29 setembro 2014

Resenha Crítica: "Gone Girl" (Em Parte Incerta)

 Deliciosamente negro e violento, "Gone Girl" surge como aquele que é até ao momento um dos melhores filmes sobre relações conjugais do ano, com David Fincher a aproveitar para colocar em evidência as dicotomias entre o ser e o parecer nos casamentos com uma mordacidade sublime. A banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross bombeia os acontecimentos da narrativa, conseguindo exacerbar os momentos da maior tensão ou de dramatismo, enquanto David Fincher nos apresenta a Nick (Ben Affleck) e Amy Dunne (Rosamund Pike), um casal cujos relatos que nos transmitem das suas vidas são tudo menos confiáveis. Na vida de um casal existe sempre os dois lados da história. No caso de "Gone Girl" existem dois lados, mais a verdade que esse casal não nos conta e as interpretações que tiramos dessa realidade que David Fincher nos exibe. David Dunne é um homem aparentemente afável, quase sempre sorridente, um jornalista/escritor desempregado que conhecemos no dia que se prepara para comemorar o quinto aniversário de casamento. Este tem um bar chamado "The Bar" com a sua irmã Margo (Carrie Coon), uma pedra basilar da sua existência, passando por este estabelecimento regularmente. Quando sai do bar da irmã, Nick chega a casa e encontra a mesa partida e a esposa desaparecida, contactando imediatamente a polícia, que surge representada através da Detective Rhonda (Kim Dickens) e o Detective Jim Gilpin (Patrick Fugit), com este último a apresentar uma atitude bem menos favorável em relação a Nick. O caso começa a ganhar maiores repercussões quando a polícia decide marcar uma conferência de imprensa, onde constam Nick e os pais de Amy, Marybeth (Lisa Banes) e Rand Elliott (David Clennon), algo que facilmente transforma este caso num circo mediático e o protagonista no principal suspeito pelo desaparecimento da esposa. Nick fala de forma algo fria sobre a personalidade da esposa nos relatos feitos à polícia, apresentando algum desconhecimento sobre a mesma e salientando que esta não tem amigos, apesar de não revelar tudo sobre os problemas que os afectavam. As suas atitudes exteriores, incluindo com a imprensa indicam que este ama a esposa, mas será que este sentimento é verdadeiro? Por sua vez, estas cenas no presente surgem alternadas com Amy a apresentar-nos a sua versão da história, através do diário que escreve, durante os flashbacks, onde muitas das vezes temos a voz doce de Rosamund Pike a dar-nos uma visão distinta da sua personalidade e dos acontecimentos do que aquela que Nick apresentara. Esta apresenta-nos ao primeiro encontro entre ambos, onde parecem querer conquistar-se mutuamente, colocando-nos perante a felicidade dos primeiros anos, bem como ao corrente da vida sexual activa destes dois elementos. A própria cinematografia (trabalho exímio de Jeff Cronenweth) parece apresentar toda uma paleta cromática pronta a dar um ar mais de fábula a este casal (veja-se o beijo na "nuvem de açúcar), pelo menos até estes se mudarem de Nova Iorque para Missouri, devido a uma doença terminal da mãe de Nick. Se Nick apresentava a sua esposa como alguém com poucos amigos, já Amy exibe-o como uma pessoa que gradualmente entra numa espiral descendente, após um período inicial de aparente felicidade, enquanto ficamos perante os relatos de cada um e não sabemos em quem confiar.

David Fincher joga com as nossas percepções em relação aos personagens, conseguindo que desconfiemos dos dois, embora Nick inicialmente pareça culpado em relação ao desaparecimento de Amy. Enquanto isso, a investigação policial continua, com o jogo de caça ao tesouro efectuado por Amy, em cada dia de aniversário do casamento, a deixar um conjunto de provas que podem incriminar Nick, sobretudo quando o diário desta mulher é descoberto. Esta é a primeira metade da narrativa, a partir daqui David Fincher atomiza muito do que sabemos sobre estes dois personagens e deixa-nos perante um pedaço deliciosamente negro de cinema, capaz de nos fazer sorrir perante as situações e descobertas mais macabras e regozijar perante a interpretação magnífica de Rosamund Pike. Esta tanto consegue surgir como uma mulher doce e aparentemente frágil com a mesma facilidade que nos aparece como uma femme fatale, ou, se preferirem, uma mulher louca e dissimulada, com o seu olhar cândido a contrastar ainda mais com as suas acções e expressões. David Fincher por vezes aposta em colocar os seus personagens a narrarem os acontecimentos que estamos a ver em voiceover, sabendo utilizar esta técnica de forma pertinente ao serviço do enredo, com o trabalho vocal de Pike e Affleck a ser fulcral para as percepções que vamos gerando sobre os personagens, sobretudo na primeira metade. Ben Affleck interpreta um personagem que lhe permite jogar com as suas limitações a nível de interpretação e utilizá-las a seu favor, algo que já tinha acontecido em "Argo", ao mesmo tempo que dá vida a um indivíduo que tanto parece ter de si. Nick Dunne começa por ser bastante querido e adorado pela imprensa, sendo posteriormente arrasado e julgado pelos media, até finalmente tudo voltar a mudar. Também Affleck conseguiu o sucesso inicial, tendo sido alçado quase a "pop star" com a sua relação com Jennifer Lopez em momentos que coincidiram com a entrada numa fase negra da sua carreira (veja "Gigli"), até regressar em grande como realizador. Em "Gone Girl", Nick procura passar pelo escrutínio público, exibindo sorrisos, procurando que gostem da sua pessoa e gerar empatia, algo que provoca ainda mais dúvidas nos media e volta a remeter-nos para o próprio Ben Affleck, um actor aparentemente afável nas entrevistas que dá, embora nem sempre seja devidamente respeitado. Veja-se ainda recentemente todo o burburinho gerado por este vir a interpretar Batman quando Ben Affleck já mostrou que, tendo um argumento coeso e um bom realizador a acompanhá-lo, é capaz de criar personagens com alguma complexidade. Diga-se que David Fincher, tal como fizera em "Zodiac", volta a saber jogar com o papel da imprensa na sociedade do seu tempo. Desta vez não temos a redacção do San Francisco Chronicle e o papel da imprensa escrita e televisiva sobretudo nos anos 60 e 70, mas temos a imprensa em geral, incluindo online, sem grande procura por fontes, pronta a explorar ao mínimo detalhe a vida privada, com o programa de Ellen Abbott (Missi Pyle) a ser o paradigma das limitações do infotainment. Ellen Abbott reúne especialistas, julga Nick em praça pública, procura que o público o considere um criminoso (com as redes sociais a terem um papel de relevo), enquanto a imprensa cria uma versão quase angelical de Amy, mas será que é verdade?

 Não vamos aqui estragar surpresas da narrativa mas David Fincher mostra-se mais uma vez exímio a controlar os ritmos da mesma e a controlar o suspense (as comparações com "Vertigo" não estão a surgir por acaso), destruindo por completo as visões que temos destes personagens ao mesmo tempo que cria um puzzle intrincado e deixa a nu algumas das fragilidades das relações matrimoniais. Nick e Amy criaram figuras idealizadas um do outro que, com o passar do tempo, se foram desfazendo perante a realidade. Ela queria ser a "rapariga fixe" para o agradar, ele queria estar à altura dela, embora ambos estivessem a maquilhar temporariamente as suas personalidades. Como salientou David Fincher em entrevista à Time Out, "I was looking for something I'd never seen before. The book talked about narcissism in a really interesting way—the way we concoct not only an ideal version of ourselves in hopes of seducing a mate, but in hopes of seducing someone who is probably doing the same thing. [Laughs] Gillian was looking at what it is that erodes the foundation of marriage". O resultado final, apesar de todo o humor negro, os episódios mais mórbidos e a acidez de Fincher, não deixa de ser um estudo sobre o que por vezes muito falha numa relação. Não basta um moldar-se ao outro, mas também cada um aceitar as suas personalidades, algo que nem sempre parecia acontecer neste casal. Ou seja, David Fincher acaba por conseguir efectuar um retrato sardónico e satírico das relações contemporâneas, ao mesmo tempo que nos exibe o papel da imprensa para mediatizar casos onde muitas das vezes as provas são dúbias. Nem é preciso irmos para casos desta gravidade, basta abrirmos um jornal desportivo em época de transferências que facilmente percebemos que o rigor jornalístico por vezes apresenta limitações, embora tenhamos excelentes profissionais nesta área. Nesse sentido, deixamos de estar perante a busca incessante pela verdade do personagem interpretado por Jake Gyllenhaal em "Zodiac", para termos elementos dos media que fazem deste caso um espectáculo grandioso, enquanto o público adere em massa qual reality show pronto a exibir a vida animal em directo. Grande parte do mérito de "Gone Girl" também deve ser colocado no argumento de Gillian Flynn, a autora do livro que inspirou o filme, capaz de criar uma história que vale muito mais do que pela reviravolta da sua segunda metade, apresentando várias das qualidades citadas mas também um conjunto de personagens secundários com algum relevo no enredo. Um desses elementos é Tyler Perry como Tanner Bolt, um advogado de defesa carismático que tem recursos como poucos, com o actor a surgir com uma contenção surpreendente neste papel (apesar de uma pitada de humor quando diz ao personagem interpretado por Ben Affleck que este tem de ser menos rígido nas expressões que apresenta, algo que soa a piada a interna). Outro dos casos é Carrie Coon como Margo, a irmã de Nick, uma mulher decidida que não tem problemas em confrontar o irmão, embora o defenda a todo o custo. No entanto, a relação de Margo e Nick com o pai raramente é abordada, com esta subtrama a ficar quase sempre pela rama, algo que poderia e deveria ter sido mais bem explorado. Vale ainda a pena realçar Kim Dickens como Detective Rhonda, uma polícia que parece nutrir alguma simpatia por Nick e acreditar na sua inocência, bem como Neil Patrick Harris como Desi Collings, uma espécie de Clare Quilty (um personagem de relevo de "Lolita"), um indivíduo que sempre foi apaixonado por Amy que vai ter alguma relevância nos acontecimentos do enredo.

 Mais do que a interpretação de Harris sobressair pela positiva, quem mais se destaca é o personagem, com a sua casa de férias a exibir as suas posses financeiras, bem como todo o cuidado na criação dos cenários interiores. Esta casa é marcada pelos luxos, remetendo para a personalidade marcada pelo gosto requintado de Desi, enquanto que a habitação de Nick e Amy é rodeada por alguma frieza que apenas a presença do gato parece dar alguma cor e calor. Já os cenários exteriores do Missouri são exibidos com algum rigor, com o filme a abordar locais menos "turísticos" deste espaço, tais como uma zona marcada por sem-abrigos, bem como temáticas relacionadas com o desemprego no território. Temos ainda o "The Bar", o local onde Nick se refugia, desabafando com a irmã, uma mulher também na casa dos trinta anos de idade. É sempre bom relembrar que Nick se encontra desempregado, tendo apenas o bar e leccionando alguns cursos de escrita criativa, enquanto que Amy já conheceu melhores dias, tendo na personagem de livros infantis, Amazing Amy, o seu melhor feito, embora esta até tenha sido criada pelos seus pais. Ambos são personagens complexos, que facilmente expõem os podres do ideal de casal perfeito, embora Amy ganhe claramente a Nick no capítulo da malícia, com "Gone Girl" a dar a Rosamund Pike a oportunidade de ter um dos grandes papéis femininos das estreias de 2014. A actriz parece quase possuída, com a sua Amy a ser sedutoramente doentia, enquanto David Fincher tem o condão de não julgar os seus personagens. Nem a jornalista de fofocas interpretada por Missi Pyle parece ser condenada pelo cineasta, algo que deixa esse desiderato no espectador. No final, ou pendemos para o lado de Nick ou para o de Amy, mas algo parece certo: a vida dos personagens principais de "Gone Girl" nunca mais será a mesma depois destes acontecimentos. Como salienta Amy a certa altura da narrativa "isto é o casamento". David Fincher apresenta-nos de forma negra e satírica ao lado negro das relações matrimoniais falhadas (existe até algum voyeurismo na forma como este entra "pela casa" do casal e nos deixa perante a sua bizarra realidade), conseguindo pelo caminho puxar por alguns risos, sejam estes nervosos ou apenas pela situação impensável que estamos a ver, onde tudo aparece montado de forma relativamente credível. Temos ainda alguma violência, seja esta física, seja esta a nível psicológico, com David Fincher a não poupar os seus personagens a alguns dissabores, numa obra cuja duração raramente é sentida e o humor surge nos momentos mais inesperados. Se em "Seven" e "Zodiac" a identidade do serial killer foi mantida em segredo durante boa parte da narrativa, já em "Gone Girl" o mistério passa por descobrir as verdadeiras personalidades de Nick e Amy, apesar das certezas em relação às suas pessoas apenas começarem a surgir na segunda metade do enredo, onde ficamos perante um conjunto de reviravoltas surpreendentes. Os flashbacks são utilizados de forma precisa, ao longo de um filme que procura explorar a erosão da relação de um casal, deixando-nos perante um lado mais negro da humanidade, enquanto Fincher se parece divertir a apresentar-nos a este universo narrativo marcado pela imoralidade. "Gone Girl" pode não ser o melhor David Fincher mas é certamente uma das melhores estreias nas salas de cinema portuguesas em 2014.

Título original: "Gone Girl".
Título em Portugal: "Em Parte Incerta". 
Realizador: David Fincher. 
Argumento: Gillian Flynn.
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon.

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