17 setembro 2014

Resenha Crítica: "The Equalizer - Sem Misericórdia"

 Se "The Equalizer" conseguisse manter o fôlego do seu primeiro terço ao longo de toda a sua duração certamente teríamos um filme de acção com alguma densidade a nível de argumento, capaz de criar um arco dramático forte e utilizar os clichés do género de forma assertiva. Antoine Fuqua e o argumentista Richard Wenck não estavam para aí virados e o que nos oferecem é um filme de acção anódino, incapaz de explorar os arcos dramáticos que cria, com uma banda sonora pronta a insuflar os acontecimentos da narrativa e um conjunto de diálogos que muitas das vezes parecem saídos de um livro de auto-ajuda, enquanto Denzel Washington surge como uma espécie de Charles Bronson embora os seus dotes para a pancadaria o pareçam colocar mais numa obra cinematográfica de Steven Seagal, Chuck Norris e companhia. É um filme banal, tal como a sua realização, redundante em diversos momentos (a repetição das cenas na cafetaria, um personagem ser atingido pelo tiro de uma bala e dizer que foi atingido como se o espectador fosse idiota para não perceber a situação), incapaz de introduzir o product placement de forma discreta (não falta um destaque no facto do portátil ser um Sony Vaio, mas também no início do filme os ténis do protagonista, o seu relógio, o pacote de Pringles, entre outros, com os patrocinadores a certamente terem ficado satisfeitos pelo destaque). Também é certo que "The Equalizer" conta com alguns (poucos) pontos positivos, tais como cinematografia, capaz de expor eficazmente as idiossincrasias da cidade de Boston, sobretudo nas cenas nocturnas, com o território a surgir marcado pela corrupção e as sombras, por vezes a fazer recordar os filmes noir (não falta ainda o clube nocturno, mas as comparações com os noir ficam por aqui), destacando-se ainda a eficaz utilização dos close-ups (por vezes extremos), prontos a fazerem sobressair o carisma de Denzel Washington e a sua capacidade para dizer muito apenas com o seu rosto e expressões. Washington interpreta Robert McCall, um antigo agente secreto que agora trabalha numa loja de artigos de construção e decoração de casas, a Home Mart, onde procura ajudar o seu colega Ralphie (Johnny Skourtis), um latino algo anafado, a perder peso e superar os testes para ser segurança da loja. Robert é um indivíduo solitário e pouco falador, que no início do filme encontramos a rapar o seu cabelo, escondendo os seus cabelos brancos e a passagem do tempo no seu corpo. Antoine Fuqua preocupa-se e bem em construir este personagem, quer nos seus actos diários, tais como ler, quer na exposição da sua casa (marcada pela presença de muitos livros, discreta e pronta a expor alguma da solidão de Robert), quer o bom ambiente que cria a nível de trabalho, parecendo um exemplo a nível moral. Diga-se que um dos problemas deste personagem também acaba por ser a procura do argumento em expor que tudo o que Robert procura fazer é pelo bem dos outros e da sociedade, não parecendo ter defeitos embora diga que não se orgulha de alguns episódios passados. Na cafetaria local, onde se encontra a ler "O Velho e o Mar" de Ernest Hemingway (existe uma procura em fazer uma ligação com a história do protagonista mas é melhor não ofendermos Hemingway), Robert encontra Teri (Chloe Moretz), uma jovem prostituta menor de idade, que gosta de comer doces e de cantar. Encontram-se três vezes neste local, onde falam sobre livros, comida, sonhos aparentemente impossíveis e lidam com uma realidade que lhes parece madrasta. Teri encontra-se presa ao mundo da prostituição, do qual parece difícil poder sair, embora tenha outras aspirações para a vida, formando uma espécie de amizade com o protagonista. Robert guarda em si a dor pela perda da esposa, procurando cumprir o sonho desta de ler cem livros a não perder.

No terceiro encontro entre ambos na cafetaria que frequentam, Teri aparece com nódoas negras, simbolizadoras das agressões provocadas por um cliente. Mais tarde, esta é violentamente espancada por Slavi (David Meunier), um proxeneta que trabalha para Vladimir Pushkin (qualquer semelhança com o nome de Vladimir Putin é pura coincidência), um oligarca russo com vários negócios nos EUA ligados à prostituição, tráfico de droga, tendo influência junto das autoridades e políticos locais. Nesse sentido, vale só a pena destacar que os filmes de acção dos EUA parecem estar a regressar aos anos 70/80 e ao clima de Guerra Fria, com os antagonistas de obras como "A Good Day to Die Hard", "The November Man" e agora "The Equalizer" a serem russos, algo que reflecte a situação política actual, com o cinema mais uma vez a acompanhar a conjuntura que o engloba. Nesse sentido não é de surpreender o facto de encontrarmos um conjunto de antagonistas russos unidimensionais, frios, mortais, prontos a cometer crimes, contrastando com o idealismo do protagonista, um justiceiro solitário (dos EUA) cujos actos violentos que comete são para o "bem da sociedade", algo que em certa medida também pode ser considerado perigoso. "The Equalizer" não pretende transmitir grandes mensagens moralistas (e quando tenta é incompetente na forma pueril como as transmite), mas não deixa de ser curioso que o protagonista conduza a um elevado número de mortes, muitas delas com requintes de sadismo (entre as quais enforcamento com arame farpado, brocas espetadas em cabeças, gargantas cortadas), ou seja, tão brutais como os assassinatos provocados pelos antagonistas, mas a imagem que passa é que este está "apenas a repor a justiça". É certo que está a procurar fazer justiça quando esta falha e a polícia se encontra corrompida, mas o filme poderia e deveria explorar mais eficazmente esta complexa questão da "justiça pelas próprias mãos" (e a imagem de um americano solitário a combater os russos já está mais do que gasta). Tudo bem que o personagem já foi um agente secreto e dá sempre escolha às suas vítimas antes de partir para actos mais violentos, mas se todos nós fizéssemos isso viveríamos numa sociedade caótica onde a lei de pouco valeria. Perdoem esta divagação pseudo-moralista, embora o argumento beneficiasse e muito de explorar as contradições desta vertente justiceira do personagem, e voltemos à história. Perante a agressão a Teri, que a deixa internada no hospital, Robert decide contactar Slavi e os seus homens, procurando oferecer uma quantia elevada para libertar a jovem prostituta, algo que é rejeitado. É então que o instinto justiceiro do protagonista vem ao de cima e este elimina os criminosos de forma brutal, com Antoine Fuqua a não poupar na diversidade e requinte das mortes e da acção. Esta situação conduz a que Teddy (Marton Csokas), um dos homens da confiança de Putin... digo Pushkin, dirija-se a Boston, contactando as máfias locais e os polícias corruptos para procurar saber a identidade do assassino, exibindo uma enorme brutalidade e um conjunto de tatuagens que evidenciam o estatuto elevado deste perigoso criminoso. Teri esconde-se (ou melhor, é ignorada pela narrativa durante todo o seu desenvolvimento, algo simplesmente inaceitável tendo em conta a sua relevância inicial), com a sua amiga a ter pior sorte, enquanto Robert inicia um jogo entre o gato e o rato com Teddy quando o criminoso descobre que foi este o responsável por eliminar os seus homens.

 Teddy é brutal e aparentemente implacável, exibindo sem problemas o controlo do seu chefe junto das autoridades e políticos locais, embora o filme não se fique ainda por esta trama. Temos ainda um assalto ao local de trabalho do protagonista, a procura deste em ajudar um amigo e colega de trabalho a ser segurança, a procurar colocar na ordem alguns polícias corruptos (alguns deles influenciados pelos russos, como é claro), com o argumento a disparar para vários lados mas a acertar pouco nas direcções que pretende. Ficamos assim perante mais uma adaptação cinematográfica falhada de uma série televisiva, com Antoine Fuqua a não conseguir equilibrar o enredo do filme, procurando enganar-nos com algumas subtramas e arcos dramáticos que parecem ter alguma importância mas no final o que sobressai são as longas cenas de acção. Não falta pancadaria a rodos num filme que tem problemas em assumir-se como uma obra cinematográfica de acção pura e dura, embora o protagonista raramente pareça estar em perigo, tais as habilidades que apresenta. Esse é outro dos problemas do argumento, a incapacidade de mostrar as fragilidades do protagonista como justiceiro ou pelo menos a sua capacidade de cometer alguns erros, parecendo apenas uma questão de tempo até este eliminar o antagonista nesta cidade marcada pela corrupção, seja esta dos gangsters, dos políticos e dos polícias. Algumas cenas de acção são bem arquitectadas, mas existe um momento onde a inépcia de Antoine Fuqua fica paradigmaticamente representada. Coloca o protagonista no espaço fechado do seu local de trabalho contra Teddy e cerca de quatro homens deste, enquanto os trabalhadores da loja se encontram reféns. A tensão é elevada. Finalmente sentimos alguma adrenalina e perigo. Apreciador de xadrez, Robert tem neste momento uma oportunidade para exibir as suas capacidades para conseguir estabelecer o seu plano de acção no local, procurando eliminar os inimigos um a um, enquanto estes pretendem exterminar com a sua vida. Pedia-se silêncio. Mas Antoine Fuqua dá-nos música e tira a atenção de um dos momentos que poderia ser dos mais inspirados de "The Equalizer". Outro dos problemas de "The Equalizer" também é esse. A falta de sobriedade, a utilização da música como se estivéssemos num videoclip e pronta a dar estilo às cenas e não para adornar ou servir as mesmas. Salva-se Denzel Washington com o seu carisma, pronto a exibir a dor do seu personagem pela perda da esposa e a procura em deixar a sua antiga vida de lado, exibindo gosto pela leitura e um enorme controlo na arte do combate (cronometrando e tudo alguns actos). Esperamos é que este não se torne no novo Liam Neeson, um actor pronto a utilizar o seu talento para filmes de acção onde parece resolver tudo sozinho quando tem potencial para muito mais. Denzel Washington tem talento de sobra para trabalhos mais distintos e elaborados, mas escolheu participar num filme que consegue ainda desperdiçar Chloe Moretz, Melissa Leo (não merecia), Bill Pullman e até Marton Csokas (interpreta uma caricatura de um gangster russo). De salientar ainda a fraca qualidade das legendas apresentadas no visionamento de imprensa, onde "suck cocks" é traduzido como "chupar galos". Quando se pensava que nada podia piorar no filme, o responsável pelas legendas resolve trazer algum humor inesperado a uma obra cinematográfica cujos diálogos não primam pela subtileza. Salva-se o bom gosto literário do protagonista e o primeiro terço, aquele em que Antoine Fuqua nos enganou e fingiu que nos ia dar um filme de acção acima da média. No final, fica a certeza que teríamos ficado muito melhor a ler Ernest Hemingway ou H. G. Wells, autores lidos pelo protagonista, do que a ver "The Equalizer".

Título original: "The Equalizer".
Título em Portugal: "The Equalizer - Sem Misericórdia".
Realizador:  Antoine Fuqua.
Argumento: Richard Wenk.
Elenco: Denzel Washington, Marton Csokas, Chloë Grace Moretz, David Harbour, Bill Pullman, Melissa Leo.

Sem comentários: