24 setembro 2014

Estreias da Semana - 25 de Setembro de 2014

Boa-noite, caros leitores, e bem-vindos a mais um post das estreias da semana.

A partir de quinta-feira vão estrear doze (!) novos filmes nas salas de cinema portuguesas, de feitios muitíssimo variados, sobre os quais passarei brevemente a debitar.

Destaco antes do mais os seis filmes em versão restaurada realizados e escritos pelo famoso e muitíssimo apreciado cineasta indiano Satyajit Ray, que vão passar, alternadamente, no Espaço Nimas de Lisboa.

Uma vez que não encontramos um trailer para cada filme, faço questão de partilhar o trailer do ciclo do realizador retirado do site da Leopardo Filmes, que representa os seis filmes.




Deste conjunto de obras falemos em primeiro lugar de "Charulata", lançado originalmente em 1964, escrito e dirigido pelo referido realizador, e que conta no elenco com Soumitra Chatterjee, Madhabi Mukherjee, Sailen Mukherjee e Syamal Ghosal.

O Aníbal já lhe escreveu uma crítica cuja conclusão é a seguinte: «Amal e Bhupati são ambos sonhadores, com o primeiro a ter na poesia e literatura o seu modo de vida e o segundo a ter nos seus ideais políticos uma utopia difícil de concretizar, pensando por vezes que é capaz de "mudar o Mundo" com o seu esforço, embora a realidade por vezes o desminta. No entanto, as diferenças entre ambos são visíveis quando Bhupati propõe que Amal aceite uma proposta de casamento que o levará para Londres. Para Amal é a terra de William Shakespeare, para Bhupati é o paraíso por poder assistir ao vivo aos discursos no parlamento. A chegada de Amal é marcada por uma tempestade, mas a maior destruição ocorre nos momentos finais, onde não saberemos se o casal formado por Bhupati e Charulata vai ficar como antes. O enredo é aparentemente simples, mas tudo funciona praticamente na perfeição, com Satyajit Ray a ser capaz de abordar com enorme delicadeza a história de um relacionamento amoroso que não se pode consumar, numa Índia em mudança, onde o amor pode surgir onde menos se espera e tem de ser controlado, qual fogo que ameaça alastrar-se, numa obra onde a poesia pode trazer belas palavras, mas a realidade nem sempre pode concretizar os desejos dos sonhadores
Sinopse (Sapo): A solitária mulher de um jornalista apaixona-se pelo familiar do marido que visita a sua casa e que partilha consigo o amor pela Literatura.


Sobressai também "O Herói", de 1966, igualmente de Ray, que tem Uttam Kumar, Sharmila Tagore e Bireswar Sem no elenco.
O Aníbal também o viu, já lhe temos uma crítica publicada, a qual acaba da seguinte maneira: «O termo obra-prima é usado e abusado muitas das vezes de forma pueril, mas neste caso aplica-se por tudo aquilo que o cineasta consegue criar: Relações entre personagens marcadas por enorme sinceridade, personagens complexos, capacidade de explorar as personalidades dos elementos principais, a subtileza como insere as questões relacionadas com as mudanças culturais na Índia, os comentários sobre o cinema local, as interpretações sublimes, os diálogos marcados por uma perícia muito própria e uma utilização pertinente dos flashbacks. Temos ainda algumas cenas belissimamente filmadas, sobressaindo as surreais cenas dos sonhos do protagonista, cheias de significado, onde o actor encontra os seus fantasmas, medos, receios, erros e percebe que talvez não esteja a ir pelo caminho certo. Existe muito pouco por onde pegar pelo lado negativo ao longo desta obra agradável, sublime na forma como procura fugir aos lugares-comuns e ao mesmo tempo também os sabe utilizar, revelando o enorme talento deste cineasta que merece claramente ser redescoberto e reverenciado

Sinopse (Sapo): De viagem para Nova Delhi, onde irá receber um prémio, uma estrela do cinema indiano reavalia o seu sucesso através dos sonhos e experiências passadas dos passageiros que seguem consigo.



Falemos agora de "A Grande Cidade" (1966), obra protagonizada por Anil Chatterjee, Madhabi Mukherjee, Jaya Bhaduri, Vicky Redwood, Sefalika Devi e Haren Chatterjee.

O nosso crítico já a viu, gostou, escreveu-lhe um texto, e disse o seguinte sobre o filme: «O argumento deste filme de Bengali teve como base o conto "Abataranika" de Narendranath Mitra, com Satyjavit Ray a aproveitar para adaptar outro livro e realizar uma obra especial. Este é ainda exímio a explorar as relações entre casais, algo evidente em "Charulata", "Kapurush", entre outros, mas sempre com enorme subtileza e capacidade de nos fazer preocupar com os personagens. Com a sua habitual perspicácia e enorme sensibilidade para analisar filmes, Roger Ebert salientou ainda algo de fulcral sobre "Mahanagar" e os filmes de Ray: "They are not foreign. They are about Indians, and I am not an Indian, but Ray's characters have more in common with me than I do the comic-strip characters of Hollywood. Ray's people have genuine emotions and ambitions, like the people next door and the people in Peoria and the people in Kansas City". Esta citação evidencia paradigmaticamente o que muito resulta de "Mahanagar" e de boa parte dos filmes de Satyajit Ray, com o cineasta a conseguir que nos importemos e envolvemos com as histórias dos seus personagens, mesclando temas locais mas ao mesmo tempo tão universais. Filme marcado por uma extrema harmonia e honestidade, mas também pronto a exibir a crueza da crise, "Mahanagar" surge sempre com enorme humanidade e atenção ao pormenor, onde uma família procura ultrapassar os problemas que a afectam, enquanto Satyajit Ray quase que nos faz sentir um elemento da mesma
Sinopse (Sapo): Em Calcutá, Subrata vive com a mulher, Arati, o filho de ambos, os seus pais e uma irmã mais nova. Quando o dinheiro começa a escassear a esposa começa a trabalhar fora, com sucesso. Quando o marido perde o emprego, é ela quem passa a sustentar a casa, o que contraria os costumes conservadores.


Dos restantes três filmes de Satyajit Ray que vão estrear ainda não há críticas publicadas no nosso blog, mas não demorará muito tempo até isso acontecer, e basta esperarem uns dias que cada filme terá o respetivo texto escrito e publicado pelo Aníbal. Apresentarei, brevemente, cada um desses filmes.

Começo por "O Cobarde", de 1965, com Deochand Lal, Haradhan Bannerjee, Madhabi Mukherjee, Santi Chatterjee, Satish Haldar e Soumitra Chatterjee no elenco.

Sinopse (Sapo): Perdido numa pequena aldeia após o seu carro ter avariado, um argumentista é surpreendido ao encontrar uma antiga namorada. Recordando a sua incapacidade para se comprometer e o consequente fim da relação, vai tentar acertar contas com o passado mas descobre que o tempo ainda não sarou as feridas.


No mesmo ano saiu "O Santo", protagonizado por Charuprakash Ghosh, Gitali Roy, Prasad Mukherjee, Robi Ghosh, Satindra Bhattacharya e Somen Bose.

Sinopse (Sapo): Uma família Hindu devota deixa-se enganar por um charlatão que se faz passar por santo.


"O Deus Elefante", de 1979, tem um elenco composto por Bimal Chatterjee, Biplab Chatterjee, Haradhan Bannerjee, Jit Bose, Parinita Banerjee e Satya Bannerjee.

Sinopse (Sapo): O segundo filme com o Detective Feluda, no qual este parte de férias. Mas o roubo de uma imagem de Ganesh, o Deus Elefante, de uma casa de família no local obriga-o a iniciar uma investigação, que o vai colocar face a face com algumas personagens misteriosas e impiedosas.


Voltemos agora a nossa atenção para os filmes de outros cineastas, e começamos por referir "The Equalizer - Sem Misericórdia", uma obra protagonizada por Denzel Washington, que o Aníbal já viu, e não ficou muito impressionado. O último parágrafo da crítica que ele publicou reza assim: «Esperamos é que este não se torne no novo Liam Neeson, um actor pronto a utilizar o seu talento para filmes de acção onde parece resolver tudo sozinho quando tem potencial para muito mais. Denzel Washington tem talento de sobra para trabalhos mais distintos e elaborados, mas escolheu participar num filme que consegue ainda desperdiçar Chloe Moretz, Melissa Leo (não merecia), Bill Pullman e até Marton Csokas (interpreta uma caricatura de um gangster russo). De salientar ainda a fraca qualidade das legendas apresentadas no visionamento de imprensa, onde "suck cocks" é traduzido como "chupar galos". Quando se pensava que nada podia piorar no filme, o responsável pelas legendas resolve trazer algum humor inesperado a uma obra cinematográfica cujos diálogos não primam pela subtileza. Salva-se o bom gosto literário do protagonista e o primeiro terço, aquele em que Antoine Fuqua nos enganou e fingiu que nos ia dar um filme de acção acima da média. No final, fica a certeza que teríamos ficado muito melhor a ler Ernest Hemingway ou H. G. Wells, autores lidos pelo protagonista, do que a ver "The Equalizer".»

O filme foi realizado por Antoine Fuqua ("Training Day"), através do argumento de Richard Wenk, tendo como base a série criada por Michael Sloan.

"The Equalizer" conta no elenco com Haley Bennett ("The White City"), David Meunier ("Justified"), Chloë Moretz ("Kick-Ass"), Melissa Leo ("The Butler"), Denzel Washington ("Flight"), entre outros.

A série foi transmitida originalmente entre 1985 e 1989 pela estação televisiva CBS. "The Equalizer" mesclava elementos dos filmes de espionagem com elementos das séries de detectives, contando com cenas de acção bastante realistas e violentas para a época. O enredo de "The Equalizer" centra-se em Robert McCall, um antigo agente secreto, que acaba por ter de enfrentar elementos da máfia russa devido a ter ajudado Teri, a jovem prostituta interpretada por Moretz.

Trailer





Estreia também "Lacrau", um documentário português realizado por João Vladimiro.

Refira-se que a obra arrecadou, no ano passado, o prémio Árvore da Vida no IndieLisboa.

Sinopse: A víbora é surda e o lacrau não vê, assim é e assim será, tal como o campo é calmo e a cidade agitada e o ser humano impossível de satisfazer.
Lacrau procura o regresso "à curva onde o homem se perdeu" numa viagem que parte da cidade em direcção à natureza.
A fuga do caos e do vazio emocional a que chamamos progresso; matéria sem espírito, sem vontade. A procura das sensações e relações mais antigas dos seres humanos.
O espanto, o medo do desconhecido, a perda dos confortos básicos, a solidão, o encontro com o outro, o outro animal, o outro vegetal.
Um mergulho à procura de uma conexão com o mundo. Onde partida e chegada são a mesma, mas eu não.

Trailer






Saliente-se por fim a estreia de "Os Gatos Não Têm Vertigens", o novo filme de António-Pedro Vasconcelos, que ainda não vimos e sobre o qual ainda não temos qualquer opinião.

O argumento da obra foi escrito por Tiago R. Santos e António-Pedro Vasconcelos.

"Os Gatos Não Têm Vertigens" conta no elenco com Maria do Céu Guerra, José Afonso Pimentel, Nicolau Breyner, Fernanda Serrano, Ricardo Carriço, Joana Barradas, João Jesus, Eva Barros, Miguel Santiago, entre outros.

Sinopse: Jó é expulso de casa pelo pai no dia em que faz anos. Sem ter sítio para onde ir, refugia-se no terraço do prédio de Rosa, que acabou de perder o marido.
Ele tem 18 anos e ela 73. Quem diria que ia ser amor à primeira vista?
Trailer

Irão ainda estrear alguns filmes que não parecem merecer grande atenção da nossa parte, como é o caso de "Amigos Para o Que Der e Vier", uma comédia que apesar de ser protagonizada por Owen Wilsen, Zach Galifianakis e Amy Poehler não parece ter agradado muito o público ou a crítica norte-americanos; do drama luso-espanhol "Doce Amargo Amor" e do norte-americano"Lullaby - A Última Canção".

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