25 setembro 2014

Resenha Crítica: "Kapurush" (O Cobarde)

 Filme de aparente simplicidade mas de grande sentimento e marcado por uma elogiável cinematografia, "Kapurush" deixa-nos perante um reencontro entre um antigo casal num momento fortuito e inesperado onde sentimentos antigos são reavivados e reavaliados. No início do filme ficamos perante a chegada de Amitabha Roy (Soumitra Chatterjee), um argumentista de filmes que se encontra a viajar em busca de material para o seu terceiro argumento, a chegar a uma pequena cidade, algures entre Assam e Bengala, onde o seu carro tem uma avaria. Este não consegue arranjo nas proximidades, nem um táxi ou um comboio nas horas mais próximas, algo que o deixa furioso, acabando por passar a noite na casa de Bimal Gupta (Haradhan Bannerjee), um indivíduo afável, que ganha a vida com as plantações de chá. Amitabha aceita o convite de Bimal, mas não esperava que este último fosse casado com Karuna (Madhabi Mukherjee), a sua antiga namorada, uma mulher que outrora abandonou. A primeira troca de olhares entre Amitabha e Karuna revela alguma surpresa e mau estar entre ambos, embora estes sentimentos sejam disfarçados nos momentos em que se encontram em conjunto com Bimal. Este é um indivíduo falador, que fuma e bebe muito, parecendo amar a mulher, tendo na presença de Amitabha uma companhia temporária para afastar a solidão, procurando até que o argumentista o utilize como inspiração para criar um personagem. A câmara acompanha atentamente estes personagens, aproximando-se e afastando-se quando é necessário, deambulando perante os mesmos, exprimindo alguma desorientação a nível de sentimentos que pode existir entre Karuna e Amitabha, mas também toda a estranheza do triângulo de personagens quando se encontra em conjunto. Tudo parece simples, mas os sentimentos da dupla de protagonistas são bem complexos. Ele largou-a no passado quando ela mais precisava, mas continua a amá-la. Ela casou-se com outro homem, ainda parece sentir sentimentos por Amitabha, mas prefere desprezá-lo. As interpretações de Soumitra Chatterjee e Madhabi Mukherjee são marcadas por aparente simplicidade, com ambos a sobressaírem pela forma como conseguem expressar os sentimentos dos seus personagens de forma bem real, enquanto Satyajit Ray explora com enorme graciosidade estes acontecimentos. Acompanhamos o jantar em que este trio se reúne, o pequeno almoço e um piquenique, mas também uma série de flashbacks, com o protagonista a recordar-se dos momentos relevantes da relação com Karuna. Recorda-se do momento em que se conheceram, mas também quando pela primeira vez tocaram na mão um do outro, um momento de grande simplicidade e romantismo, com Satyajit Ray a exibir o que ambos perderam e tinham no passado num curto espaço tempo. Não existe espaço para o melodrama mas sim para sentimentos bem reais, com esta a pedir, no passado, para Amitabha se decidir em relação ao casamento, visto ter sido obrigada a ir para Patna devido ao tio ter sido transferido para este local, mas o protagonista acobarda-se em relação a compromissos sérios e a desafiar a família desta. Amitabha é o cobarde do título, mas nem por isso deixamos de compreender os seus receios e impreparação para tomar um compromisso sério, tendo na altura apenas um apartamento precário, muitos sonhos mas poucas certezas a não ser que pretendia terminar o curso e amava Karuna. Nos dias de hoje, já com a vida mais estabilizada, procura que Karuna abandone o marido, mas agora parece tarde. Procura saber se esta se encontra feliz. Ela não parece tão feliz quanto isso, mas também não demonstra tristeza. Também compreendemos Karuna e o seu ressentimento por Amitabha não ter lutado por si, encontrando em Bimal alguém que lhe dá segurança, com Madhabi Mukherjee a conseguir explorar as mudanças comportamentais da sua personagem ao longo do filme, quer nos flashbacks em que surge com uma atitude mais delicada e frágil, quer no tempo presente onde mescla algum ressentimento com sentimentos afectuosos reprimidos.

O casamento entre Karuna e Bimal está longe de parecer feliz, mas ambos também não aparentam infelicidade. Parecem complementar-se mutuamente e fazer face à solidão quotidiana, vivendo de forma algo aprazível, numa sociedade estratificada. Bimal é um homem de algumas posses, que não pode contactar com os elementos de estatuto inferior a si, uma situação reveladora da estratificação social do território e do estatuto de castas, algo que não parece disposto a romper, tendo no álcool a sua melhor companhia em momentos de solidão. Este decidiu enveredar pelo negócio da plantação de chá, enquanto Amitabha decidiu-se pela vida de argumentista, embora a sua própria história dê um argumento e tanto. Bimal parece não estar ao corrente do passado em comum entre Karuna e Amitabha, ou pelo menos procura não demonstrar de forma evidente. Este é um segredo entre a dupla de ex-namorados, partilhada com o espectador, com Satyajit Ray a tornar-nos cúmplices destes personagens. E muito do que funciona em "O Cobarde" também advém da cumplicidade que formamos com os personagens, com a atenção que passamos a tomar aos seus pequenos gestos e olhares, ao longo deste delicado drama que teve como base o conto "Janaiko Kapuruser Kahini" de Premendra Mitra. Muito é deixado para a a nossa imaginação e para nós partilharmos com os personagens, incluindo o sentimento de culpa que estes nutrem, sabendo guardar um segredo de Bimal, enquanto este se encontra a acompanhá-los amavelmente. A casa de Bimal é relativamente espaçosa, permitindo que convidados passem por lá a noite num quarto disponibilizado para a função, contando ainda com belos territórios circundantes marcados pelas plantações de chá, embora todo este espaço pareça em alguns momentos ser claustrofóbico para o protagonista, um indivíduo que inesperadamente é colocado perante o grande amor da sua vida. No cenário externo do piquenique, Amitabha procura jogar a última cartada. Parece tarde, mas será mesmo? Já para o seu intérprete é apenas mais uma demonstração do seu talento para a interpretação, exibindo o porquê de Satyajit Ray colaborar consigo num vasto conjunto de obras, incluindo em "Charulata", onde também constava Madhabi Mukherjee (onde esta demonstrou mais uma vez o seu enorme talento e a sua personagem também se envolveu numa espécie de triângulo amoroso). Também Satyajit Ray sobressai, mas pela forma delicada como explora os relacionamentos humanos, como estabelece cada pedaço da personalidade dos personagens e as suas dinâmicas, a deixar alguns comentários políticos subtis (veja-se o conformismo de Bimal perante as divisões sociais), deixando-nos com a certeza que é um cineasta especial. É capaz de explorar psicologicamente os seus personagens, de nos deixar dúvidas sobre os seus sentimentos, criando um jogo interessante entre o espectador e o filme, onde o desfecho é imprevisível. "Kapurush" foi lançado numa double bill com "Mahapurush", com ambos os filmes a surgirem como as longas-metragens seguintes a "Charulata", uma das obras-primas do cineastas, algo que tirou algum do impacto ao lançamento destas duas obras bem arquitectadas. Simples, delicado e profundamente humano, "Kapurush" é um bom exemplar da recomendável filmografia de Satyajit Ray.

Título original: "Kapurush".
Título em Portugal: "O Cobarde".
Realizador: Satyajit Ray.
Argumento: Satyajit Ray.
Elenco:  Soumitra Chatterjee, Madhabi Mukherjee, Haradhan Bandopadhyay.

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