08 setembro 2014

Resenha Crítica: "Boy Meets Girl" (Paixões Cruzadas)

 Longa metragem de estreia de Leos Carax, iniciado como crítico nos Caihers du Cinéma, "Boy Meets Girl" apresenta-nos já a um cineasta irreverente, com ideais muito próprios, influenciado pelos nomes da Nouvelle Vague, incluindo Jean-Luc Godard. Encontramos também temáticas transversais a "Mauvais Sang" e "Les Amants du Pont-Neuf", os dois trabalhos que se seguiram do cineasta, incluindo as relaçõs sentimentais condenadas ao fracasso, alguns momentos de irracionalidade que contrastam com os de letargia, a relevância da música, tendo em Denis Lavant o seu modelo pronto a encarnar o personagem que Carax pretenda. Este interpreta Alex (o mesmo nome do personagem a que dá vida em "Mauvais Sang" e "Les Amants du Pont-Neuf" e o nome de Leos Carax, que na verdade se chama Alexandre Oscar Dupont), um aspirante a cineasta que não pretende realizar os seus sonhos com medo de os perder para sempre. No início do filme, Alex é abandonado pela esposa, que lhe leva quase todos os seus bens de valor afectivo, bem como a filha, tendo-o traído com o melhor amigo, Thomas (Christian Cloarec). Alex fica entre o possesso e um estranho sentimento de desprendimento, agredindo Thomas, roubando o cachecol deixado por Florence, sem saber bem o que fazer. Atira Thomas ao rio, deambula pelos territórios urbanos parisienses, observando o namorado de Mireille (Mireille Perrier) a falar com esta ao altifalante do prédio, enquanto o casal evidencia aquilo que os separa. Alex e Mireille são dois personagens estranhos. Ela queria ser modelo de anúncios televisivos, dança sapateado sozinha, parecendo que estamos perante a dança da solidão marcante do trio de "Bande à Part", enquanto ele anda pela noite, isolado, observando um casal a beijar-se, ao mesmo tempo que a música "When I Live My Dream" de David Bowie reúne estes dois momentos de solidão. A música é uma componente relevante em algumas obras de Leos Carax, algo visível em "Boy Meets Girl", "Mauvais Sang" e "Les Amants du Pont-Neuf", servindo não só a narrativa, mas também para expressar sentimentos dos personagens. Mesmo em "Boy Meets Girl" temos também o tema "Je suis venue te dire que je m'en vais", escrito por Serge Gainsbourg e cantado por Jo Lemaire, onde encontramos a mulher de Alex e a filha no carro, enquanto a música anuncia o abandono, ao mesmo tempo que vamos observando os espaços por onde o bólide circula. Leos Carax é pródigo na criação de momentos marcantes com a música, sendo praticamente impossível não recordar o personagem interpretado por Denis Lavant a correr desenfreadamente e desconjuntadamente ao som de "Modern Love" em "Mauvais Sang". Diga-se que os personagens de Leos Carax correm muito, quais Antoine Doinel em "Les 400 Coups", com Truffaut a parecer outra das influências deste cineasta que claramente procura marcar o seu tom na Sétima Arte. Foi assim nos filmes citados realizados por Carax, é assim em "Boy Meets Girl", com este a exibir a procura dos personagens em extravasarem as suas emoções. Seja Mireille em casa, ou Alex na rua, ambos os personagens parecem isolados do mundo exterior, com o protagonista a reunir-se finalmente com esta, durante uma festa onde Helen (Carroll Brooks) surge como uma estranha anfitriã. Mireille corta o cabelo, apresenta comportamentos suicidas não parecendo bem saber o que quer fazer da vida. Foi abandonada. Profissionalmente parece inapta para tudo o que quer. Sente-se frágil, embora dance para espantar a solidão. Os dois partilham uma curta e estranha relação, onde expõem muito das suas personalidades, mas também dos seus passados e sonhos para o futuro, apesar do relacionamento parecer estar condenado ao fracasso. 

Ela apresenta uma personalidade destrutiva, ele parece evitar decisões de relevo. Sente-se um falhado. Quer ser um fora de série, quer ser um aviador, viajante, músico, nascer de novo, realizar filmes, apesar de temer avançar com os seus sonhos, salientando: "Nunca tentei realizar os melhores sonhos. Só para poder continuar sonhando". Quer fugir ao serviço militar, tem ideias para vários filmes, desenvolve uma paixão rápida por Mireille, enquanto expõe toda a sua estranheza ao longo desta obra belissimamente filmada a preto e branco. Leos Carax beneficia de uma cinematografia exemplar de Jean-Yves Escoffier, pronta a explorar os contrastes entre luz e sombras, a expor com alguma poesia e realismo os territórios nocturnos parisienses, mas também os espaços fechados por onde se encontram Alex e Mireille. O cineasta volta a interessar-se pelos elementos à margem da sociedade, aqueles que poucos elementos parecem realmente querer saber, embora Alex e Mireille também não sejam duas pessoas de fácil integração. Mireille parece uma personagem feminina saída dos filmes de Godard dos anos 60, tais como a protagonista de "Vivre sa Vie", partilhando os diálogos marcados por alguma profundidade e lirismo. Quando descobre Alex, esta mulher ganha uma companhia, tal como tinha na música e tinha em Bernard antes de ser abandonada por este. Já Alex é um indivíduo alienado da sociedade, com Denis Lavant a iniciar a sua profícua relação profissional com Leos Carax, criando mais um personagem que varia entre o lacónico e os longos monólogos. Tem ainda alguns momentos a jogar flippers ou a tentar pagar café a uma mulher, num estabelecimento onde um cliente fala em voz bastante alta ao telefone, fazendo recordar obras de Jean-Luc Godard como "Masculin Féminin" em que os outros elementos se fazem sobrepor vocalmente aos protagonistas. Diga-se que as referências a Godard em relação ao aproveitamento do som não se ficam por aqui. Veja-se quando os sons exteriores se sobrepõem aos diálogos dos personagens, tais como o do bule na cozinha da casa onde se encontram Alex e Mireille, um recurso aproveitado a um extremo e estranheza por Godard em filmes como "Made in U.S.A.". Mireille e Alex são dois personagens que querem sentir e amar, mas não parecem saber como, parecendo destinados ao fracasso e perdição. Os dois encontram-se numa festa Godardiana que entediaria Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo), o protagonista de "Pierrot le Fou", onde não faltam alguns convidados peculiares. Veja-se uma criança que tem o QI mais alto para a sua idade em toda a Europa, o senhor que dá a voz para quem liga a saber as horas para o 4638400, um artista e poeta chamado Henri Bestouches, Josette Lemercier, uma miss Universo no final dos anos 50, um astronauta americano que já esteve na Lua. Temos também um dos personagens que proporciona alguns dos momentos de maior humor e sapiência, um operador de câmara do tempo do cinema mudo, onde este revela uma história picante (não faltam alguns momentos de humor ao filme), mas também uma realidade: "Os jovens são muito silenciosos. Vocês esqueceram-se como falar.", algo que remete até para a dupla de protagonistas, dois jovens com problemas de comunicação com os restantes seres humanos, isolados, partilhando alguns diálogos em conjunto que não escondem alguma solidão. Por vezes até parece que estão a expressar longos monólogos, com a sua reunião a trazer algum conforto, tendo alguém com quem falar. O próprio Alex entra nesta festa a fingir que é amigo de Bernard, o ex-namorado de Mireille, conseguindo uma estranha participação na cerimónia nas vésperas de ter de cumprir o serviço militar, ainda que seja contra a sua vontade, existindo aqui uma subtil crítica a este acto obrigatório. Não existe aqui espaço para romances açucarados nem para vários clichés do género, com Leos Carax a procurar jogar com a bizarria dos seus personagens e as convenções dos géneros, alicerçando-se ainda numa fotografia inebriante e um conjunto de referências que parecem aparecer como uma carta de amor à Nouvelle Vague. Leos Carax tem em "Boy Meets Girl" uma estreia bastante interessante na realização de longas-metragens que, vista em retrospectiva, já deixa antever o irreverente e genial realizador que este seria, procurando jogar com as imagens e as palavras, exibindo o iniciar de uma bizarra relação que tanto terá dos relacionamentos dos seus personagens nos seus futuros filmes.

Sem comentários: