22 setembro 2014

Resenha Crítica: "Mahanagar" (A Grande Cidade)

 Mestre no estabelecimento das relações humanas e a explorar temáticas universais mas intimamente ligadas ao seu país, Satyajit Ray tem em "Mahanagar" uma obra maioritariamente centrada num núcleo familiar, a partir do qual o cineasta aproveita para abordar várias questões relacionadas com a cultura, sociedade e economia da Índia, um pouco a fazer-nos recordar os magníficos trabalhos de Yasujiro Ozu (capaz de abordar diversas temáticas do seu país a partir das histórias centradas em famílias). No caso de "Mahanagar" ficamos perante Subrata Mazumdar (Anil Chatterjee) e Arati Mazumdar (Madhabi Mukherjee), um casal de classe média que vive com Pintu (Prosenjit Sarkar), o seu jovem filho, bem como Bani (Jaya Bhaduri), a irmã solteira do personagem interpretado por Anil Chatterjee. Subrata trabalha num banco, numa época em que estes se encontram com a reputação em baixa, tratando da contabilidade do espaço, embora o seu ordenado mal dê para pagar as contas. Arati é uma dona de casa extremosa mas com ideias próprias, que procura cuidar da educação do seu filho, um jovem reguila e pronto a fazer perguntas, e da cunhada, uma jovem que se encontra a estudar e parece aspirar a algo mais do que ser dona de casa. Quem também vive nesta casa é Priyogopal (Haren Chatterjee) e Sarojini (Sefalika Devi), os pais de Subrata. Priyohopal é um professor reformado que vive com poucas posses, conta com notórios problemas de visão e tem como principal passatempo jogar nas palavras cruzadas, procurando por vezes pedir apoios aos seus antigos alunos e assim aproveitar alguma da gratidão destes pelos seus ensinamentos. Sarojini é uma esposa fiel e dedicada ao marido. A casa onde estes personagens habitam é limitada mas tem lugar para cada um poder andar naturalmente, mas nem por isso deixamos de notar o seu estado algo caótico, recheado de livros, roupa, móveis, parecendo que quase todos os espaços foram ocupados, embora o que pareça estar a ser mais difícil é encher o prato de comida. Perante as dificuldades do marido em conseguir sustentar a casa e fazer face às despesas, Arati decide trabalhar, algo visto quase como um acto de rebeldia, embora surja por necessidade. Estamos nos subúrbios de Calcutá, durante os anos 50, um período onde a mulher trabalhar era visto quase como uma desonra para a figura masculina e um símbolo de dificuldades quase humilhante. Arati decide ignorar estes preconceitos e concorre para o cargo de vendedora de porta a porta de produtos como máquinas de costura, entre outras para uma empresa em larga expansão. Esta conta com Himangshu Mukherjee (Haradhan Bannerjee) como chefe, um homem duro, mas a espaços compreensivo, tendo em Edith (Vicky Redwood) uma colega e amiga, apesar desta última apresentar uma preguiça latente para o trabalho. Edith é uma anglo-indíana que serve para Satyajit Ray expor de forma paradigmática a maior abertura das mulheres ligadas à cultura ocidental, oferecendo um batom a Arati, algo que esta inicialmente rejeita mas começa a utilizar às escondidas do marido. O acto de trabalhar parece ser o primeiro momento de libertação de Arati, seguido da colocação do batom nos lábios e a chegada do seu primeiro salário, com Madhabi Mukherjee a protagonizar momentos memoráveis, sublimes e cheios de sentimento, enquanto a sua personagem parece começar a conhecer-se melhor a si própria.

 Colaboradora habitual de Satyajit Ray, tendo brilhado em obras como "Charulata", Madhabi Mukherjee tem aqui mais uma demonstração do seu inolvidável talento. Marcada por enorme graciosidade, esta é capaz de exprimir simultaneamente a determinação e fragilidade da sua personagem, mas também a vontade desta mulher em contribuir para a casa. Inicialmente assusta-se mas cedo começa a habituar-se a bater de porta em porta, com o seu chefe até a pensar em promovê-la. Já o sogro deixa de lhe falar, considerando uma desonra uma mulher trabalhar, enquanto o marido reluta inicialmente em apoiar a mulher, mas acaba por aceitar, apesar de posteriormente também querer que a protagonista se demita. Esta não apresenta logo a demissão e em boa hora adia essa decisão. A crise financeira é visível pela instabilidade nos bancos, algo que conduziu ao encerramento do local de trabalho de Subrata, com este a ficar desempregado e sem forma de sustentar o lar, algo que complica ainda mais as contas da família. Invertem-se os papéis de forma surpreendente no seio do casal. Ela sustenta o núcleo familiar, ele fica em casa enquanto aguarda por melhores dias. Existe alguma ponta de humilhação, melancolia e depressão na figura de Subrata, bem como alguns ciúmes em relação ao bom convívio entre Arati e o chefe, mas também em relação ao sucesso da esposa. Esta forma ainda uma relação de proximidade com Edith, uma mulher que representa paradigmaticamente a presença inglesa no território, mais aberta a nível cultural e social, embora apresente uma grande empatia pela protagonista. Arati remete para personagens como a jornalista de "Nayak", com uma personalidade vincada, pronta a ter a sua profissão, enquanto Satyajit Ray exibe uma enorme delicadeza na forma como aborda as diferentes temáticas. Desde logo a oposição entre a tradição e modernidade, com o facto de Arati trabalhar, sustentar a casa e apresentar laivos de independência, sempre sem perder os valores morais, a exibir um papel crescente da mulher na sociedade do seu tempo, uma temática que nos volta a remeter para outros trabalhos de Ray como o referido "Nayak". O cineasta trata esta situação de forma harmoniosa, sem grandes alaridos, procurando expor esta ruptura com o passado ao mesmo tempo que exibe as permanências com o mesmo, algo demonstrado pela figura do pai de Subrata, mas também pelo protagonista pensar que o local da mulher é em casa. Priyogopal deixa temporariamente de falar à nora, preferindo antes mendigar a antigos alunos, embora também tenha os seus telhados de vidro ao não ter problema em depreciar o filho, surgindo como uma figura que nos desperta simultaneamente pena e desprezo. Este é um homem cujos melhores tempos já passaram, que confessa alguma inveja por ver os seus antigos alunos progredirem na vida, enquanto um professor mantém-se praticamente com o mesmo estatuto. Por sua vez, Subrata também parece ter algum ressentimento em relação ao sucesso da esposa, embora note-se que a ame, com Anil Chatterjee a conseguir expor as contradições do seu personagem, um indivíduo machista, que gosta de enviar a sua irmã para a "ciência doméstica", que considera que a mulher deve estar em casa, mas ao mesmo tempo não deixamos de sentir que procura apoiar a esposa. "Mahanagar" é imensamente competente a explorar a relação do casal, colocando-os com problemas aparentemente banais e quotidianos de alguém de classe média a passar por uma fase menos boa, ao mesmo tempo que evidencia a cumplicidade entre ambos. Temos ainda o filho do casal, um jovem pronto a fazer questões embaraçosas, que gosta de receber brinquedos e apresenta enorme afeição pelos pais, resultando por vezes em alguns dos momentos de leveza do filme, com Satyajit Ray a nunca se esquecer de incutir algum humor na obra.

A leveza existe mas também o drama, com a crise a ser sentida em Calcutá e na Índia. A crise no banco do protagonista é um exemplo disso, mas também os elementos no desemprego, a dificuldade em conseguir emprego, as situações adversas, ou seja, algo que acaba por ser universal, embora muito adaptado ao território. Este é o primeiro filme de Satyajit Ray a ter sido totalmente filmado em Calcutá, exibindo as suas casas, ruas, habitantes, seguindo os protagonistas mas também as mudanças sociais. A influência inglesa e ocidental é relativamente visível, tanto nos momentos em que os personagens falam em inglês, como nos produtos utilizados e até em alguns hábitos, algo que já tínhamos visto em filmes como "Sonar Kellar", "Joy Baba Felanut", "Nayak", "Charulata", entre outros, ao mesmo tempo que o conservadorismo e a cultura indiana continuam presentes. Veja-se as saudações dos personagens, as suas vestes muito próprias, os seus comportamentos (a comerem com as mãos, algo muito típico dos filmes de Ray), bem como a própria banda sonora composta por Satyajit Ray que mais uma vez adorna de forma certeira o enredo. A história é aparentemente simples, mas nos filmes de Satyajit Ray nada pode ser visto de forma sempre linear. A própria atitude da protagonista surge associada não tanto a impulso de independência mas sim às dificuldades financeiras das famílias, algo que começa a tornar banal este tipo de actos, ou seja, com a situação económica e social a também ditarem estas transformações. Nesse sentido as assimetrias sociais no interior de Calcutá, cidade de enormes dimensões e contradições, acabam quase sempre por ser bem evidenciadas, quando ouvimos falar do banco que fecha, do desemprego, mas também daqueles que prosperam. Depois temos episódios sublimes como Arati a ver o envelope com o dinheiro, a pegar nas notas e cheirá-las, com o seu rosto a transmitir uma imensidão de sentimentos que vão desde libertação, a felicidade, vitória pessoal, orgulho, com Madhabi Mukherjee a merecer mais uma vez um enorme destaque. Também a cinematografia de Subatra Mitra, colaborador habitual de Satyjavit Ray, merece a nossa reverência, seja nas cenas exteriores e pronto a seguir os personagens, seja nos planos mais fixos, com os close-ups a aproveitarem de forma exímia tudo o que Madhabi Mukherjee tem para transmitir. O argumento deste filme de Bengali teve como base o conto "Abataranika" de Narendranath Mitra, com Satyjavit Ray a aproveitar para adaptar outro livro e realizar uma obra especial. Este é ainda exímio a explorar as relações entre casais, algo evidente em "Charulata", "Kapurush", entre outros, mas sempre com enorme subtileza e capacidade de nos fazer preocupar com os personagens. Com a sua habitual perspicácia e enorme sensibilidade para analisar filmes, Roger Ebert salientou ainda algo de fulcral sobre "Mahanagar" e os filmes de Ray: "They are not foreign. They are about Indians, and I am not an Indian, but Ray's characters have more in common with me than I do the comic-strip characters of Hollywood. Ray's people have genuine emotions and ambitions, like the people next door and the people in Peoria and the people in Kansas City". Esta citação evidencia paradigmaticamente o que muito resulta de "Mahanagar" e de boa parte dos filmes de Satyajit Ray, com o cineasta a conseguir que nos importemos e envolvemos com as histórias dos seus personagens, mesclando temas locais mas ao mesmo tempo tão universais. Filme marcado por uma extrema harmonia e honestidade, mas também pronto a exibir a crueza da crise, "Mahanagar" surge sempre com enorme humanidade e atenção ao pormenor, onde uma família procura ultrapassar os problemas que a afectam, enquanto Satyajit Ray quase que nos faz sentir um elemento da mesma.

Título original: "Mahanagar". 
Título em Portugal: "A Grande Cidade". 
Realizador: Satyajit Ray.
Argumento: Satyajit Ray.
Elenco: Anil Chatterjee, Madhabi Mukherjee, Jaya Bhaduri, Vicky Redwood, Sefalika Devi, Haren Chatterjee.

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