19 julho 2014

Resenha Crítica: "Mr. Peabody & Sherman" (2014)

 Filme de animação marcado por um enorme didactismo, "Mr. Peabody & Sherman" surge claramente virado para os mais jovens embora a sua história seja suficientemente interessante para cativar a atenção dos adultos. "Mr. Peabody & Sherman" adapta os célebres personagens de animação criados por Ted Key ao grande ecrã, algo que envolve termos a peculiar premissa de um cão adoptar uma criança, bem como as viagens pelo tempo da dupla. Esse cão é Mr. Peabody, um canino capaz de falar e com uma inteligência superior a qualquer humano, perspicaz e cordial que consegue adoptar um jovem abandonado, Sherman. Os dois apresentam fortes elos de ligação, partilhando alguns momentos memoráveis enquanto viajam na máquina do tempo criada por Peabody, algo que permite à dupla de protagonistas conhecer episódios e figuras históricas ao vivo, incluindo George Washington, Maria Antonieta, Albert Einstein, Mahatma Gandhi, William Shakespeare, entre outros. Nesse sentido, nos primeiros momentos da narrativa temos Peabody e Sherman em plena corte de Maria Antonieta, até a Revolução eclodir e estes regressarem a casa. Na escola, Sherman morde Penny (Ariel Winter), uma colega que o chama de cão e goza com este, uma situação que conduz Grunion, uma funcionária dos serviços sociais, a investigar se Peabody está a cuidar bem do petiz e ameaçar tirar a criança da guarda do protagonista. Peabody decide convidar Penny e os seus pais a jantarem em sua casa, algo que desagrada inicialmente a Sherman devido à animosidade para com a rapariga, um sentimento mútuo. O que parecia uma noite marcada pelo aborrecimento logo se transforma numa enorme aventura quando Sherman revela a Penny sobre a máquina do tempo, com esta a escapulir-se para o Antigo Egipto. Peabody e Sherman logo viajam para o Antigo Egipto, descobrindo que Penny encontra-se prestes a casar com Tutankamon, algo que estes procuram evitar. Perante a necessidade de reabastecerem o veículo de combustível, o trio é obrigado a parar no Renascimento, onde encontram Leonardo Da Vinci, enquanto este último se encontra a procurar pintar o célebre quadro da Mona Lisa. Estes viajam ainda pela Batalha de Tróia onde encontramos um peculiar grupo de guerreiros (com o filme a procurar jogar com os clichés associados aos períodos históricos), até as viagens não correrem como o esperado e Peabody e Sherman se encontrarem na obrigação de terem de salvar a continuidade espaço-temporal, ao mesmo tempo que têm de salvar as suas vidas e manterem-se juntos, ao longo deste agradável filme de animação. As viagens no tempo e por vários episódios da História permitem a Rob Minkoff não só criar algumas peripécias interessantes para a narrativa mas também atribuir algum valor didáctico inolvidável a "Mr. Peabody & Sherman", procurando despertar algum interesse pela História aos jovens espectadores, enquanto o argumento revela alguma competência a explorar os diferentes momentos históricos.

 Temos os personagens pela Revolução Francesa, Antigo Egipto, Renascimento, lidando com figuras históricas e influenciando a História, sempre com algum humor à mistura, respeitando um pouco a série de animação original. Por vezes é certo que estas aventuras pela História parecem algo forçadas para Rob Minkoff poder explorar as possibilidades da máquina do tempo do protagonista e estender a narrativa, mas nem por isso se deixam de revelar surpreendentemente interessantes, ao longo de uma obra de animação que procura claramente chegar ao público mais jovem. Ultimamente estamos habituados a contar com filmes de animação que procuram alcançar um leque de público alargado, com algumas das melhores obras da Pixar e da Dreamworks a evidenciarem isso mesmo, algo que não acontece tanto com "Mr. Peabody & Sherman", embora a sua história apresente ingredientes suficientes para cativar a atenção dos adultos. O didatismo é evidente, com "Mr. Peabody & Sherman" a procurar jogar com os episódios históricos para dinamizar a narrativa, ao mesmo tempo que é capaz de desenvolver a peculiar relação entre Peabody e Sherman, mas também entre este último e Penny. Sherman tem de lidar com o preconceito dos restantes elementos devido a ser adoptado por um cão, embora isso não abale a relação deste com o progenitor, apesar de não significar que o petiz não lhe desobedeça, uma situação visível quando apresenta a máquina do tempo a Penny. Poderemos ter representada uma metáfora para os pais ou mães solteiros, mas também para a possibilidade de um dos pais adoptivos ser homossexual (a diferença a ser rejeitada pela maioria), embora o fulcro de "Mr. Peabody & Sherman" esteja na relação entre um jovem e o seu pai adoptivo (algo que por vezes atribui uma excessiva sentimentalidade ao enredo), nas viagens no tempo e na relação de Sherman com Penny. Esta é uma jovem algo pedante e embirrante, a típica bully, embora gradualmente forme uma relação de amizade com o jovem Sherman ao longo de uma obra que procura quase sempre jogar pelo seguro, algo visível no relacionamento entre estes dois jovens. Rob Minkoff já realizou filmes como "The Lion King" e "Stuart Little", ou seja, deu mais do que provas no entretenimento para toda a família, tendo em "Mr. Peabody & Sherman" um filme de animação que promete ser uma escolha ideal para os mais jovens, embora esteja longe de surpreender. Aborda episódios históricos com algum humor, defende os valores familiares, da diferença e da amizade, conta com um conjunto de personagens principais e secundários de algum interesse, exibindo-se como um dos bons filmes de animação da Dreamworks. O trabalho a nível de animação é bastante regular, conhecendo alguns momentos de inspiração nas cenas do Antigo Egipto e no Renascimento, num filme propositadamente para o público mais jovem que é capaz de captar alguma atenção por parte dos adultos.

Título original: "Mr. Peabody & Sherman". 
Título em Portugal: "Mr. Peabody e Sherman".
Realizador: Rob Minkoff.
Argumento: Craig Wright.
Elenco: Ty Burrell, Max Charles, Ariel Winter, Leslie Mann, Stephen Colbert, Allison Janney.

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