19 setembro 2014

Resenha Crítica: "Le Mépris" (O Desprezo)

  Jean-Luc Godard aproveita "Le Mépris" para fazer um comentário sobre a arte, sobre o processo de elaboração de um filme e a luta entre os interesses comerciais e os artísticos, sempre sem descurar uma relação amorosa que conhece o seu ocaso. O filme é desde logo marcado pela enorme sensualidade de Brigitte Bardot, mas também pela beleza das imagens em movimento e de alguns diálogos, com Godard a realizar uma obra-prima, marcante como poucas, onde mais uma vez mostra a sua irreverência. Não falta o seu comentário sobre a arte, apresentando sempre pouca simpatia pelo produtor controlador que de nada percebe, mas também um método de filmar muito próprio, usando os close-ups com assertividade, mas também os jump cuts, contribuindo para a elaboração de planos magníficos, aproveitando ainda a presença de Fritz Lang para demonstrar a sua simpatia para com o seu trabalho e paciência em Hollywood. A reacção furiosa do produtor ao filme de Lang é paradigmática de tudo o que está mal muitas das vezes no cinema de Hollywood de largo orçamento, com este a pretender sobrepor a sua opinião à do realizador, algo ainda muito actual apesar do filme ter sido lançado em 1963. Godard começa desde logo a provocar-nos, colocando a personagem interpretada por Brigitte Bardot nua, acompanhada por Paul Javal (Michel Piccoli), o seu esposo, com a imagem a ser marcada por um filtro vermelho, posteriormente retirando o mesmo, até a tonalidade azul invadir a tela. Calor, frieza, sensualidade, erotismo, escapismo, distanciamento, aproximação, vários são os sentimentos contraditórios que as imagens nos começam desde logo a transmitir, enquanto Camille (Brigitte Bardot) questiona o seu namorado sobre o gosto deste em relação ao seu corpo. Bardot aparece quase divina, intocável mas ao mesmo tempo tão palpável, remetendo para alguma da frivolidade das personagens femininas de Godard como em "Masculin Féminin" (sendo também uma das "personagens leitoras" que permeiam os filmes do cineasta). Esta é uma ex-tipógrafa e aspirante a actriz, enquanto o personagem interpretado por Michel Piccoli é um escritor de peças de teatro, contratado por Jeremy Prokosch (Jack Palance), um produtor dos EUA, para efectuar alterações no argumento de uma adaptação de "A Odisseia" de Homero, que se encontra a ser realizada por Fritz Lang (interpretado pelo próprio). O produtor não parece saber bem o que quer, ou melhor, quando vê o trabalho de Lang que já se encontra filmado fica enfurecido perante a obra tão autoral que o cineasta lhe apresenta, irrompendo em fúria e demonstrando estar pouco preocupado para com o trabalho de Fritz Lang (as dificuldades do trabalho do realizador viriam novamente a ser expostas por Godard em "Passion").

Escusado será dizer que temos aqui uma mensagem directa, clara e crítica contra o papel dos produtores e dos estúdios de Hollywood (e não só) que procuram controlar as obras cinematográficas. Diga-se que o próprio Jean-Luc Godard encontrou essas interferências em "Le Mépris", com o produtor a pretender inicialmente Kim Novak e Frank Sinatra como protagonistas, algo que o cineasta rejeitou, bem como a possibilidade de Sophia Loren e Marcello Mastroianni ficarem com os papéis que viriam a pertencer a Brigitte Bardot e Michel Piccoli. As cenas de nudez de Bardot surgiram também como exigências do produtor, algo que Godard respondeu com a abordagem dos filtros, ironizando um pouco com a situação. Godard, nome maior da Nouvelle Vague, procurou desde o início de carreira ir contra algumas das regras do cinema francês e de Hollywood, embora sem deixar de apreciar o seu cinema (veja-se a inspiração noir de obras como "Alphaville" e as várias referências cinéfilas a alguns nomes de relevo de Hollywood nos seus filmes, tais como "À Bout de Souffle"), procurando romper com os lugares-comuns e expor a sua arte. Pode-se gostar ou não, mas não se pode dizer que Jean-Luc Godard não apresenta as suas ideias e não apresenta aquilo que pretende, tendo em França uma liberdade que nunca teria se estivesse perante as amarras dos grandes estúdios. Nem todo o cinema comercial é mau, nem Godard parece criticar o mesmo, atacando sim a falta de liberdade dada ao realizador e o papel pernicioso de alguns produtores. Pelo meio temos ainda a relação entre Paul e Camille, que começa de forma tórrida e gradualmente se vai desfazendo, com esta a começar a sentir desprezo pelo antigo amado. Este não compreende o afastamento, embora até tenha anteriormente apresentado um momento de maior intimidade com a tradutora do produtor. Para este afastamento também contribuiu o envolvimento de Camille com Jeremy, com este a surgir como um homem poderoso, com um bom carro, uma casa vistosa e um perfil galanteador. No meio destes todos está ainda Fritz Lang, a interpretar uma versão ficcional de si próprio que até deve muito ter de si, com os problemas que atravessa com Jeremy a provavelmente terem sido sentidos na sua passagem por Hollywood. Lang realiza uma adaptação da "A Odisseia", cujos personagens, em particular Ulisses, Penélope e Poseidon, até encontram alguma ligação com Paul, Camille e Jeremy. Diga-se que Camille também tem muito de Anna Karina, na época recentemente divorciada de Godard, com o cineasta a fazer a ligação quando a coloca com uma peruca preta muito semelhante ao cabelo da sua ex-esposa, exibindo algumas das contingências do trabalho entre casais. Godard aproveita ainda os magníficos cenários da ilha de Capri, utiliza a luz natural de forma praticamente imaculada, beneficia do trabalho de fotografia de Raoul Coutard, mas também de uma sublime banda sonora.

Logo nos momentos iniciais Godard apresenta alguns elementos da sua equipa de forma vocal, dispensando texto, abrindo com chave de ouro esta obra baseada no livro "Il Disprezzo" de Alberto Moravia, ao ironizar com as cenas de nudez gratuitas dos filmes. Ao mesmo tempo acaba por aproveitar a nudez de Bardot ao serviço da narrativa, mas nem por isso deixa de jogar com as convenções, algo visível com a utilização dos filtros, sendo que a paradigmática utilização da paleta cromática é uma das qualidades de "Le Mépris". Tudo se conjuga para uma obra a roçar a perfeição, não só por tudo o que já foi escrito, mas também pelos desempenhos dos elementos do elenco, em particular Michel Piccoli e Brigitte Bardot. A cena em que o casal se encontra na casa em Capri, enquanto a relação se dilui diante de nós, é sublime, com os actores a serem capazes de expor de forma marcante as nuances do magnífico argumento. Bardot com a sua sensualidade e olhar aparentemente angelical mas pronta a apresentar uma frieza implacável na hora do afastamento, embora nem sempre percebamos as suas atitudes. Salienta que não foi Paul que a afastou, mas sim a vida, mostrando o seu desprezo, embora o personagem interpretado por Piccoli ainda a ame. Paul nem sempre apresenta atitudes decididas ou compreensivas, parecendo deambular entre a preferência por Lang e do produtor, amando Camille mas deixando-a ficar a sós com Jeremy quando inicialmente esta nem pretende estar sozinha com o produtor, contribuindo para uma traição da amada. Este coloca ainda a decisão de prosseguir com o argumento em Camille, apresentando uma luta interna por apenas estar a efectuar este trabalho devido ao ordenado e não por razões criativas, enquanto vive ele próprio uma história digna das tragédias gregas. A mitologia grega surge presente, mas também as ideias de cinema de Godard, que cita Bazin, critica os produtores que tudo procuram controlar e nada sabem (veja-se quando Jeremy entrega a Paul um livro sobre mitologia romana quando "Odisseia" é uma obra grega), efectua referências literárias, reverencia Fritz Lang e realiza uma obra magnífica. Jean-Luc Godard consegue mesclar uma certa sensualidade e frieza, romance e separação, comentários sobre a arte e jogos com as convenções narrativas, enquanto realiza uma das suas obras mais memoráveis.

Título original: "Le Mépris".
Título em Portugal: "O Desprezo"
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Giorgia Moll, Fritz Lang.

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