23 julho 2014

Resenha Crítica: "O Fim do Outono" (Akibiyori)

 Yasujiro Ozu consegue como poucos cunhar o seu estilo muito próprio nas obras cinematográficas que realiza, algo que foi incrementando ao longo da sua carreira e é exposto de forma magnífica em "O Fim do Outono". Ficamos perante as temáticas típicas de Yasujiro Ozu relacionadas com as relações familiares, o casamento e a dissolução da unidade familiar, o choque entre gerações, mas também com o seu estilo muito próprio de filmar, marcado por planos fixos e pensados ao pormenor (marcados por enorme simetria), câmara baixa, uso assertivo das elipses, interpretações marcadas pela sobriedade e uma enorme harmonia. Existe uma enorme calma a rodear estes personagens, mesmo nos momentos de maior tensão, com os sentimentos a serem expostos com enorme delicadeza e sobriedade, enquanto ficamos perante Akiko (Setsuko Hara), uma viúva, e a sua filha Ayako (Yoko Tsukasa), uma jovem de vinte e quatro anos cujos amigos do falecido pai e da progenitora pretendem ver casada. Ayako não parece muito interessada na ideia, procurando evitar a todo o custo deixar a mãe sozinha, um pouco a fazer recordar a protagonista de "Late Spring", que não queria deixar o pai sozinho, com "O Fim do Outono" a ser uma espécie de remake desta obra cinematográfica. Os elementos que pretendem ver Ayako casada são Mamiya (Shin Saburi), Taguchi (Nobuo Nakamura) e Hirayama (Ryuji Kita), três personagens já na casa dos cinquenta e poucos anos, no "Outono" da vida, que outrora cobiçaram Akiko. Estes reúnem-se na cerimónia fúnebre do sétimo aniversário da morte do amigo, continuando a elogiar a beleza de Akiko, chegando até a procurar casar esta mulher de forma a que Ayako se decida a casar e a viúva não fique sozinha, um desejo que promete trazer muitas confusões. Destes elementos, Mamiya e Taguchi são casados, tendo ambos um casal de filhos, enquanto Hirayama é viúvo, tendo um filho já adulto. Yasujiro Ozu não descura a relação destes elementos entre si, bem como entre as respectivas famílias, tal como não deixa de explorar a relação de cumplicidade entre Akiko e Ayako. Interpretada por Setsuko Hara, uma das musas de Ozu, Akiko é uma mulher marcada pelas memórias do marido, que ganha a vida a dar aulas de costura, apresentando brandos comportamentos e um grande desejo em ver a filha feliz. Yoko Tsukaka é sublime a atribuir um tom algo ingénuo à personagem que interpreta, uma jovem muito apegada à mãe, pronta a não descurar os laços familiares, contendo na sua pessoa o confronto entre modernidade e tradição das obras de Yasujiro Ozu. Esta pretende casar apenas quando escolher, embora não descarte a opção, tendo em Shotaru Goto (Keiji Sada) um pretendente arranjado por Taguchi, um indivíduo afável que Ayako rejeita, apesar de mais tarde começar a formar uma relação de amizade com o mesmo.

 Enquanto isso, assistimos ao convívio e esquemas dos três homens, um trio que tem uma forte amizade desde os tempos de universidade, tendo sido colegas de Miwa, o falecido marido de Akiko. Mamiya, Taguchi e Hirayama apresentam uma grande cumplicidade, partilhando momentos a beberem saqué (um prazer rápido que é transversal a várias obras de Ozu), a contarem piadas (veja-se quando fazem uma piada sobre os homens que se casam com mulheres belas morrerem mais cedo, a fazer recordar o timing e estilo de humor dos elementos masculinos de "A Flor do Equinócio" quando estes discutiam o porquê de terem filhas ou filhos), procuram casar Ayako, mas também Akiko. A escolha para noivo de Akiko é Hirayama, um homem ponderado, pouco dado a muitas falas, embora esta não pareça disposta a avançar tão rapidamente para um novo rumo da sua vida, enquanto Ozu aproveita para abordar o tema do segundo casamento. Temos ainda a relação de amizade entre Ayako e Yuriko, duas colegas de trabalho e confidentes, com o filme a procurar explorar as diversas ligações entre os vários personagens. Ayako e Yuriko são duas jovens que trabalham e procuram lidar com as mudanças da chegada à idade adulta, incluindo a perda de amizades, o casamento, os relacionamentos distintos com os pais, entre outros elementos. Yuriko é uma jovem marcada por uma enorme vitalidade, permitindo a Mariko Okawa destacar-se como esta personagem que é capaz de se impor perante os homens e até aguentar beber mais saqué do que estes. Este momento de Yuriko a beber saqué é também revelador do crescente papel da mulher, com esta e Ayako a já não serem donas de casa submissas, mas sim mulheres trabalhadoras, que guardam no seu interior as dicotomias de um Japão entre a tradição e a ocidentalização. Yasujiro Ozu é um mestre na arte da subtileza e na exposição das relações humanas, algo que volta a evidenciar em "O Fim do Outono", uma obra onde já apresenta um estilo aprumado, muito próprio, onde facilmente nos inebriamos para o interior da narrativa. As interpretações são marcadas pelo cuidado que Yasujiro Ozu tem a dirigir os actores, a procurar ao máximo despojá-los de tiques que possam parecer que estes estão a representar, enquanto estes sobressaem pela positiva. Veja-se Setsuko Hara, uma colaborada habitual de Ozu, com esta a atribuir uma enorme brandura a esta viúva preocupada com a filha, que guarda as memórias dos tempos em que contava com o esposo e apresenta um comportamento recatado. Esta encontra-se no Outono da vida, vestindo-se de forma tradicional, ao contrário da sua filha, vestida de forma ocidental, embora também se sujeite a casamentos relativamente arranjados e às tradições. É um Japão entre a modernidade e a tradição este que Ozu nos apresenta, onde não faltam elementos como o "Coffee Bow" e a Coca-Cola a identificarem a influência dos EUA no território, enquanto assistimos a valores muito associados ao Japão e à sua cultura. 

 Yasujiro Ozu é por vezes designado como o mais japonês dos cineastas japoneses, uma designação que encerra em si algumas limitações, visto que este nos passa um ideal de Japão (serão as obras de Seijun Suzuki menos "japonesas"?), mas nem por isso deixa de se adequar ao realizador. No caso de "O Fim do Outono" estamos perante um espaço urbano marcado por casas tipicamente associadas ao Japão, por famílias de classe média/alta, colocando-nos entre os elementos mais jovens que procuram iniciar as suas vidas fora da alçada dos pais, mas também diante de elementos já perto dos cinquenta anos de idade e vida estabelecida. Veja-se o caso de Ayako e Goto, com estes a iniciarem uma relação, enquanto que Mamiya, Taguchi e Hirayama apresentam uma cumplicidade latente fruto dos vários anos de ligação, embora por vezes pareçam que continuam na adolescência, cometendo actos irreflectidos com enorme facilidade. Taguchi é o elemento mais falador, com o trio a ser colocado em momentos de enorme afinidade, incluindo a ingerir bebidas alcoólicas, com Ozu a voltar a explorar os pequenos prazeres dos quais os seus personagens desfrutam, mas também os mal-entendidos entre os mesmos (os mal-entendidos permeiam algumas das obras do realizador, veja-se a um nível mais trágico de "Woman of Tokyo" e de algum humor em "Bom Dia"). O trio é interpretado por elementos regularmente presentes na obra do cineasta, juntando-se ainda nomes como Chishu Ryu, que tem um pequeno papel como tio de Ayako, com o realizador a optar por novamente colaborar com elementos que lhe são bem conhecidos, enquanto estes cumprem na perfeição aquilo que lhes é pedido. Ryu dera vida ao pai da protagonista de “Early Spring”, um filme que serviu e muito de base para “Late Autumn”, com o personagem do actor a ser um viúvo, enquanto Setsuko Hara dera vida à filha que não pretendia afastar-se do progenitor. Apesar de apresentarem algumas diferenças entre si, as obras têm vários elementos em comum, tais como a temática do casamento da protagonista, a dificuldade desta em deixar um dos progenitores, a procura dos elementos que rodeiam a personagem principal em casá-la, o espaço urbano, a última viagem da filha com o progenitor(a), os personagens masculinos a conviverem e beberem saqué (os personagens das obras de Ozu dedicam-se por vezes aos prazeres momentâneos), a relação de amizade da protagonista com uma figura feminina da sua idade, o plano do(a) viúvo(a) que passa por fingir que pretende casar, entre outros elementos.

O cineasta volta ainda a presentear-nos com os seus planos magníficos, elaborados com enorme cuidado, sendo notória a simetria, parecendo tudo natural quando muito é trabalhado. Veja-se desde logo a colocação dos actores no espaço da narrativa, por vezes a parecer que estão em pequenas molduras, bem como os célebres pillow shots que dividem as sequências, para além dos momentos em que nos deixa os personagens a olhar para a câmara de filmar no centro do cenário, quebrando regras e expondo a sua enorme habilidade para trabalhar as imagens em movimento. Temos ainda uma hábil e discreta iluminação e disposição dos objectos (não faltando product placement), mas também uma facilidade enorme de Ozu em pegar em temáticas de outras obras, incuti-las nos seus novos filmes e atribuir-lhes enorme frescura. Nesse sentido, dizer que um filme de Yasujiro Ozu é muito recomendável torna-se quase que redundante, visto que este realizou uma quantidade de obras cinematográficas magníficas, marcadas pelo seu cunho autoral, tendo aprimorado o seu estilo ao longo da sua carreira. Em "O Fim do Outono" volta ainda a não descurar o humor, presente em alguns dos filmes do seu início de carreira e incluído em doses certeiras noutros trabalhos que se seguiram. No entanto, no centro de tudo estão as relações familiares, das famílias que se constroem e separam, com "O Fim do Outono" a surgir marcado pela graciosidade, humanidade e perfeição típicas das obras de Yasujiro Ozu. 

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