05 setembro 2014

Resenha Crítica: "The Giver - O Dador de Memórias"

 Quantas mais adaptações de obras literárias teremos que nos apresentem a futuros distópicos onde os destinos da humanidade parecem estar nas mãos dos adolescentes? "The Giver" é mais um desses casos, adaptando ao grande ecrã o popular livro homónimo escrito por Lois Lowry, contando com a realização de Phillip Noyce e um elenco secundário de luxo onde constam Jeff Bridges e Meryl Streep. A presença de Bridges não é puro capricho ou procura para ajudar a "vender" o filme, com o actor a ter procurado tirar a adaptação do papel ao longo de vários anos (tendo inicialmente pretendido que o seu pai interpretasse o papel de "doador de memórias", há vários anos atrás). O desiderato complicou-se quando a Warner Bros. adquiriu os direitos de adaptação, mas quando estes voltaram a ficar disponíveis Jeff Bridges voltou a ficar interessado neste projecto que a espaços comete o mesmo erro dos habitantes do planeta distópico: falta-lhe alguma emoção, inovação, risco e capacidade de criar um sentido de urgência em volta de toda a missão do protagonista. "The Giver" joga muito pelo seguro, surgindo como uma obra geralmente certinha, que procura variadas vezes expressar a meritória mensagem de preservação e partilha da memória, bem como a capacidade de sentir emoções e dos benefícios da diferença entre os seres humanos. Nesse sentido, a história consegue aguentar-se bem, exibindo de forma relativamente eficaz, ainda que simplista, a necessidade de preservação da memória e das emoções, não só as boas, mas também as más. O que seríamos de nós sem conhecimento da nossa História, sem emoções, sem nada que nos diferenciasse, sem livre arbítrio para escolher o nosso futuro? Mais do que uma questão, esta é a premissa de "The Giver", um filme cujo enredo se desenrola em 2048, onde a humanidade encontra-se dividida em "Comunidades", sendo dirigida pelos Anciãos, liderados pela personagem interpretada por Meryl Streep. Tudo é monocromático (boa parte do primeiro terço do filme é a preto e branco), os cidadãos todos os dias são obrigados a tomar uma injecção para não sentirem emoções e desejos, existem câmaras de vigilância a controlarem todos os espaços, os cidadãos são obrigados a um recolher e hora de deitar obrigatórios, as memórias do passado foram apagadas, o clima é controlado, entre outras medidas que visam criar uma sociedade utópica, sem guerras, sem conflitos, supostamente sem desigualdades, mas também sem livre arbítrio. As crianças, no berçário, são seleccionadas consoante o seu potencial e entregues a famílias, com aquelas que são consideradas inaptas a serem eliminadas, enquanto que o final do ensino secundário significa o assumir do ofício escolhido pelos anciões numa cerimónia recheada de gente (algo que exibe paradigmaticamente o papel quase totalitário e controlador do Estado junto da população). Entre esses jovens encontram-se Jonas (Brenton Thwaites), Fiona (Odeya Rush) e Asher (Cameron Monaghan), três amigos de infância que vão ter de seguir caminhos separados. Asher é seleccionado como piloto de drones, Fiona como criadora de crianças, enquanto Jonas é seleccionado como o recebedor de memórias, um cargo de difícil execução, tendo de receber as memórias que se encontram apagadas da humanidade. Como seu mentor encontra-se o "dador de memórias", interpretado por Jeff Bridges, um actor que facilmente eleva o filme com o seu carisma, presença, talento e capacidade de exibir a sapiência e alguma irreverência escondida do seu personagem, formando uma dupla relativamente sólida entre mestre e aluno com Jonas.

 Jonas vive com os seus pais (Alexander Skarsgard e Katie Holmes, na maioria desaproveitados e com personagens sem grande profundidade e complexidade) e irmã, recebendo temporariamente na sua casa Gabriel, um jovem que pode ser enviado para o outro lado da orla (um nome simpático para os anciães escamotearem que eliminam as crianças inaptas). A casa onde estes habitam é marcada por alguma frieza, quer a nível dos comportamentos, quer a nível da decoração, com excepção da relação de Jonas e Gabriel. O protagonista pouco pode falar sobre as suas aulas com o personagem interpretado por Jeff Bridges, leccionadas numa casa espaçosa, isolada de tudo e todos, marcada pela presença de muitos livros, símbolo de conhecimento e cultura, com o dador de memórias a transmitir o seu saber. Ficamos perante algumas cenas que parecem saídas de documentários, mas também do mundo bem real, onde espécies de animais são apresentadas ao protagonista, mas também cores, sons de músicas e até figuras relevantes da História da humanidade. Aos poucos o mundo de Jonas começa a ganhar cor, emoção, mas também terror por saber o que de mal a humanidade pode fazer, bem como alguma revolta pelo facto de considerar que todos deveriam ter o direito a sentirem emoções, a escolherem o seu destino, a serem diferentes, algo que procura partilhar com Fiona, o seu interesse amoroso. É com esta que Jonas pela primeira vez tem um pequeno esboço de cor, através do cabelo de Fiona, procurando incitá-la a também não tomar a vacina diária que controla as emoções e assim finalmente poderem conhecer o amor. Já imaginaram a vida sem amor? Christian, o protagonista de "Moulin Rouge", certamente perderia uma parte memorável da sua vida se não pudesse expressar toda a sua paixão por Satine, tal como Rick Blaine não teria aqueles momentos marcantes em Paris com Ilsa, ou a relação entre Jesse e Celine não teria o mesmo apelo. O comportamento irreverente de Jonas começa a torná-lo um alvo da personagem interpretada por Meryl Streep, com os pais do jovem a procurarem controlá-lo, sobretudo a mãe (Katie Holmes tem aqui um papel à sua altura, ou seja, não precisa de mostrar emoções, está "na sua praia"). Perante a possível eutanásia a Gabriel, Jonas decide raptar o jovem e cumprir um plano estabelecido que poderá permitir ao nosso planeta voltar a ser como antes, contando com a ajuda dos personagens interpretados por Jeff Bridges e Odeya Rush. Tudo é bastante previsível e Philipp Noyce por vezes poderia seguir o exemplo do seu protagonista e assumir alguns riscos, embora "The Giver" consiga em alguns momentos explorar com alguma competência uma história marcada por alguns personagens de algum interesse, contando com um dueto de veteranos de luxo, que protagoniza alguns dos melhores momentos do filme. A presença de Meryl Streep eleva a narrativa, ainda que a sua presença seja algo breve, protagonizando um momento de grande nível com Jeff Bridges no último terço da narrativa, onde ficam bem expostas as diferenças entre os personagens que interpretam. Bridges interpreta um dador de memórias sábio, que supostamente deveria apresentar uma personalidade conservadora, mas que ainda não se esqueceu da morte de Rosemary (Taylor Swift), a antiga recebedora de memórias, e anseia por alguém com a sua irreverência e procura em mudar com o status quo (embora muitas das vezes pareça implausível que consiga ter tanta liberdade de manobra numa nação tão controlada). 

Meryl Streep interpreta uma mulher fria, impiedosa, pronta a seguir as regras, cuja presença forte advém muito do trabalho da actriz. Esta teme que os seres humanos ao voltarem a sentir e a exercer livremente as suas ideias também possam voltar a criar guerras, a gerar pobreza, procurando manter o equilíbrio, ou seja, um Mundo cinzento e controlado, onde todos parecem felizes mas poucos realmente sentem emoções, considerando "um mal menor" de forma a evitar um conflito bélico desastroso como aquele que gerou todas estas medidas. O jovem Brenton Thwaites, curiosamente, apesar de não ser um portento na interpretação, nem ter o carisma destes dois veteranos, conta com uma interpretação relativamente convincente como este jovem escolhido para uma tarefa para a qual nunca se ofereceu, começando a sentir um turbilhão de sentimentos (é bastante eficaz a transmitir o entusiasmo ao receber as memórias através do personagem interpretado por Bridges). A sua relação com Fiona é típica dos romances adolescentes, muito marcada pela descoberta do primeiro amor, da procura em sentir emoção, com o relacionamento entre ambos a ganhar um novo colorido a partir do momento em que Jonas passa a poder ver as cores. As cores passam a transmitir sentimentos do personagem, estados de espírito que o marcam, embora a partir de uma certa altura Phillip Noyce pareça deixar de lado esse cuidado. Diga-se que o cineasta pareceu pouco inspirado neste trabalho, cumprindo a tarefa mas faltando-lhe um toque de asa que o retirasse de "mais um filme com um futuro distópico que conta com um adolescente ou uma adolescente como protagonista". Por vezes repete-se nas ideias (não era necessário vermos tantas vezes Jonas a receber memórias), o conflito que supostamente se desenvolve entre Jonas e Asher nunca é devidamente explorado, existe um usar e abusar da narração em off, o final é anti-climático e resolvido de forma pueril e fácil, as cenas de acção estão longe de entusiasmar ou causar algum impacto (veja-se a fuga da maternidade), para além de alguns personagens secundários serem pouco aproveitados. Veja-se o caso da mãe de Jonas, que aparece repetidamente a pedir controlo na linguagem, mas também o pai do jovem, ao longo de um filme que poderia ser ainda mais expedito a utilizar a narrativa para efectuar um comentário sobre a nossa sociedade. Não vivemos nós numa sociedade cada vez mais controlada, quer a nível de segurança (veja-se online), quer dos gostos? Não vivemos nós numa sociedade que muda os termos para suavizar expressões mais duras (não é despedimento colectivo é "maximização de recursos")? Será a História assim tão valorizada? E nesse sentido "The Giver" é um filme que abre algumas questões interessantes, sobretudo no que diz respeito à necessidade de preservar a memória e o conhecimento, de procurar aprender com os erros e o passado, de procurar manter as diferenças, de respeitar o livre arbítrio, de sentirmos cada momento em que vivemos, mesmo que para isso não vivamos numa sociedade aparentemente perfeita. A certa altura de "The Giver", temos ainda algumas belas imagens em movimento, onde o protagonista finalmente contacta com a neve, descobrindo pequenos prazeres e dores que para nós são comuns, mas para este são novidade, existindo toda uma procura do filme em exibir a necessidade do ser humano não dever controlar tudo o que o rodeia, algo que colocaria em risco a sua própria liberdade. "The Giver" não inova em nada a vários filmes do género (veja-se que recentemente já tivemos "The Hunger Games", "Divergent", entre outros), apresentando uma sociedade algo "Orwelliana", cujas temáticas poderiam e deveriam ser abordadas com maior provocação, acidez e conteúdo, mas Noyce parece ter medo de saltar "para o outro lado da orla", quando o filme conta com algumas boas ideias para explorar. Devido a algumas das razões apontadas, "The Giver" até é um filme coerente, assumindo as suas virtudes e falhas, conseguindo abordar bem algumas temáticas e estampar-se em alguns momentos, estando longe de ser uma obra cinematográfica imaculada, embora mereça uma visualização da nossa parte.

Título original: "The Giver".
Título em Portugal: "The Giver - O Dador de Memórias".
Realizador: Phillip Noyce.
Argumento: Michael Mitnick.
Elenco: Jeff Bridges, Meryl Streep, Brenton Thwaites, Alexander Skarsgård, Odeya Rush, Katie Holmes, Taylor Swift, Cameron Monaghan.

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