12 setembro 2014

Entrevista a Xan Cassavetes sobre "Kiss of the Damned"

Aproveitamos a edição de 2014 do MotelX para publicar a entrevista a Xan Cassavetes sobre "Kiss of the Damned". A entrevista foi conduzida por Aníbal Santiago e Hugo Barcelos na edição de 2013 do Festival de Cinema. A transcrição ficou a cargo de Hugo Barcelos.

Rick's Cinema: Como é que surgiu a ideia para realizar “Kiss of the Damned”?

Xan Cassavetes: Eu ia fazer outro filme, mas decidi que não o queria fazer, e um tipo que eu conhecia, e para quem tinha escrito um filme, é que estava interessado em fazer o “Kiss of the Damned”, por isso ele perguntou-me, tal como perguntou a outros cineastas, se eu o queria fazer, e pediu-me algumas ideias. E eu comecei a trabalhar nelas e, por alguma razão, imaginei logo uma mulher vampira solitária a atravessar quartos vazios, não se sabe se é a sua casa, não se sabe onde fica e para onde vai, é uma viagem infindável, e não sabemos porquê. E foi assim que aconteceu.

RC: Kiss of the Damned parece recuperar um pouco da atmosfera de obras de Jesús Franco (Vampyros Lesbos), Dario Argento (Suspiria) e Tony Scott (The Hunger). Algum destes realizadores serviu de referência/inspiração enquanto esteve a desenvolver “Kiss of the Damned”?

XC: Sim! A intenção não foi roubar-lhes a essência, ou as histórias, nada desse género, mas definitivamente, desde que eu era muito nova, tinha um grande interesse por vampiros, e via todos os filmes, até de soft porn e de kung fu, tudo. E vi todos os filmes do Jesús Franco, do Mario Bava, do Argento, não via apenas filmes deste género, mas gostava muito deles, e é claro que também vi o “The Hunger”. O que eu gostei mais nesses filmes, e isto é uma coisa terrível para uma mulher dizer, mas gostei da “objetificação” da mulher, e do poder de sedução e atração que elas tinham, e de como muitas vezes elas tinham que lidar e encarar o seu próprio poder. E isto é uma espécie de metáfora, e eu achava muito interessante. E uma das minhas amigas disse-me “tu vês as mulheres como os homens as vêm”, e eu pensei “talvez”, mas acho que as mulheres são muito belas e têm um enorme poder na sua atração, que pode ser temível tanto para elas como para aqueles que as rodeiam. Gosto disso numa história de vampiros.

RC: Tal como em “Suspiria”, a música e a beleza visual são elementos notórios e fulcrais de “Kiss of the Damned”. Pode falar-nos um pouco da sua colaboração com o compositor Steven Hufsteter e com o director de fotografia ?

XC: O Hufsteter esteve no meu primeiro filme, e conheço-o desde os meus quinze anos de idade, e desde aí ele trabalhou em filmes criativos como “Repo Man” e “Machete”, e outros filmes do Robert Rodriguez. Além disso estivemos juntos numa banda durante oito anos, e fizemos tours e gravámos álbuns, era uma banda de hardcore, por isso já nos conhecíamos um ao outro musicalmente. E desde muito nova, quando o conheci, ele introduziu-me a vários filme e bandas sonoras melancólicas, mesmo de filmes do John Carpenter! E ele é um excelente compositor, e as suas músicas são poderosas, e foi espetacular fazer um filme com ele. E ele escreveu aquela cena de amor, provavelmente a mais identificável do filme, e o resto foi sendo composto enquanto estávamos a editar.
 E o Tobias, ele é alemão, é um europeu, filma de uma maneira europeia, que eu adoro. Tinha visto um filme mexicano em que ele participa, chamado “Voy a explotar”, que é fantástico, e queria contactá-lo e o meu produtor conhecia-o. E quisemos ter uma cinematografia mais vibrante, mais erótica, e correspondíamo-nos frequentemente, e chegámos a viver na mesma casa durante algum tempo, onde polimos algumas arestas relativamente ao resultado do filme.

RC: Kiss of the Damned apresenta-nos a duas vampiras bastante complexas e fortes, dando-nos o vampirismo do ponto de vista feminino. Porque decidiu escolher o ponto de vista feminino?

XC: Porque é mais interessante! Queria fazer com que as vampiras fossem amigáveis o suficiente mas, como referi à bocado, há algo nas vampiras, numa mulher que se vê sobrecarregada com o seu próprio poder, principalmente o seu poder de sedução. E pensei que estes filmes europeus, de atores e realizadores europeus, não exploram muito a vertente humana dos vampiros, ou a sua atração e a noção que eles têm da sua própria atração. E eu gosto muito dessa ideia.

RC: Djuna, Mimi e Xenia são interpretada por actrizes francesas, enquanto Paolo é interpretado por um norte-americano (Milo Ventimiglia). Estas escolhas foram propositadas para mostrar um certo isolamento masculino em relação às personagens femininas?

XC: Sim, até para mostrar a distinção entre personagens que eram vampiras e as que não eram. Há uma certa quantidade de ideias, e de conceitos que elas partilham e que ele não tem, sendo norte-americano e homem. E ele apesar de tudo acabava sempre por se sentir um bocado excluído, porque volta e meia lá começavam elas a falar em francês, mas isso fez-lhe nascer uma sensação como se ele sentisse que era o “outro”, que acho que foi transposta para o filme.

RC: O filme apresenta-nos a um conjunto de personagens movidos por impulsos e desejos. Podemos falar de um certo erotismo e sensualidade presente ao longo da obra?

XC: Sim. Acho que há uma a ideia de que grande parte da sensualidade é acima de tudo psicológica, e que há uma mistura entre o aspeto físico e o aspeto mental. Não gosto muito de dizer, por palavras, o que se passa no filme, mas penso que a personagem masculina é bastante suicida no início do filme, e depois transforma-se, e há nisso uma beleza e atração, e ele sente-se sozinho, e não sabe exatamente o que está a fazer. E podemos dizer que ele está a habituar-se aos novos sentidos, mas o que é que isso significa? Significa que está a sentir uma mistura entre concentração e impulso. E isso também acontece com a pequena e triste irmã mais nova, que quer que a irmã mais velha reconheça a consanguinidade, mas ela não o faz, e há portanto esta frustração, e esta urgência, que é evidente.


RC: A Xan construiu um conjunto de personagens bastante interessantes, mas é quase não impossível destacar o papel de Roxane Mesquida. Como é que esta foi seleccionada para o projecto?

XC: Bem, eu venero a Roxane, já tinha visto alguns filmes dela, gosto dos seus olhos, e ela faz-me lembrar um bocado a Barbara Steele. Mas é mais do que isso. Quando a vejo a olhar para alguém, com aqueles olhos, eles parecem refletir tanta dor. E não transmitem nenhuma espécie de sensação de retribuição, ou absolvição, não sei, mas há algo nos olhos dela e no seu olhar que é muito profundo e muito pluridimensional. E é tão belo, e tão fisicamente kamikaze, em todos os sentidos. E pensei logo nela, escrevi a personagem a pensar nela. E ela deu-me a ideia de que ela podia ser a irmã mais nova, e curiosamente a Roxane é um ano mais nova do que a Joséphine, a outra atriz, e tornou-se muito claro, na mente da Roxane, da ideia de que ela era a mais nova. E essa dinâmica tornou a sua personagem ainda mais vulnerável.
A Roxane ficou muito excitada quando lhe escrevemos uma parte para ela, e eu gostei muito de trabalhar com ela. A Roxane é o meu tipo de rapariga, eu percebo bem a maneira como ela pensa e ela percebe o que eu quero que ela faça, e eu adoro a personagem dela.

RC: Na secção “Serviço de Quarto” podemos encontrar cinco filmes realizados por mulheres. Pensa que as mulheres estão, agora, a conseguir conquistar o seu espaço no género do terror?

XC: Não faço ideia. Penso que há mais homens interessados no terror, parece-me ser uma coisa de que os homens gostam, simplesmente, mais do que as mulheres. E como há mais homens a tentar fazê-los, há mais homens que acabam por fazê-los. Eu sempre gostei de fazer as coisas que os rapazes faziam, e gosto de ser uma rapariga num mundo de rapazes. Provavelmente não é um pensamento muito feminino, mas, não sei, penso que cada um é responsável pelo seu próprio trabalho, e pelo que vão fazer. E hoje é difícil fazer um filme, mais do que nunca, e tens que fazê-lo com muita paixão e temos que ser muito pragmáticos. E penso que só as pessoas um bocado malucas é que acabam por fazer isto.

RC: Uma última questão. Há alguns planos para um projeto futuro? E, se sim, pode-nos dizer quais são?

XC: Bem, há algo que vai sair, mas do qual não posso falar para que se possa realizar, é secreto. Mas há uma coisa - meio relacionado com a fantasia, mas não é um filme de vampiros. Mas ainda quero fazer outro filme de vampiros! Mas não a seguir.

Sem comentários: