24 setembro 2014

Resenha Crítica: "Mahapurush" (O Santo)

 "Mahapurush" coloca lenda, religião, fé, pragmatismo e charlatanice em confronto e conjunto, enquanto somos apresentados a quatro amigos que pretendem desmascarar um líder espiritual que clama ser imortal. Este indivíduo carismático, empático, bem falante e algo culto é Birinchi Baba (Charuprakash Ghosh), um homem que diz ter conhecido Jesus Cristo, Platão, Aristóteles, Einstein, Buda, mas também assistido ao nascimento e queda da cidade de Kashi, utilizando a sua "chico-espertice" para enganar aqueles que acreditam em si, tendo um enorme culto em sua volta, algo visível no início do filme, onde um grupo alargado de pessoas procurava tocar no seu pé, qual divindade viva. Este dirige-se com o seu assistente (Robi Ghosh) para um comboio onde encontra Gurupada Mitter (Prasad Mukherjee), um advogado, e a filha deste, Buchki (Gitali Roy). Gurupada encontra-se sem paz de espírito e sem grande vontade de viver desde a morte da esposa, procurando conforto moral e espiritual junto de Baba, tornando-se um alvo fácil para este homem que vive a aproveitar-se da fé e crença das outras pessoas em si. Birinchi Baba passa a contar com o apoio de Gurupada, que o recebe em sua casa e se torna seu iniciado, com este local a transformar-se num espaço onde o líder espiritual exerce as suas práticas, marcadas por rituais espalhafatosos e um conjunto crescente de elementos que se acreditam na sua pessoa. Na sua maioria são pessoas com problemas pessoais e a precisarem de algum conforto, enquanto Satyajit Ray aproveita estes momentos do culto para expor as assimetrias culturais do território indiano. A falta de cultura, empobrecimento e falta de informação podem ajudar a explicar a forma como tanta gente segue estes elementos, embora este líder charlatão não esteja assim tão distante de algumas seitas religiosas e na actualidade dos discursos inócuos "pró-empreendedorismo" onde mais do que pensar parece ser importante é ser positivo. No entanto, vale a pena realçar que Gurupada é um advogado, supostamente culto, mas mesmo assim procura tornar-se iniciado deste homem, bem como a sua filha, embora esta última pareça tomar este acto para enfurecer o seu pretendente. Buchki é alvo do interesse amoroso de Satya (Satindra Bhattacharya), um jovem bem intencionado mas com uma desastrosa capacidade para escrever cartas de amor, citando outros escritores mas colocando pouco de si e dos seus sentimentos. Satya, em conjunto com três amigos, o intelectual Nibaran (Somen Bose), um guarda livros com problemas com a esposa e um vendedor de seguros com enorme respeito pelo xadrez, decide procurar desmascarar Birinchi Baba e assim tirar o mesmo da casa da amada. Primeiro assistem a um culto, descobrindo facilmente as mentiras e os truques de Birinchi, algo que os conduz a arquitectarem um plano para colocar em causa o líder espiritual, ao mesmo tempo que Satya procura conquistar Buchki. Birinchi bem procura convencer tudo e todos dos seus ideais, tais como a inexistência do presente, girando o dedo indicador de uma mão para a frente indicando o futuro e o da outra mão para trás para indicar o passado, juntando os dois tempos e criando algo que tem tanto de intrigante como de ridículo. Tudo é apresentado com algum humor, ao mesmo tempo que Satyajit Ray exibe mais uma vez a sua capacidade para criar personagens profundamente humanos, marcados por especificidades muito próprias, jogando com a dicotomia entre a fé e a ciência, ao mesmo tempo que nos deixa perante um líder religioso bastante peculiar e uma história marcada por um tom farsesco.

 Birinchi Baba parece realmente acreditar nas mentiras que conta, apresentando uma convicção e uma determinação assaz curiosas, qual político pronto a apresentar as suas ideias bem estudadas. Algo anafado, com um conjunto de vestes que facilmente o distinguem da restante população, sempre pronto a apresentar um conjunto de rituais caricaturais, este homem pega em figuras históricas e ideias vagas para enganar aqueles que necessitam de apoio, com Charuprakash Ghosh a ter uma interpretação magnífica como este homem que supostamente até ensinou Einstein. É um charlatão de primeira, que procura lucrar com isso, mas ao mesmo tempo também parece conseguir ajudar aqueles que acreditam em si, sendo quase impossível sentir antipatia por esta figura. Do outro lado da mesma moeda temos os elementos pouco crédulos, entre os quais, Nibaran que procuram desmascarar as mentiras deste líder religioso, ao mesmo tempo que passam alguns momentos de ócio. A narrativa desenvolve-se sobretudo em dois cenários primordiais. Um desses cenários é a sala onde o quarteto de amigos de Satyat se reúne, com Nibaran e o vendedor de seguros a jogarem xadrez, o guarda-livros a reclamar sobre os seus problemas financeiros e as discussões com a esposa, enquanto o jovem apaixonado interpretado por Satindra Bhattacharya procura conquistar o coração da amada. "Mahapurush" consegue estabelecer as personalidades destes personagens em pouco tempo e poucos diálogos, exibindo a fraternidade entre ambos e os seus momentos de convívio, mas também pequenos elementos que os distinguem entre si e exibem que estes episódios em conjunto são recorrentes. Por sua vez, a casa de Gurupada facilmente se transforma num local de culto, com o espaço onde este pratica as suas actividades a ser marcado por rica ornamentação, fumos a saírem de dois recipientes e uma clara noção do detalhe colocado nos cenários por Satyajit Ray, exacerbada pela cinematografia discreta mas eficaz de Soumendu Roy. Ray é exímio a expor e explorar a personalidade dos seus personagens, bem como a desenvolvê-los de forma perspicaz e humana, procurando explorar as suas virtudes e defeitos, ao mesmo tempo que não opta pelo caminho fácil de "demonizar" o líder espiritual. Quem será mais culpado? Aqueles que o seguem ou aquele que diz as frases que os outros querem ouvir? Baba é um oportunista mas traz algum conforto aos elementos demasiado crédulos para conseguirem colocar em causa os seus falsos truques de magia e episódios que supostamente viveu. Diga-se que este nem parece elaborar assim tanto as suas patranhas, parecendo até pouco preparado, embora os seus fiéis aparentem acreditar em tudo o que este lhes diz. O momento em que elementos como Nibaran o questionam no culto são marcados por algum humor negro, com estas cenas religiosas a nunca serem efectivamente levadas a sério, embora Satyajit Ray nunca deixe a obra descair para a paródia. Existe um tom algo farsesco, com Ray a exibir um aprumado sentido de humor, algo que até distingue esta obra de filmes como "Nayak", "Charulata", "Kapurush", entre outros.

Temos ainda o romance problemático entre Buchki e Satya. Ela é uma jovem decidida, ele é algo atrapalhado, mas ambos parecem nutrir sentimentos amorosos, com "Mahapurush" a ser sublime na forma como explora os relacionamentos humanos. Veja-se desde logo o quarteto de amigos, que passam boa parte do tempo na mesma casa, jogando xadrez, falando sobre as suas vidas particulares, sobre a chegada de Baba, entre outros assuntos, para além do relacionamento entre Satya e Buchki. Embora as atenções do elenco estejam quase todas viradas para Charuprakash Ghosh, também Satindra Bhattacharya tem algum espaço para se destacar como este jovem algo ingénuo em relação à vida e ao amor nesta pequena localidade indiana onde a informação não parece circular com grande facilidade. "Mahapurush" teve como base o conto "Birinchibaba" de Parashuram, tendo sido originalmente lançado num double bill com "Kapurush", embora as obras partilhem pouco a nível temático, com a primeira a permitir a Satyajit Ray estabelecer um comentário sobre a forma como estes mitos e ritos associados ao passado ainda continuam enraizados na sociedade indiana dos seus dias. Já "Kapurush" colocava-nos perante um argumentista que viu o seu carro avariar-se numa pequena localidade, ficando hospedado na casa de um indivíduo bastante simpático que é casado com a ex-namorada do protagonista, o grande amor da vida deste. O tom de "Kapurush" é mais tenso e dramático, enquanto "Mahapurush" surge com uma atmosfera algo farsesca e marcada por alguma levez. "Mahapurush" coloca-nos perante um líder espiritual fraudulento e uma história marcada por um conjunto de personagens capazes de despertar algum interesse, exibindo a capacidade de Satyjavit Ray em atribuir densidade a uma história aparentemente simples mas também a sua versatilidade, realizando uma obra de um género distinto de alguns dos seus trabalhos mais conhecidos.

Título original: "Mahapurush".
Título em Portugal: "O Santo".
Realizador: Satyajit Ray.
Argumento: Satyajit Ray.
Elenco: Charuprakash Ghosh, Rabi Ghosh, Santosh Dutta, Prasad Mukherjee.

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