09 setembro 2014

Resenha Crítica: "Four Weddings and a Funeral" (Quatro Casamentos E Um Funeral)

 Casar não é uma opção fácil ou pelo menos uma decisão que muitas pessoas tomem de ânimo leve. É certo que existem excepções e mesmo com toda a ponderação as relações podem não durar o tempo previsto. Erros de parte a parte, incompatibilidades, entre vários outros aspectos podem ditar o fim de uma relação. Em outros casos os relacionamentos podem durar para toda a vida, cabendo à morte separar o casal, com a "química" e cumplicidade entre ambos os elementos a ser tão grande que os leva a serem capazes de superar as adversidades. Noutros casos, as relações nem precisam da união matrimonial para ambos os elementos do casal serem felizes e viverem em conjunto. Em "Four Weddings and a Funeral" somos apresentados a uma miríade de relações sentimentais. Umas deram certo, outras falharam, outras terminaram de forma trágica, outras mantiveram-se para toda a vida. A vida pode ter umas reviravoltas estranhas e o destino pode ser o maior cómico, embora em "Four Weddings and a Funeral" seja o argumento de Richard Curtis e a realização de Mike Newell que arquitectem um romance capaz de nos deixar perante um conjunto de situações marcadas por romantismo, algum humor britânico e uma capacidade enorme de criar um conjunto de personagens que se tornam bem reais. A história acaba por se centrar maioritariamente em Charles (Hugh Grant), um solteirão com um conjunto elevado de ex-namoradas e um grande grupo de amigos, pouco propenso a casar-se, embora seja presença regular em casamentos, aos quais chega quase sempre atrasado. Vai ser algo de comum encontrarmos alguns gags bem construídos ao longo do filme, que vão desde os atrasos do protagonista, passando pela incapacidade do personagem interpretado por Rowan Atkinson para a oratória, a personalidade peculiar de Gareth (Simon Callow), o estilo extrovertido da companheira de casa de Charles, entre muitos outros elementos. Ao longo do filme ficamos, tal como diz o título, com quatro casamentos e um funeral. O primeiro desses casamentos é de Angus (Timothy Walker) e Laura (Sara Crowe), onde Charles é o padrinho e faz um discurso que desperta a atenção de Carrie (Andie MacDowell), uma americana que trabalhou para a Vogue, que se encontra em Inglaterra para estar no casamento. Charles também exibiu desde logo interesse na mesma. Os dois acabam por meter conversa e partilhar uma noite de sexo, embora o relacionamento não evolua desde aí, com Carrie a regressar aos EUA, parecendo certo que a relação entre ambos vai ser marcada por várias contrariedades. Ao longo da narrativa, não vemos estes personagens a trabalhar ou raramente acompanhamos o seu quotidiano fora de festividades ou sabemos as suas profissões, pelo que o segundo encontro de Carrie e Charles acontece no casamento de Bernard (David Haig) e Lydia (Sophie Thompson), um casal que se reuniu durante a festa matrimonial de Angus e Laura. Charles descobre que Carrie vai casar com Sir Hamish Banks (Corin Redgrave), um rico político escocês, algo que não os impede de terem mais alguns momentos de intimidade, ao longo de uma obra onde o título facilmente nos indica a sua estrutura, embora raramente seja repetitiva.

 Gradualmente vamos ficando a conhecer um pouco mais de Charles, um indivíduo que colecciona relações falhadas, com problemas em comprometer-se, que tem em Carrie um interesse amoroso que parece mais sério do que as suas anteriores relações falhadas. O que o atrai nesta mulher? Os feitios de ambos parecem casar na perfeição, com esta a coleccionar casos falhados e a ter uma beleza que facilmente fascina o espectador e o protagonista, embora o destino geralmente faça questão de lhes colocar alguns contratempos pelo caminho (até para o filme não acabar passado trinta minutos). A dinâmica entre Carrie e Charles é fundamental para "Four Weddings and a Funeral" funcionar (com Hugh Grant e Andie MacDowell a apresentarem uma grande química), mas também a capacidade de Mike Newell e Richard Curtis para incutirem um conjunto de personagens secundários de algum interesse. Veja-se Fiona (Kristin Scott Thomas), uma mulher aparentemente fria, amiga de longa data de Charles, que nutre uma paixão reprimida por este, não gostando particularmente de Henrietta (Anna Chancellor), uma mulher com quem o protagonista pode ou não vir a ter uma relação mais séria. Temos ainda Gareth e Matthew (John Hannah), um casal homossexual, com o primeiro a caracterizar-se pela personalidade expansiva e o segundo a ter um momento de grande emotividade (sobretudo quando recita "Funeral Blues" de W. H. Auden), aquando uma morte de um elemento querido (o título salienta que vamos ter um funeral). Vale ainda a pena realçar elementos como David (David Bower), o irmão surdo-mudo de Charles, algo que vai conduzir a alguns mal-entendidos divertidos; Padre Gerald (Rowan Atkinson), um elemento com uma dislexia latente e incapacidade de transmitir os discursos religiosos de forma competente; Scarlett (Charlotte Coleman), a extrovertida colega de quarto de Charles, ou seja, existe toda uma procura em criar um universo narrativo marcado por personagens com alguma dimensão, dando espaço para esta miríade de elementos sobressaírem, bem como ao elenco secundário, expressando bem o grupo coeso que envolve o protagonista. Mesmo os próprios casamentos surgem com ingredientes suficientes para não se tornarem repetitivos, seja desde personagens que se conhecem, a alguns momentos de maior humor (veja-se quando Charles tem de lidar com as ex-namoradas, ou o início da relação de Bernard e Lydia, mas também quando Tom, o irmão de Fiona, corteja uma mulher casada), naquele que foi um surpreendente sucesso de bilheteira (a partir de um orçamento reduzido) aquando do seu lançamento. O filme marca ainda a primeira colaboração de Hugh Grant com Richard Curtis, com ambos posteriormente a terem colaborado em "Notting Hill", "Bridget Jone's Diarys", "Love Actualy", "Bridget Jones: The Edge of Reason", uma parceria com algum sucesso, com o actor a ser capaz de contribuir para que acreditemos neste personagem algo céptico em relação ao casamento. O que não deixa de ser curioso, quando boa parte do quotidiano deste personagem parece ser passado em casamentos, onde as cenas de convívio podem conter alguns momentos de constrangimento, mas também de romance, com alguns dos convidados a procurarem a sua sorte junto dos elementos solteiros. Temos ainda a banda sonora mais do que adequada a um filme marcado por doses certeiras de humor, romance e até algum drama, bastante previsível mas com muito charme, com uma dupla de protagonistas que apresenta uma grande química.

Título original: "Four Weddings and a Funeral". 
Título em Portugal: "Quatro Casamentos e Um Funeral". 
Realizador: Mike Newell.
Argumento: Richard Curtis.
Elenco:  Hugh Grant, Andie MacDowell, James Fleet, Simon Callow, John Hannah, Kristin Scott Thomas.

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