05 julho 2014

Resenha Crítica: "Shanghai Express" (1932)

 Fulgurantes sentimentos estes que passam do ecrã para o espectador em "Shanghai Express, uma das obras-primas de Josef von Sternberg, onde este deixa Marlene Dietrich, a sua musa, com uma aura quase divina. Dietrich interpreta Magdalen, mais conhecida como Shanghai Lily, uma cortesã luxuosamente vestida, conhecida pela sua fama de extorquir as finanças daqueles que dela se aproximam e apaixonam. Shanghai Lily encontra-se num comboio que parte de Pequim em direcção a Xangai, tendo na sua carruagem a companhia de Hui Fei (Anna May Wong), também ela uma cortesã. Estamos em 1931, com o território da China a encontrar-se em plena Guerra Civil, um acontecimento que terá repercussões na viagem destes personagens, ou não tivesse o filme sido livremente inspirado num episódio ocorrido a 6 de Maio de 1923, onde o expresso de Xangai para Pequim foi invadido e capturado por um senhor da guerra de Shengdong. No caso do filme também temos um ataque ao "Expresso de Xangai", mas inicialmente somos apresentados a vários dos passageiros que se encontram no comboio, entre os quais um negociante de ópio (Gustav von Seyffertitz) chamado Eric Baum; Sam Salt (Eugene Pallette), um jogador inveterado; Mr. Carmichael (Lawrence Grant), um missionário de valores conservadores; Mrs. Haggerty (Louise Closser Hale), a dona de uma pensão, uma mulher que procura estar sempre acompanhada pelo seu cão; Major Lenard (Emile Chautard), um militar francês que descobrimos ter perdido as suas insígnias; Henry Chang (Warner Oland), um indivíduo misterioso que posteriormente revela as suas verdadeiras intenções. Quase todos estes personagens guardam os seus segredos e esqueletos no armário, algo que permite ao elenco secundário destacar-se e a Sternberg explorar um pouco a dicotomia entre o ser e o parecer destes elementos, bem como alguma hipocrisia entre ambos, embora seja outro passageiro que vai despertar a atenção de Shanghai Lily, um médico e militar britânico chamado Donald Harvey (Clive Brook), um indivíduo que se encontra no meio de transporte tendo em vista a tratar do Governador Geral de Xangai. Donald e Magdalen separaram-se há cinco anos atrás, mas ainda não se esqueceram, com a falta de confiança deste a ter minado a relação, embora ainda seja notório os quentes sentimentos que nutrem um pelo outro. Dietrich e Brook destacam-se como este par romântico que se parece querer voltar a envolver mas tarda em reunir-se, uma tarefa que se complica ainda mais quando um elemento revolucionário é detido, algo que conduz Henry Chang a revelar o seu papel neste movimento e a deter o comboio, com os seus homens a tomarem o espaço e a fazerem os passageiros reféns. O perigo é latente e "Shanghai Express" não poupa nesse sentimento, com os passageiros a serem chamados um a um para se reunirem com Chang, enquanto este procura descobrir elementos relevantes para poder trocar com o seu elemento capturado.

Devido à relevância de Donald Harvey junto dos governantes, o médico logo é utilizado como moeda de troca, algo que coloca a sua vida em perigo, enquanto Shanghai Lily parece pronta a todos os sacrifícios para salvar o amado. A tragédia parece poder ocorrer para estes dois, embora a maior desgraça que lhes parece poder vir a acontecer é manterem-se separados, ao longo de uma obra marcada por este romance do passado que ressurge no presente, mas também muita inquietação, em parte gerada pela invasão ao comboio. A invasão dos rebeldes facilmente coloca a vida de todos os elementos em perigo, embora Donald logo revele a sua faceta heróica e algo impertinente, surgindo pronto a mostrar os seus valores e a desafiar os perigos. Embora todo o destaque do filme e da câmara de filmar esteja em Marlene Dietrich, nem por isso outros elementos secundários deixam de sobressair. A começar por Clive Brook como o homem pragmático ligado à medicina que tarda em mostrar "fé" para com a amada e confiar na mesma, apesar dos actos pouco correctos desta ao longo dos cinco anos que se passaram. Guarda o relógio oferecido por Magdalen, mas tarda em mostrar esse afecto que esta mulher por vezes não consegue esconder. Poucas actrizes conseguem mesclar de forma tão sublime as facetas cínicas e frágeis das personagens que interpretam como Marlene Dietrich, e esta tem em "Shanghai Express" uma obra onde volta a demonstrar essa situação, com Shanghai Lily a ser um dos grandes papéis deste ícone da História do Cinema. A relação profissional desta com Josef von Sternberg resultou em sete obras cinematográficas, sendo "Shanghai Express" uma das mais recomendáveis, se não a melhor, onde o cineasta volta a demonstrar a veneração pela sua actriz e a transforma em algo que ultrapassa as barreiras humanas. Veja-se quando fixa a câmara de filmar no rosto de Dietrich e ilumina o rosto desta, ou quando a encobre na escuridão, ou até quando a deixa relativamente encoberta pelo fumo dos cigarros que fuma (algo que lhe concede algum mistério), sobressaindo toda a expressividade e classe da actriz, mas também todo um cuidado a nível da cinematografia. O trabalho de Lee Garmes na fotografia sobressai pela positiva, notando-se uma paradigmática utilização do chiaroscuro, para além de todo um cuidado na composição dos planos e no aproveitamento dos espaços onde se desenrola a narrativa (uma das imagens de marca dos filmes de Josef von Sternberg), enquanto os personagens vivem alguns episódios marcantes no interior do comboio. 

 O comboio transforma-se facilmente num espaço dado à intriga mas também ao romance e ao perigo, sendo que a saída deste meio de transporte nem sempre promete ser pacífica para estes personagens. Warner Olland surge como a faceta mais visível do perigo, com o eterno Charlie Chan a atribuir um tom perigoso e misterioso ao seu personagem, enquanto Sternberg inquieta-nos em relação aos destinos dos seus personagens. No entanto, o que mais sobressai ao longo de "Shanghai Express" é o romance entre Shanghai Lily e Donald, duas figuras aparentemente distintas mas que partilham sentimentos em comum, sobressaindo a dinâmica entre Clive Brook e Marlene Dietrich, uma dupla capaz de dar uma enorme credibilidade a esta relação. Brook como o indivíduo pragmático, enquanto Marlene Dietrich surge com um guarda-roupa luxuoso e uma maquilhagem adequada a esta sedutora apaixonada que esconde num falso cinismo uma fragilidade que a sua alma parece conter. Veja-se quando surge com um véu preto e misterioso, ou quando aparece a fumar, uma característica das suas personagens em vários filmes de Josef von Sternberg. O cineasta incute em "Shanghai Express" alguns elementos transversais a várias das suas obras cinematográficas, entre os quais uma relação sentimental marcada por alguma repressão dos desejos sexuais, uma figura feminina complexa e sedutora, a utilização paradigmática das sombras e dos cenários, entre outros. Temos ainda o comboio, exposto no seu exterior de forma fulgurante, a avançar incessantemente, um pouco como os sentimentos destes personagens. As cenas no interior do comboio foram filmadas em estúdio, embora conste que Sternberg procurou reproduzir os ritmos deste meio de transporte para a sua narrativa, ao longo de uma obra com uma atmosfera inebriante onde Marlene Dietrich sobressai como Shanghai Lily. Sedutora, deslumbrante, marcante, Marlene Dietrich tem em Shanghai Lily uma personagem memorável, enquanto Josef von Sternberg nos deixa perante este expresso que nos transporta uma profusão de sentimentos, belas imagens em movimento e uma obra-prima do currículo deste magnífico cineasta.

Título original: "Shanghai Express". 
Título em Portugal: "O Expresso de Xangai"
Realizador: Josef von Sternberg. 
Argumento: Jules Furthman.
Elenco: Marlene Dietrich, Clive Brook, Anna May Wong.

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