06 julho 2014

Resenha Crítica: "The Scarlet Empress" (1934)

 Depois do tropeção em "Blonde Venus", a colaboração profissional entre Marlene Dietrich e Josef von Sternberg volta a conhecer mais uma entrada recomendável, nomeadamente, "The Scarlet Empress", um filme de pendor histórico marcado por um erotismo evidente. Marlene Dietrich interpreta uma versão bastante ficcional de "Catarina II, a Grande", com a narrativa de "The Scarlet Empress" a transportar-nos para a Rússia do Século XVIII, onde as mulheres surgem aparentemente subjugadas às figuras masculinas embora a protagonista gradualmente nos mostre o contrário. Sophia Frederica é uma mulher de origem alemã, filha do príncipe Cristiano Augusto de Anhalt-Zerbst, tendo sido escolhida pela czarina Elizabeth (Louise Dresser) para casar com o sobrinho desta última, Peter (Sam Jaffe), o herdeiro ao título de Imperador da Rússia. A protagonista foi desde cedo educada para obedecer, algo que a conduz a não hesitar em viajar com o Conde Alexei (John Davis Lodge) e os homens deste em direcção à Rússia para casar com Peter. Alexei, um elemento galanteador e confiante, logo demonstra interesse por Sophia, procurando seduzir a herdeira ao trono, embora esta procure inicialmente ser fiel ao esposo. Quando encontra Peter pela primeira vez, Sophia fica em choque, deparando-se com um homem de feições e comportamentos algo grotescos, mentalmente perturbado e pouco disposto a amá-la. Ambos casam-se, com Sophia a ter de obedecer às ordens da rígida Elizabeth, apresentando um choque de valores em relação aos elementos que rodeiam a corte. Este é um local composto por muito luxo, mas poucos valores morais, onde as traições e o cinismo abundam, algo a que Sophia vai gradualmente habituar-se. Josef von Sternberg apresenta-nos às mudanças desta mulher, que começa como uma jovem cândida, algo ingénua, com alguns valores morais, até começar a entrar nos jogos de poder no interior da corte, dominando os homens, utilizando o seu corpo e seduzindo aqueles que dela se aproximam. A morte de Elizabeth conduz Peter ao poder, embora poucos fiquem agradados com a sua Governação, com a protagonista a preparar um golpe que ficaria na História. Em certa medida, esta mulher faz-nos recordar a personagem interpretada por Marlene Dietrich em "Blonde Venus", muito marcada pelos acontecimentos que a rodeiam, embora o argumento de "The Scarlet Empress" consiga apresentar uma competência muito maior na exposição das mudanças da personagem ao longo da narrativa.

Marlene Dietrich aparece deslumbrante e convincente como quase sempre, embora sobressaia muito mais quando a sua personagem apresenta uma faceta decidida e sedutora. Sophia inicialmente surge com alguma inocência, curiosidade e candura em relação a toda esta aventura, até ao momento em que conhece o noivo e o seu casamento decorre, com a cerimónia a simbolizar a sua perda de inocência, ao mesmo tempo que o seu rosto mostra uma enorme aflição e desespero, com Marlene Dietrich a brilhar em grande nível. Josef von Sternberg ajudou Dietrich a tornar-se num ícone da História do Cinema, com a sua reverência para com a actriz a resultar em alguns dos melhores trabalhos desta, mas também do cineasta. A iluminação, a câmara de filmar, o guarda roupa, tudo se parece conjugar para Marlene Dietrich destacar-se e brilhar, ofuscando quase tudo e todos, dominando o ecrã, enquanto a sua personagem domina gradualmente a corte, com a habitação de Sophia a surgir grandiosa e ricamente adornada, mas aparentemente vazia de valores no seu interior. A influência dos filmes do chamado expressionismo alemão parece notória na exposição deste espaço, muito marcado pelas sombras salientes, por figuras disformes e monstruosas a decorarem o castelo, mas também na própria figura de Peter, um elemento perturbado e de figura pouco aprazível. Embora o personagem seja algo unidimensional, nunca passando de um elemento algo patético, desequilibrado e coleccionador de soldados de chumbo, Sam Jaffe consegue destacar-se, enquanto Peter gera o desprezo da sua esposa e mantém um caso extra-conjugal com Isabel, uma mulher contratada para "entretê-lo". Outro dos elementos que se destaca no elenco é John Davis Lodge como Alexis, um conde galanteador, que procura conquistar a personagem interpretada por Marlene Dietrich e mantém um caso com Elizabeth. Apesar das figuras masculinas terem alguma influência na protagonista, esta gradualmente começa a desinibir-se e a mostrar a sua personalidade forte, enquanto Josef von Sternberg consegue habilmente desenvolver estas transformações na protagonista e na narrativa, ao longo deste competente filme de época. Não deixa também de ser curioso analisar como as carreiras de Marlene Dietrich e da diva Greta Garbo andaram muito lado a lado, com ambas a protagonizarem géneros de filmes muito semelhantes, algo visível se compararmos "Queen Christina" com "Scarlet Empress", dois dramas de época onde tínhamos personagens femininas fortes. Ambos tiveram a sua dose de polémica, com "The Scarlet Empress" a provavelmente ter sido um terror para os censores do Código Hays, não faltando cenas marcadas por algum erotismo, adultério, imoralidade, profanidade, ao longo de uma obra marcada por personagens moralmente corrompidos. 

O filme destaca-se ainda por uma magnífica decoração dos cenários e um eficaz aproveitamento dos mesmos, algo visível na procura de criar a ideia de que estamos mesmo perante uma Rússia marcada pela neve, não faltando um conjunto elevado de figurantes, prontos a darem uma noção exacta do elevado contingente militar. Vale ainda a pena realçar o guarda roupa pronto a dar um tom da época representada, mas também a explorar as mudanças e os estatutos dos personagens, algo visível no caso de Sophia. Esta é o centro de tudo, incluindo do realizador, numa obra que se revelou um fracasso aquando do seu lançamento, naquela que é a penúltima colaboração entre Josef von Sternberg e Marlene Dietrich. Hoje parece óbvio que estes poderiam e deveriam ter colaborado ainda em mais obras, apesar do público da época ter brindado a dupla com alguma indiferença em "The Scarlet Empress", um filme que mescla com sucesso o estilo e a substância. Os tempos de crise provocada pela chamada "Grande Depressão" parecem ter retirado público ao filme, com os espectadores a não mostrarem grande interesse neste drama de pendor histórico. Apesar do filme ser merecedor de largos elogios, vale a pena realçar um aspecto que nem sempre funciona bem, nomeadamente, os intertítulos a separem e apresentarem algumas cenas, com este recurso a permitir avançar com a narrativa, embora Josef von Sternberg peque em demasia nos comentários opinativos que denigrem alguns elementos e procuram notoriamente manipular a opinião do espectador, quando deveriam ser os personagens a convencerem-nos destes adjectivos e não esta ilustração textual. Adensam o tom marcado por algum humor do filme, é certo, mas nem sempre resultam, com o cineasta a mesclar esses momentos de alguma leveza com o erotismo, o drama e até alguns elementos que parecem ter sido retirados dos filmes de terror. Sem rigor histórico mas com muito sentimento e uma magnífica interpretação de Marlene Dietrich, "The Scarlet Empress" traz consigo um conjunto interessante de valores de produção, uma cinematografia aprumada e muita imoralidade, revelando-se um competente filme de época.

Título original: "The Scarlet Empress".
Título em Portugal: "A Imperatriz Vermelha".
Realizador: Josef von Sternberg.
Argumento: Eleanor McGeary.
Elenco: Marlene Dietrich, John Lodge, Sam Jaffe, Louise Dresser, C. Aubrey Smith.

Sem comentários: