15 setembro 2014

Resenha Crítica: "Made in U.S.A." (1966)

 "Made in U.S.A." não nos chega directamente dos EUA mas sim da mente brilhante de Jean-Luc Godard, com o cineasta a colocar-nos perante uma obra marcada por cores bem garridas, mortes, tiroteios, investigações, mensagens políticas, diálogos existencialistas, referências a elementos da cultura pop, subversão de algumas "regras" cinematográficas e uma Anna Karina "à Humphrey Bogart". Com um cinismo próprio dos detectives noir interpretados por "Bogie", esta protagonista conta com um magnetismo típico de Anna Karina, quase capaz de nos hipnotizar com o olhar, enquanto interpreta Paula Nelson, uma mulher que viaja até Atlantic City tendo em vista a descobrir as verdadeiras razões da morte de Richard P... (nunca ouvimos o seu apelido visto que existe sempre uma interrupção sonora a contrariar este desiderato), o seu namorado, um indivíduo com ideais políticos fortes. Esta não sabe ainda se o ama, algo que reconhece, embora saliente que foi compelida a resolver o caso devido ao seu sentido de ética, embora no final do filme até questionemos o mesmo, enquanto esta se embrenha numa intrincada e labiríntica investigação onde se depara com um conjunto de figuras peculiares. Começa desde logo no quarto barato onde se encontra temporariamente instalada, um local no qual recebe a visita de Edgar Typhus (Ernest Menzer), um indivíduo estranho que parece ter mais informação em relação a Richard do que revela. Paula logo lhe dá uma sapatada, deixando-o temporariamente inconsciente até aparecer David Goodis (Yves Alonso), o sobrinho de Edgar, e Doris Mizoguchi (Kyôko Kosaka), a namorada do primeiro. A referência a Mizoguchi no nome remete para o cineasta japonês Kenji Mizoguchi, com Jean-Luc Godadrd a não poupar nas referências cinéfilas que passam ainda por termos uma estrada "Preminger" em referência a Otto Preminger, sendo que este cineasta é ainda citado com a presença do Doutor Korvo, em referência ao personagem de "Whirlpool", um filme que em França teve o título "Le Mystérieux Docteur Korvo". Temos ainda a presença de várias citações e posters de filmes, sendo que "Made in U.S.A." acaba também por remeter para o enredo convulso e deliciosamente confuso de "The Big Sleep", protagonizado por Humphrey Bogart, cabendo a Anna Karina fazer as vezes de "Bogie". Mas não nos percamos e voltemos a Korvo, um médico que Paula procura em busca de informações, seguindo posteriormente para um café onde tem um diálogo sobre o sentido das palavras e a poesia até chegarem Donald Siegel (Jean-Pierre Léaud) e Richard Widmark (László Szabó), dois elementos de índole duvidosa que se envolvem na investigação da protagonista.

Paula acredita que Richard é o assassino do namorado, desconfiando da informação oficial de que este último faleceu devido a um ataque cardíaco. O personagem interpretada por László Szabó deixa-a com algumas gravações de discursos do namorado, onde este último apresenta algumas posições políticas algo musculadas. Richard e Paula partilham vários outros momentos em "Made in U.S.A.", embora raramente confiem um no outro ao longo deste enredo marcado por várias reviravoltas, corpos mortos, sangue notoriamente falso, personagens a explicarem-nos situações da narrativa, diálogos sobrepostos e muita irreverência. Jean-Luc Godard não está certamente disposto a dar-nos uma obra vulgar, algo bem visível ao longo deste filme onde o cineasta quebra regras, efectua comentários de teor político, seja sobre a esquerda, seja sobre a direita, colocando elementos sobre a cultura popular em evidência, várias citações, personagens a olharem e dirigirem-se directamente para a câmara de filmar, utilizando jump-cuts, cores garridas para incrementar ainda mais esta obra cheia de vida. O enredo avança de forma fulgurante, contando por vezes com alguns diálogos meio non-sense, onde existe um jogo entre as imagens, as palavras e os sons emitidos. Veja-se quando encontramos personagens a dialogar e não os ouvimos devido aos sons exteriores, mas também quando temos Paula e Widmark a falarem ao mesmo tempo, ou quando Godard realça a cassete e o gravador enquanto os discursos do elemento assassinado são expostos em evidência. Vale ainda a pena salientar a própria utilização da banda sonora, sobressaindo uma participação especial da cantora Marianne Faithfull, onde esta canta "As Tears Go By" durante o enredo. O momento é algo aleatório, mas de enorme beleza, contrastando com a violência que rodeia as questões das perseguições que envolvem o filme, onde a política não deixa de estar presente. Godard fala de esquerda e de direita, de fascismo, coloca o nome de Richard Nixon e Robert MacNamara em personagens, expondo algumas das suas ideias e deixando espaço para o espectador ter as suas criando uma obra viciante, capaz de estimular os sentidos e fazer com que a queiramos ver repetidas vezes. Seja para procurar decifrar todos os elementos do enredo, seja para descobrir todas as referências, seja para apreciar as imagens em movimento, seja para nos deleitarmos com as interpretações, seja para nos fascinarmos com a acutilância das mensagens políticas, "Made in U.S.A." facilmente nos envolve para o seu interior e deixa rasto pela memória. Tem muito dos filmes noir e dos filmes b de Hollywood, com Godard a não poupar a referências, incluindo na sua protagonista, naquela que é a última longa metragem onde o cineasta colaborou com Anna Karina, na época já a sua ex-mulher.

 Anna Karina surge logo de início acompanhada pelo livro "Kiss Tomorrow Goodbye" de Horace McCoy, remetendo para os personagens amantes da literatura dos filmes de Jean-Luc Godard. Diga-se que esta também dá outras utilidades aos livros, algo visível quando utiliza um livro de Culinária da Larousse para guardar uma arma, revelando-se uma digna herdeira dos cínicos detectives interpretados por Humphrey Bogart. Não sabe se amava Richard Politzer, não tem problemas em afrontar as figuras masculinas, sempre sem perder um lado feminino, com a câmara de filmar a expor o seu rosto único, marcado por uma enorme expressividade. A sua personagem envolve-se numa investigação intrincada, com o filme a funcionar como um suposto remake de "The Big Sleep" e a não ter problemas de colocar Paula perante criminosos, agentes da autoridade, situações por vezes implausíveis e muitas reviravoltas. Pelo meio temos várias referências, visíveis nos exemplos já dados, mas também nos nomes de Richard Widmark (em referência ao actor dos EUA), Don Siegel (no nome de Donald Siegel, o personagem de Léaud), para além dos néones a dizerem "Walt Disney", entre muitas outras. No entanto, não deixa de ser curioso que, apesar de todas estas referências, esta obra tenha sido elaborada pouco tempo depois de Godard ter salientado que "Cinema is capitalism in its purest form ... There is only one solution, and that is to turn one’s back on the American cinema.", embora em "Made in U.S.A." seja claro que este procure desafiar as barreiras e as regras dos géneros. O cineasta utiliza as referências mas também as subverte, apropriando-se delas como algo de seu ao longo de um filme onde as influências da banda desenhada parecem claras. Essa influência é visível não só na presença das onomatopeias, mas também na própria mise-en-scène, uma situação bem elaborada exposta por Drew Morton no artigo "Godard’s Comic Strip Mise-en-Scène" publicado no muito recomendável Senses of Cinema. A americanização da sociedade francesa é outro dos motes do filme, mas também as referências a elementos da época, entre os quais o "affair Ben Barka", algo que remete para Mehdi Ben Barka, um proeminente político marroquino de esquerda que desapareceu "misteriosamente" a 29 de Outubro de 1965. 

Encontramos ainda vários colaboradores habituais de Jean-Luc Godard, algo visível desde logo com Anna Karina, mas também Jean-Pierre Léaud, com este a interpretar um elemento que se prepara para envolver-se na investigação da protagonista. Temos ainda Lászlo Szabó como um personagem de moral duvidosa, ao longo de uma obra onde quase todos parecem suspeitos e poucos parecem inocentes, incluindo a protagonista, uma mulher de esquerda que se envolve numa série de perigos.  Como salienta Paula "Isto é como se fosse um filme de Walt Disney com Humphrey Bogart", com a personagem a dirigir-se directamente aos espectadores e a quebrar a "parede" que nos separa. Diga-se que não é uma novidade no cinema de Jean-Luc Godard. Veja-se "Pierrot le Fou", mas também "Bande à Parte", onde encontramos os personagens a dirigirem-se ao espectador, tendo consciência de estarem num filme. Nesse sentido encontramos vários elementos transversais aos filmes de Godard deste período, sobretudo a partir de "Le Petit Soldat", uma obra onde já tínhamos presentes vários elementos políticos, voltando a colocar-nos perante elementos algo à margem da sociedade, com Paula a ser uma figura misteriosa, que deambula perante os meandros do mundo do crime e da política, num local de França que bem poderia ser situado no interior dos EUA, tal a influência da cultura desta última nação. Anna Karina é filmada com alguma reverência, com Godard a ter desde sempre demonstrado uma enorme obsessão por esta bela actriz, mas em "Made in U.S.A." surge com um guarda-roupa bem peculiar, colorido ao máximo, distante da sobriedade de um Philipe Marlowe. Mas não são apenas as vestimentas de Paula que são invulgares, também o modo como "Made in U.S.A." foi filmado apresentou algumas situações pouco comuns. Veja-se que "Made in U.S:A" era filmado de tarde, tendo em vista a que Godard filmasse "Two or Three Things I Know About Her" durante a manhã, com o cineasta a filmar duas obras cinematográficas em simultâneo. Não é para quem quer, é apenas para quem pode, algo visível no trabalho final de ambos os filmes. O argumento de "Made in U.S.A." foi inspirado, ainda que de forma muito livre, na obra literária "The Juggler" de Donald E. Westlake, embora a maior inspiração para Godard seja mesmo o cinema dos EUA, dedicando este filme a Nicholas Ray e Samuel Fuller, dois grandes mestres e nomes maiores da história da Sétima Arte. Jean-Luc Godard é genial, "Made in U.S.A." comprova isso mesmo, com a criatividade do cineasta a vir ao de cima e a criar um filme magnífico, irreverente e viciante.

Título original: "Made in U.S.A.".
Título em Portugal: "Made in USA".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Anna Karina, Jean-Pierre Léaud, László Szabó, Marianne Faithfull, Ernest Menzer.

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