvolvida pela protagonista. A investigação coloca a vida de Veronica em perigo, mas também a sua relação com Piz, parecendo certo que os sentimentos desta por Logan ainda não terminaram, enquanto a personagem interpretada por Kristen Bell se embrenha em busca de pistas que possam ilibar o ex-namorado. A primeira pista é Madison Sinclair (Amanda Noret), uma jovem que se veste como Carrie Bishop, procurando cantar como esta e conquistar Logan. No entanto, a descoberta sobre a estranha morte de Susan, há vários anos, numa festa num barco onde se encontravam Dick Casablancas (Ryan Hansen), Luke Haldeman (Sam Huntington), Gia Goodman (Krysten Ritter) e Stu "Cobb" Cobbler (Martin Starr), mas também Carrie Bishop, traz um elemento novo à investigação, com este episódio a poder estar ligado ao da morte da cantora. Ficamos assim perante uma investigação intrincada, onde Veronica Mars exibe os seus dotes muito à detective dos filmes noir, disparando falas sardónicas, envolvendo-se em confusões, parecendo atrair o perigo, ao mesmo tempo que volta a ter de lidar com episódios do passado e recupera antigas amizades, entre as quais com Wallace Fennell (Percy Daggs III) e Cindy "Mac" MacKenzie (Tina Majorino), com o filme a fazer um bom trabalho aos fãs, exibindo o que aconteceu a vários dos personagens da série. Diga-se que o filme reúne vários elementos da série, recuperando o tom da mesma, mas também utilizando acontecimentos dos seus episódios, desde a relação de Veronica com Logan, passando pela sex tape em que Veronica foi apanhada, até aos trabalhos desta como detective e os seus diálogos sarcásticos, mas também a sua forte ligação com o pai.

A relação de proximidade entre Keith e Veronica volta a ser exposta e explorada, com ambos a fazerem uma boa dupla, mas também a terem alguns momentos de divergência, sobretudo devido ao facto da protagonista colocar em perigo o seu novo emprego em Nova Iorque. A própria Veronica Mars parece apresentar algumas dúvidas entre ficar em Neptune e partir de novo para Nova Iorque, embora raramente acreditemos no debate interno desta. Existem muitos elementos a ligarem Veronica a Neptune, sobretudo a criminalidade que ocorre no local, quase a clamar para os seus dotes como detective serem exercidos, com a adrenalina a ser um vício para esta mulher. O final deixa água na boca aos fãs, quase que pedindo uma sequela, provando que a franquia ainda tem muito mais para nos dar, permitindo amadurecer as investigações e a própria protagonista, com Kristen Bell a ser essencial para muito funcionar. Esta interpreta Veronica Mars com um à vontade que facilmente nos conquista, com as falas sarcásticas da sua personagem a funcionarem na perfeição, mas também o seu espírito curioso, pronto a combater as injustiças e a lutar pela lei numa cidade onde esta por vezes parece uma utopia. Não é apenas Kristen Bell quem sobressai no elenco. Jason Dohring destaca-se mais uma vez como Logan, um personagem de personalidade complexa e feitio algo peculiar, que apresenta alguma química com Veronica Mars. Vale ainda a pena realçar Ryan Hansen como Dick Casablancas, um amigo de Logan, um personagem sempre pronto para surfar, participar em festas e conquistar mulheres, mas também Enrico Colantoni, com este a sobressair como o pai da protagonista, conseguindo exprimir bem a proximidade entre ambos, com o seu personagem a procurar ser a voz da razão, embora a decisão de Veronica sobre a permanência em Neptune não vá ser a mais consensual. Rob Thomas, apesar de falhar numa subtrama relacionada com o pai de Veronica Mars, sobre um caso que envolve Weevil, consegue realizar um filme que tanto consegue chegar a seguidores como não seguidores da série, embora premeie os primeiros com várias referências, incluindo a utilização do tema sonoro na música diegética. Ficamos assim perante um filme de investigação que pode claramente ser visto como um episódio de maior duração de "Veronica Mars", mas isso está longe de ser um insulto ou algo de negativo, visto que, se assim fosse, estaríamos perante um dos grandes episódios. Não falta uma investigação complexa, reviravoltas, algumas mortes, humor, elementos que parecem saídos dos filmes noir (autoridades corruptas e a espaços incompetentes, espaço citadino marcado pelo crime, o clube nocturno, a detective com falas sardónicas, entre outros elementos) e uma procura em respeitar o legado da série. No final, fica a certeza que o Kickstarter pode ser fundamental para tirar projectos como este do papel. Seria muito difícil um estúdio investir num filme a partir de uma série cancelada ("Serenity" foi uma das poucas excepções), pelo que o apoio dos fãs foi fundamental para tudo resultar. Com uma investigação intrincada, algumas reviravoltas, o mundo negro de Neptune a ser exposto eficazmente, "Veronica Mars" é uma boa adição da franquia, exibindo as qualidades da protagonista para a investigação, para além de resolver finalmente o imbróglio entre esta ficar com Piz ou Logan. O triângulo amoroso funciona, mas também a investigação e a capacidade do filme em mesclar os momentos de maior seriedade com o humor, com Rob Thomas a saber fazer render o dinheiro dos fãs.


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