22 setembro 2014

Resenha Crítica: "Nayak" (O Herói)

 Satyajit Ray é um realizador exímio a explorar a psicologia dos seus personagens, algo evidenciado em obras como "Charulata", "Kapurush", bem como em "Nayak", o filme em análise nesta crítica. Nesta obra cinematográfica voltamos a encontrar diversos elementos transversais a vários trabalhos do cineasta, tais como as temáticas universais adaptadas à cultura e sociedade do seu país, aproveitando ainda em alguns casos para evidenciar como o ocidente tem influenciado a Índia do seu tempo. Em certa medida até nos remete para cineastas japoneses como Yasujiro Ozu, Seijun Suzuki e (para dar um nome mais recente) Takeshi Kitano, capazes de expor e explorar a influência dos EUA no território durante a ocupação do pós-II Guerra Mundial e a maior abertura ao ocidente, conjugando por vezes o choque de culturas e a modernização da sociedade japonesa. Nem precisamos de ir para o Japão, veja-se o caso da França, com Jean-Luc Godard a evidenciar em vários dos seus filmes dos anos 60 a forma como os elementos da cultura americana se encontravam presentes na sociedade francesa, algo que em parte o parecia desagradar. No caso da Índia, esta nação esteve durante um largo período de tempo sob a alçada britânica, pelo que assistimos a personagens a falarem em inglês, a beberem Coca-Cola, a fazerem referências ao cinema e actores de Hollywood, um personagem a ler um livro de Perry Mason, mas também encontramos os hábitos locais, tais como a própria noção do estado da Sétima Arte na Índia e como esta ainda é vista pela população, a saudação com as mãos junto da cabeça, o crescente papel da mulher embora a figura masculina continue a ser dominadora na sociedade, o chá oriundo do país, mas também os problemas de comunicação (veja-se que o protagonista não envia um telegrama no início do filme devido a este provavelmente não chegar a tempo). Em certa parte, "Nayak" também parece ser um filme sobre Satyajit Ray, sobre os episódios que viveu quer na sua vida pessoal, quer como realizador, sobretudo a trabalhar com os actores e a mudança que os métodos de interpretação conheceram (veja-se que Ray trabalhou com não profissionais/estreantes em "Pather Panchali", a sua primeira longa-metragem e o primeiro volume da "trilogia de Apu"), mas também o medo em falhar e até algum desprezo pelos filmes comerciais feitos no seu país. Existe também um comentário sobre o cinema e a crueldade existente neste mundo, com o protagonista, um actor de sucesso, a ter a consciência que três fracassos de seguida lhe valeriam a queda no ocaso, tal como acontecera a tantas outras vedetas (um tema que continua bastante actual). A certa altura do filme, Arindam Mukherjee (Uttam Kumar), uma estrela de cinema de filmes de Bengali (Tollywood), pergunta a Aditi Sengupta (Sharmila Tagore), uma jovem jornalista, porque é que esta acha que o seu novo filme vai falhar. Esta diz que ele não colocou o seu coração no mesmo. Em "Nayak" nota-se que Ray colocou o seu coração, a sua alma, empenho e talento, naquela que é a sua segunda longa-metragem que conta com um argumento original da sua autoria (o cineasta ainda compôs a música), contando ainda com a preciosa ajuda da cinematografia de Subrata Mitra, um colaborador habitual do cineasta. Os planos são elaborados com precisão, os close-ups utilizados em momentos precisos, enquanto a câmara por vezes movimenta-se consoante os olhares e diálogos entre os personagens, algo visível num diálogo entre o protagonista e a jornalista (por vezes também incrementado por um dinâmico jogo de plano/contraplano). 

O protagonista é uma estrela de cinema, idolatrado por tudo e todos, fumador, algo fleumático, por vezes dado a exagerar no consumo de álcool, que necessita de calmantes para dormir e apresenta uma arrogância inicial que gradualmente percebemos servir para esconder a solidão que rodeia a sua vida e os erros que já cometeu no passado. Arindam prepara-se para viajar de Calcutá até Nova Deli para receber um prémio relacionado com a sua carreira de actor. Este viaja de comboio, devido a não ter conseguido passagens de avião, partilhando a sua divisória com um casal formado por Haren Bose (Ranjit Sen) e Manorama (Bharati Devi), bem como a filha de ambos Bulbul (Lali Chowdhury), com esta última a padecer de uma doença passageira e ser fã do protagonista. O actor nem pretendia efectuar a viagem, mas, depois de um escândalo num clube nocturno que envolveu uma zaragata e um affair deste com uma mulher casada que se encontra a fazer as delícias da imprensa, Arindam decide partir em viagem. Estamos em plenos anos 60, um rumor ou um erro podem destruir uma carreira, tal como nos dias de hoje (veja-se o caso de Mel Gibson). É neste comboio onde viaja Arindam que se vai desenrolar boa parte do enredo, com o protagonista a lidar com vários dos seus passageiros, mas também com os seus sonhos, pesadelos e memórias, com a viagem a surgir como uma metáfora remetendo para uma viagem ao passado do protagonista e ao desmistificar do herói. Em "The Man Who Shot Libery Valance", Maxwell Scott salienta "When the legend becomes fact, print the legend". Arindam viu toda a sua vida ser exposta como uma lenda, quase perfeita e longe de defeitos e pecados, algo que o filme vai desconstruindo, exibindo ao mesmo tempo um pouco desta hipocrisia na construção de mitos na Sétima Arte, uma situação evidenciado ao longo desta viagem de comboio. Quem já viu "Sonar Kella", um filme posterior de Satyajit Ray, certamente se recordará da boa utilização do espaço do comboio para o estabelecimento dos relacionamentos entre os personagens, incluindo entre o detective Feluda, o seu ajudante e um elemento que conhecem no local e se junta ao grupo, o escritor de thrillers baratos Jatayu. Se em "Sonar Kella" estávamos num filme de investigação destinado para toda a família, já em "Nayak" ficamos perante um filme onde Satyajit Ray exibe algumas das suas qualidades exímias em construir personagens complexos, em estabelecer subtilmente os seus relacionamentos, evitando as facilidades e os clichés (veja-se que evita dar-nos um romance entre a jornalista e o protagonista). Arindam é um indivíduo complexo. Inicialmente arrogante, incapaz de lidar com o possível insucesso, este tem na viagem de comboio até Nova Deli um momento onde finalmente tem oportunidade para estar longe de todo o mundo que o rodeia, deparando-se como elementos como Chatterjee, um idoso que não gosta de filmes nem parece apreciar o estilo de vida do protagonista, um elemento que contrasta de forma clara os antigos valores da Índia com uma maior abertura do país, para além da família Bose, entre outros. No entanto, o elemento com quem este inicialmente entra em desacordo mas gradualmente estabelece uma relação de amizade, algo que lhe permite desabafar sobre a sua vida e finalmente libertar-se da "personagem" que criaram em volta da sua figura como estrela de cinema, é Aditi, uma jovem que edita e elabora uma série de artigos para a "Adhunika" (Mulher Moderna), uma revista destinada ao público feminino. Os amigos desta aconselham-na a falar com o protagonista para procurar uma entrevista, mas este logo salienta que a sua história de vida já é por demais conhecida. Ao segundo encontro acaba finalmente por se estabelecer uma relação de proximidade entre a dupla, com os vários flashbacks a remeterem-nos para diversos momentos relevantes da vida do protagonista, enquanto este reavalia a sua carreira e a sua postura ao longo dos anos. 

Temos os seus tempos como actor de teatro, onde trabalhava para Shankarda, um homem que considerava que o verdadeiro trabalho do actor era nestes palcos e não no cinema, embora o falecimento deste elemento tenha conduzido o protagonista a finalmente aceitar a proposta de Ajoy (Subrata Sensharma) para fazer testes para entrar num filme. Acaba por trair os valores do seu mentor, conseguindo passar os testes embora facilmente entre em atrito com Mukunda Lahiri (Bireswar Sen), na época uma estrela que maltratava os seus colegas e apresentava métodos desactualizados e pouco cuidados, apresentando dificuldades na transição do cinema mudo para o sonoro. No entanto, Arindam logo se transforma numa estrela, acabando por trair muitos dos seus anteriores ideais, ao ponto de desiludir Biresh (Premangshu Bose), um amigo que precisava do seu apoio a nível político. Temos ainda o momento em que este se recorda da queda em desgraça de Lahiri e de como desprezou o mesmo, num momento que exibe bem como nesta profissão a ascensão e queda pode ser bastante rápida e o regresso ao apogeu uma tarefa improvável de ser cumprida com sucesso. À medida que o sucesso de Arindam avança, também a sua solidão parece aumentar, tendo nestas conversas com a jornalista alguns desabafos notoriamente feitos por alguém que precisa de falar e explicar como chegou a este ponto. Por vezes temos necessidade de desabafar. No caso de Arindam esta situação é notória. O próprio álcool e calmantes que consome parecem mais para esconder a sua incapacidade por vezes para lidar consigo próprio e a solidão do que algo mais. Os fãs idolatram-no. Mas este é realmente o "Herói" que aparece representado ao longo dos jornais? Ao longo do filme percebemos que não, com este a expor as suas fragilidades, qualidades, receios, ambições, erros, conquistas, ou seja, abrindo a sua alma junto de uma aparente estranha que ganha a sua confiança. Esta é muitas das vezes ouvinte mas também tem um papel activo a questionar o protagonista, com Uttam Kumar (na época uma das grandes estrelas do cinema comercial de Bengala) e Sharmila Tagore (uma colaboradora habitual de Satyajit Ray) a formarem uma boa dupla com ambos a exibirem um desprezo mútuo a nível inicial, com este a não apreciar jornalistas e esta a não gostar da altivez do actor. Kumar é capaz de expressar o carisma que o seu personagem emana, mas também a sua arrogância, fragilidade sentimento de culpa, tendo no tabaco um vício incessante, com o seu fumo a ser tão efémero como poderá ser a sua carreira. O actor é capaz de transmitir toda a complexidade do personagem, exibindo que é um homem com um conjunto assinalável de erros e defeitos, idolatrado quando está longe de ser um exemplo moral, embora nem por isso deixemos de simpatizar consigo. Tagore sobressai como uma mulher com personalidade vincada, com Satyajit Ray a procurar evitar lançar um romance entre os dois personagens, exibindo mais uma vez o crescente papel da mulher na sociedade (veja-se em “Mahanagar”). Estes são de mundos distintos e, talvez por isso, ambos acabem por conjugar tão bem, com o protagonista a ver na personagem interpretada por Sharmila Tagore a pessoa ideal para desabar sobre os aspectos mais relevantes e escondidos da sua vida. 

Aditi é uma representante da modernidade da mulher indiana (um tema também explorado em "Mahanagar"), trabalhando numa revista, embora de futilidades, não tendo problemas em confrontar as figuras masculinas, com o filme a fazer esse contraste entre as mulheres ligadas às tradições e aquelas que procuram lutar por um lugar na sociedade (visível na esposa de Bosu, mais associada à tradição familiar). Ou seja, esta viagem acaba por representar muito mais do que a viagem do actor de Calcutá até Nova Deli. "Nayak" é muito mais do que uma leitura rápida da sinopse nos pode dar. É um filme sobre um homem atormentado, mas também sobre uma mulher questionadora que poderia fazer crescer as vendas da sua revista com a entrevista, embora apresente pouca simpatia por figuras como o protagonista, ou, pelo menos, pela imagem até então criada em relação a este, algo que muda com o desenrolar do filme. No comboio, temos ainda figuras como Pritish Sarkar (Kamu Mukherjee), um publicitário que procura convencer o Sr. Bose a contratar os seus serviços, não tendo problemas em utilizar a beleza de Molly (Susmita Mukherjee), a sua esposa, para atrair o potencial cliente, enquanto esta procura ser actriz e parece pouco satisfeita com a sua vida. Neste comboio muito se passa. As rodas avançam a grande velocidade, tal como estes episódios que decorrem ao longo de vinte e quatro horas, onde Arindam revela toda a sua confiança mas também toda a sua fragilidade, com o espaço deste meio de transporte a ser cenário e personagem de "Nayak", aquela que é uma das obras-primas de Satyajit Ray. O termo obra-prima é usado e abusado muitas das vezes de forma pueril, mas neste caso aplica-se por tudo aquilo que o cineasta consegue criar: Relações entre personagens marcadas por enorme sinceridade, personagens complexos, capacidade de explorar as personalidades dos elementos principais, a subtileza como insere as questões relacionadas com as mudanças culturais na Índia, os comentários sobre o cinema local, as interpretações sublimes, os diálogos marcados por uma perícia muito própria e uma utilização pertinente dos flashbacks. Temos ainda algumas cenas belissimamente filmadas, sobressaindo as surreais cenas dos sonhos do protagonista, cheias de significado, onde o actor encontra os seus fantasmas, medos, receios, erros e percebe que talvez não esteja a ir pelo caminho certo. Existe muito pouco por onde pegar pelo lado negativo ao longo desta obra agradável, sublime na forma como procura fugir aos lugares-comuns e ao mesmo tempo também os sabe utilizar, revelando o enorme talento deste cineasta que merece claramente ser redescoberto e reverenciado.

Título original: "Nayak".
Título em Portugal: "O Herói".
Realizador: Satyajit Ray.
Argumento: Satyajit Ray.
Elenco: Uttam Kumar, Sharmila Tagore, Bireswar Sen.

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