08 julho 2014

Resenha Crítica: "A Temporada do Rinoceronte" (Fasle kargadan)

 Trinta anos depois de ter sido injustamente acusado de escrever poemas políticos contra o "sagrado regime da República Islâmica do Irão" e de ter supostamente colaborado com grupos hostis ao mesmo, algo que lhe valeu o seu encarceramento, Sahel (Behrouz Vossoughi) procura reencontrar Mina (Monica Bellucci), a sua esposa. Esta também foi detida, mas foi liberta mais cedo do que Sahel (a sua condenação foi de um período de dez anos), tendo recebido a informação que o esposo faleceu. Sahel descobre que esta se encontra em Istambul, tendo sido procurada por Akbar Rezai (Yilmaz Erdogan), com quem vive, acompanhada pelo seu filho e a sua filha (Beren Saat). Estes pensam ser filhos de Sahel, mas na realidade logo descobrimos serem filhos de Akbar, um indivíduo que outrora cobiçara Mina, demonstrando o seu interesse nesta e tendo um papel fulcral na detenção do casal. Sahel foi dado como morto, tal como acontecera a muitos prisioneiros políticos no Irão, algo que "A Temporada do Rinoceronte" nos avisa no início, com o filme realizado por Bahman Ghobadi a remeter para a tradição do comentário e denúncia política dos cineastas iranianos contemporâneos. Veja-se o caso flagrante de Jafar Panahi, mas também de Mohammad Rasoulof, entre outros cineastas que sofreram repercussões pouco abonatórias devido à censura no seu país. No caso de Sahel, ficamos perante um homem cuja vida sofreu uma enorme reviravolta aquando da Revolução Iraniana. Este episódio é exposto com alguma violência, com "A Temporada do Rinoceronte" a deixar-nos perante alguns momentos intensos, onde não faltam protestos contra o Xá Mohammad Reza Pahlevi, gritos de apoio a aiatola Khomeini, enquanto a vida de Sahel e Mina sofre uma enorme reviravolta. Outrora fora um poeta de sucesso, mas hoje assemelha-se a um fantasma que vagueia aparentemente sem rumo, preso às memórias do passado e às vicissitudes do presente. O que fazer quando a única pessoa que pretendemos reencontrar pensa que já não fazemos parte deste Mundo? Não será certamente fácil lidar com essa situação, Sahel que o diga, com o seu quotidiano no presente a ser marcado por uma certa dor e melancolia em relação ao passado e ao presente. Raramente encontramos Sahel a dialogar ou a expor efusivamente os seus sentimentos, surgindo antes como uma figura algo misteriosa, por vezes indecifrável, que descobre a morada da esposa mas tarda em revelar que está vivo. A narrativa deambula entre o Outono de 2010 e 1977, com os flashbacks a darem-nos conta do que aconteceu a Sahel, mas também a Mina. A relação entre os dois raramente é-nos exposta de forma muito directa, embora a cumplicidade entre ambos fique paradigmaticamente representada quando o poeta leva a sua amada a visitar a árvore com quem fala durante a elaboração dos seus poemas. Bahman Ghobadi, nesta cena aparentemente simples e sem grandes diálogos, expõe desde logo a cumplicidade do casal, colocando o poeta junto do seu "local sagrado" e a sua amada, reunindo as suas fontes de inspiração e de vida. Temos ainda o momento em que Sahel recusa na prisão dizer o quanto ama Mina, tendo em vista a que não tomem medidas violentas contra esta, mas também a recusa da personagem interpretada por Monica Bellucci em divorciar-se quando se encontra encarcerada.

No meio deste casal temos ainda Akbar, o motorista do pai de Mina, uma figura relativamente unidimensional, que é apresentado como um indivíduo de poucos valores morais, disposto a tudo para ter a mulher por quem gera uma enorme obsessão, tendo assumido funções junto dos elementos revolucionários. Por vezes as justificações para os actos destes personagens parecem algo frágeis, algo visível na forma como Sahel tarda em contactar a esposa, mas também na própria obsessão de Akbar, numa obra marcada por um enorme lirismo e uma cinematografia primorosa. Livremente baseado na vida do poeta iraniano-curdo Sadegh Kamangar, um indivíduo que esteve preso durante vinte e sete anos, cuja família pensava que tinha falecido, "A Temporada do Rinoceronte" remete desde logo para a repressão à liberdade de opinião e cultural do Irão, algo que o próprio Bahman Ghobadi tem sentido na pele. Ghobadi foi praticamente obrigado a sair do Irão pelas autoridades locais devido aos seus trabalhos cinematográficos, tendo em "A Temporada do Rinoceronte" a sua primeira obra livre de censura (sendo elaborada fora do Irão), uma situação que chegou a ser comentada pelo próprio, "It feels very, very good to make a film freely, to work without having to wait years for script approval, without looking over your shoulder. I see calmness in this movie. It doesn't have the nervousness of my previous films". Diga-se que esta é uma situação que acontece também com Behrouz Vossoughi, o protagonista do filme, com o actor a ter de abandonar o território quatro meses antes da Revolução Islâmica, encontrando-se longe do mesmo há mais de trinta anos. Behrouz Vossoughi é um dos elementos em destaque no filme, atribuindo a calma necessária e carisma a este homem consumido pela passagem do tempo e pelos actos sobre si cometidos. Este foi um poeta de sucesso, tendo em Mina uma esposa devotada cuja separação deixou marcas em ambos. Não são marcas visíveis no corpo, mas sim na alma, marcando as suas pessoas e arrasando a possível felicidade que poderiam vir a ter. Esta pensa que o esposo tinha falecido, enquanto Sahel não parece saber muito bem o modo ideal de a contactar, pensando que Mina terá seguido com a sua vida, embora ambos estejam demasiado presos ao passado e pouco felizes com o presente. Monica Bellucci expressa paradigmaticamente o sofrimento da sua personagem, uma mulher que perdeu praticamente tudo o que tinha, incluindo a sua felicidade, com a actriz a proferir as suas falas em farsi e a sobressair com uma interpretação minimalista, capaz de facilmente nos compelir a acreditar nos sentimentos de Mina. Já Yilmaz Erdogan cumpre na tarefa de interpretar este personagem pouco agradável, que simboliza o pior que a cobiça e o excesso de poder podem trazer, mas também um dos elementos cuja condição social melhorou com a Revolução. 

A história destes personagens vai sendo revelada gradualmente ao longo da narrativa, com os flashbacks a contribuírem para o conhecimento que temos destes elementos e das suas personalidades nas cenas do presente, ao mesmo tempo que Bahman Ghobadi nos vai apresentando estes episódios com uma enorme poesia. Este era um objectivo do cineasta, algo que Ghobadi salientou na conferência de imprensa na edição de 2012 do Toronto International Film Festival, explicando ainda o estilo de poesia do poeta e a metáfora do rinoceronte do título "He wrote poems about animals and talked about the role of water in his memories, so I tried to get close to this person when making the movie. I wanted the audience to feel for a few minutes what it was like to be in jail. Rhinos for me are a metaphor for these characters who cannot see or move. If rhinos want to go to left or right they have to turn their entire bodies". Se o argumento e as interpretações sobressaem pelo minimalismo, já as imagens em movimento apresentam um notório cuidado, quer a nível da iluminação, quer da colocação da câmara de filmar, quer na exploração do espaço. Essa situação é visível quando por vezes entramos em campos mais surreais, próximos de um sonho, onde podem chover tartarugas, a neve cai sobre os corpos e a imaginação parece ser o limite. Não é só aqui que a cinematografia sobressai, mas também quando Mina e Sahel se encontram na prisão, os cenários são dominados pela escuridão e pelas sombras, revelador da frieza que rodeia todos estes momentos, bem como o desespero e as privações a que se encontram sujeitos, incluindo da sua dignidade como seres humanos. Temos ainda uma exploração digna de atenção da paleta cromática, com "A Temporada do Rinoceronte" a surgir muitas das vezes marcado por cores saturadas, colocando-nos perante uma obra com uma história que parece simultaneamente tão real e irreal. Existe muito mérito do director de fotografia Turaj Aslani que, em colaboração com Bahman Ghobadi, contribui para um conjunto de delicadas imagens em movimento, capazes de contribuir para toda esta atmosfera poética do filme. Por vezes notamos ainda um certo esbatimento nas cores, tal como os sentimentos dos personagens parecem cada vez mais marcados pela desilusão, ao longo de uma obra muito marcada pelos silêncios.

Em alguns momentos estes parecem excessivos e parece notório que a narrativa beneficiaria de um maior foco na construção dos personagens e dos seus relacionamentos através da via do diálogo, mas não parece ser a intenção do cineasta. Embora seja uma obra digna de variados elogios, nem tudo funciona ao longo de "Fasle kargadan", algo paradigmaticamente representado na subtrama do relacionamento de Sahel com a filha de Mina, uma jovem que se prostitui, com a dinâmica entre os personagens a ser arrasada pela falta de diálogos. Certamente devem ter conversado fora do que nos é apresentado na narrativa, mas também teria sido interessante que "A Temporada do Rinoceronte" os tivesse colocado a comunicar durante o enredo, sobretudo se tivermos em linha de conta que esta pensa ser filha do poeta. A própria relação de Mina com os filhos raramente é abordada, com o filme a usar e abusar de um minimalismo excessivo, que pode ser compensado com as imagens em movimento mas não esconde alguma incapacidade do argumento em resolver as situações que cria, algo que se adequa ainda em relação às várias metáforas utilizadas. Ficam por explorar personagens e temáticas (incluindo a nível político), tal como ficam por dar algumas explicações, embora o centro de tudo seja a história deste poeta e da sua esposa, mas também como um homem pode ser privado da sua dignidade por um sistema repressivo. Sahel foi preso por escrever poemas, tal como muitos elementos ligado ao mundo das artes, e não só, são perseguidos neste Irão onde a democracia está longe de ser uma realidade. As cenas de Sahel e Mina na prisão são duras, com este a ser torturado e esta a ser violada, vivendo momentos que abriram feridas irremediáveis nas suas vidas. Estes momentos de dureza contrastam com a beleza de excertos dos poemas de Sadegh Kamangar que nos são lidos, enquanto somos deixados perante algumas belas imagens em movimento e várias metáforas. Uma delas é particularmente reveladora da personalidade de Akbar, quando a sua fotografia é mergulhada no interior de um recipiente com sanguessugas, ou não fosse este um elemento que parece viver da desgraça e sofrimento alheio. Temos ainda o simbolismo do Rinoceronte, mas também da Tartaruga, ao longo desta delicada obra cinematográfica que contou com o apoio de Martin Scorsese. Marcado por uma cinematografia primorosa, "A Temporada do Rinoceronte" revela-se um pequeno pedaço de poesia em movimento, um drama de enorme beleza, onde Bahman Ghobadi exibe-se como um dos cineastas Curdos de relevo da actualidade.

Título original: "Fasle kargadan".
Título em Portugal: "A Temporada do Rinoceronte". 
Realizador: Bahman Ghobadi.
Argumento: Bahman Ghobadi.
Elenco: Monica Bellucci, Beren Saat, Behrouz Vossoughi, Belçim Bilgin, Yılmaz Erdoğan, Arash Labaf, Caner Cindoruk, Ali Pourtash.

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