23 setembro 2014

Resenha Crítica: "Charulata" (1964)

 Existe uma enorme sobriedade na exposição dos sentimentos e na elaboração dos relacionamentos em "Charulata", com Satyajit Ray a voltar a demonstrar-se exímio na forma como explora os mesmos, mesclando temáticas universais com temas muito próprios do seu país. Deixa-nos perante Charulata (Madhabi Mukherjee), uma mulher inteligente, bonita, interessada na literatura, na poesia e na escrita, mas solitária devido à pouca atenção que o marido lhe dá. Os momentos iniciais do filme expõem paradigmaticamente a solidão desta: abre um livro e folheia-o rapidamente sem ter tempo para lhe prestar muita atenção, observa com os seus binóculos o que se passa fora de casa, anda pela habitação enquanto percebemos a imensidão do espaço, cose um lenço com a letra inicial do marido, mas nota-se no seu rosto um vazio difícil de preencher. Bhupati (Sailen Mukherjee) vive para o seu jornal, o The Sentinel, onde é responsável pelo editorial desta publicação de teor político, vibrando com as eleições no Reino Unido, pensando que uma vitória dos liberais poderá ser favorável a uma maior independência da Índia. Este é um intelectual de Bengali, interessado na política e pronto a criticar o Governo se for necessário, tendo no som da máquina que imprime os jornais e no cheiro a tinta o seu espaço ideal para passar as suas horas de sonho. Nota-se que ama a esposa, mas o seu maior entusiasmo vai para o seu jornal, tendo claramente problemas em discernir a falta que a sua presença se faz sentir na primeira. Perante a solidão da esposa, Bhupati convida o irmão desta, Umapada, para gerir as contas do jornal e a esposa deste, Manda, para viverem com ambos, embora esteja longe de desconfiar da falta de moralidade do cunhado. A relação entre Manda e Charulata está longe de ser a mais aprazível. Manda é algo fútil, pouco percebe do que quer que seja, incluindo de um mero jogo de cartas, contrastando a sua pouca cultura com o interesse de Charulata em aprender e ter algum relevo numa sociedade onde os homens parecem ter o papel de destaque. A chegada de Amal (Soumitra Chatterjee), um primo de Bhupati, vem mudar o quotidiano de Charulata e do casal. Amal é um aspirante a escritor, interessado em literatura e poesia, que gosta da cantar, partilhando um espírito algo sonhador e poético semelhante a Charulata. Bhupati pede a Amal para que este incentive a melhoria dos gostos literários e da escrita de Charulata, o que não esperava é que aos poucos estes dois começassem a aproximar-se de forma tão íntima um do outro, com ambos a parecerem feitos um para o outro. Amal até brinca inicialmente com os gostos desta, mas procura incentivá-la a escrever, a expor os seus sentimentos, até esta finalmente ceder. Quando se encontram num jardim ficamos perante uma das poucas cenas exteriores do filme, mas também perante uma das mais belas. Esta balouça e canta, qual criança, enquanto a câmara de filmar expõe o seu belo rosto. Este pensa. Pensa em escrever algo seu, algo que consegue quando finalmente ganha inspiração ao lado de Charulata. O texto não é compreendido por todos os que o leem, nem os sentimentos que o casal começa a sentir são imediatamente entendidos pelos próprios. Satyajit Ray desenvolve a relação entre ambos os personagens com enorme simplicidade e graciosidade, com Soumitra Chatterjee e Madhabi Mukherjee a serem capazes de em poucos gestos e olhares exporem o que se está a passar diante nós. Ela é solitária, apesar de ser casada, com o seu esposo a parecer ligar pouco ao seu gosto pela literatura. Não são infelizes mas falta aquela química que lhes acrescente alguma cumplicidade. Ele é um jovem idealista que não pensa em trair o familiar mas existem sentimentos impossíveis de travar, apesar deste procurar nunca perder os seus valores morais.

Forma-se entre Amal e Charulata uma cumplicidade que os une, mas também que os promete desunir, com a espaçosa habitação de Bhupati a ser o palco primordial da relação entre estes dois. No meio destes temos Bhupati, um elemento bem intencionado que raramente se apercebe do que se está a acontecer, ou pelo menos apenas percebe tardiamente. Tem culpas no cartório, mas nem por isso duvidamos que ama a esposa, mas o próprio contexto político, económico e social da Índia conduzem a que sinta que o seu papel no jornal seja relevante demais para o descurar. Estamos em Calcutá, em 1879, um período de tempo onde se encontravam a ocorrer diversas mudanças no território da Índia, com os locais a pretenderem uma maior independência em relação a Inglaterra. Veja-se que em 1857 decorrera a Revolta Indiana, contra a Governação e domínio inglês do território, para além de estarmos próximos da criação do Partido do Congresso Nacional Indiano em 1885, fundado por activistas a favor da libertação do território. Estamos também perante o período do Raj britânico, iniciado na data em que os direitos da Companhia Britânica das Índias Orientais foram transferidos para a Coroa Britânica (1858), algo que aconteceu até 1947, uma situação que explica a preocupação de Bhupati pelo processo eleitoral no Reino Unido. Bhupati é um personagem complexo. Percebemos que ama a esposa mas não tem tempo para cuidar da mesma, tomando-a como algo de adquirido. Ama a política embora saiba que as suas acções podem-lhe trazer reprimendas pouco agradáveis. Confia naqueles que lhe são próximos mas esquece-se que pode vir a ser traído, seja pelo cunhado, ou pela esposa, mas também pela sua falta de cuidado. Sailen Mukherjee expressa bem o entusiasmo do seu personagem pela política, mas também a sua falta de cuidado para com a esposa, com quem raramente vemos a trocar momentos de intimidade enquanto o jornal se encontra em actividade. Quem mais acaba por sobressair é Madhabi Mukherjee, sobretudo pela contenção com que expressa os sentimentos da sua personagem, não só na forma como procura reprimir os sentimentos pelo primo do marido, mas também a forma como procura esconder a sua solidão. Os livros e as revistas parecem ser a sua melhor companhia, mas a chegada de Amal vem mudar a sua rotina. Soumitra Chatterjee é sublime a interpretar este elemento algo naïve, que ama a literatura e a escrita, com o primo a pretender casá-lo com uma mulher, embora este comece a nutrir sentimentos por Charulata. Não existem palavras que possam descrever a subtileza com que Satyajit Ray estabelece o relacionamento entre Amal e Charulata, com tudo a parecer natural e os sentimentos a surgirem bem reais. Diga-se que Madhabi Mukherjee e Soumitra Chatterjee voltariam a integrar um triângulo amoroso em "Kapurush", embora "Charulata" seja uma das obras-primas de Satyjavit Ray. Em "Kapurush" esta interpretara a ex-namorada e grande amor da vida do personagem interpretado por Soumitra Chaterjee, procurando esconder do esposo o caso com este no passado. Madhabi Mukherjee já tinha sobressaído pela positiva em obras de Ray como “Mahanagar”, onde interpretara uma mulher que se viu na contingência de começar a trabalhar de forma a ajudar o marido a sustentar a casa, naquele que é mais um magnífico trabalho do realizador. O cineasta e argumentista volta a adaptar um livro, no caso, "Nastanirh" de Rabindranath Tagore ao grande ecrã, colocando-nos perante um intrincado romance que nunca se chega realmente a consumar e muito parece ter inspirado "In the Mood For Love" de Wong Kar-Wai, tal a contenção e restrição de sentimentos.

 Existe amor (ou pelo menos bastante afecto) entre a dupla de protagonistas, mas também muita restrição na forma como expõem os sentimentos, numa obra que, tal como em outros trabalhos de Ray, aproveita para efectuar alguns comentários sobre a Índia, explorando as personalidades dos seus personagens e os períodos históricos que representa. Veja-se desde logo o papel do pequeno jornal de Bhupati no meio deste fervilhante período político, mas também o crescente papel da mulher na sociedade deste escalão de classe média/alta com Charulata a procurar impor as suas ideias e a apresentar alguma cultura. "Charulata" impressiona ainda pela precisão do trabalho de câmara, do cuidado colocado nos cenários interiores para se adequar às personalidades dos personagens e aos seus estados de espírito, mas também a própria banda sonora composta maioritariamente por Ray, capaz de adornar perfeitamente cada momento, ao mesmo tempo que ficamos perante a enorme capacidade do cineasta em explorar uma narrativa composta por um diminuto conjunto de personagens. Em "Charulata" tudo parece simples, mas nada é aparentemente feito ao acaso, incluindo as referências literárias a elementos como Bankim Chandra Chatterjee, um dos escritores de maior sucesso no território no período de tempo representado, bem como das revistas locais, para além do próprio relacionamento familiar surgir muito típico das sociedades indianas deste período. Temos ainda a atenção dada aos rostos dos personagens, com os actores a sobressaírem pela expressividade e capacidade de "falarem" muito pelos seus gestos, com os diálogos a contribuírem para esta atmosfera de sobriedade. Veja-se quando Bhupati olha desolado para a mulher a chorar sozinha no quarto pela partida de Amal, mas também o rosto desta no balouço onde se percebe que sente algo mais pelo familiar. Amal e Bhupati são ambos sonhadores, com o primeiro a ter na poesia e literatura o seu modo de vida e o segundo a ter nos seus ideais políticos uma utopia difícil de concretizar, pensando por vezes que é capaz de "mudar o Mundo" com o seu esforço, embora a realidade por vezes o desminta. No entanto, as diferenças entre ambos são visíveis quando Bhupati propõe que Amal aceite uma proposta de casamento que o levará para Londres. Para Amal é a terra de William Shakespeare, para Bhupati é o paraíso por poder assistir ao vivo aos discursos no parlamento. A chegada de Amal é marcada por uma tempestade, mas a maior destruição ocorre nos momentos finais, onde não saberemos se o casal formado por Bhupati e Charulata vai ficar como antes. O enredo é aparentemente simples, mas tudo funciona praticamente na perfeição, com Satyajit Ray a ser capaz de abordar com enorme delicadeza a história de um relacionamento amoroso que não se pode consumar, numa Índia em mudança, onde o amor pode surgir onde menos se espera e tem de ser controlado, qual fogo que ameaça alastrar-se, numa obra onde a poesia pode trazer belas palavras, mas a realidade nem sempre pode concretizar os desejos dos sonhadores. 

Título original: "Charulata".
Realizador: Satyajit Ray.
Argumento: Satyajit Ray. 
Elenco:  Soumitra Chatterjee, Madhabi Mukherjee, Sailen Mukherjee, Syamal Ghosal.

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