01 julho 2014

Resenha Crítica: "Morocco" (1930)

 Amy Jolly canta, encanta, seduz, é seduzida, mostra-se pragmática e impulsiva, vende maçãs mas não a sua alma, hipnotiza e deixa-se hipnotizar, surgindo como uma personagem recheada de contradições em "Morocco", uma obra cinematográfica que marca a segunda colaboração profissional entre Josef von Sternberg e Marlene Dietrich. O cineasta soube como poucos destacar o talento e a beleza da actriz, reverenciando as suas expressões, o seu corpo, a sua face e o seu carisma, deixando-a a interpretar mais uma vez uma sedutora, embora Amy Jolly esteja longe de ser uma mulher fatal como a personagem interpretada por Dietrich em "Der Blaue Engel". Amy Jolly é uma cantora de cabaré recentemente chegada ao Protectorado Francês em Marrocos, nos finais dos anos 20 do Século XX, que rapidamente desperta a atenção de La Bessière (Adolphe Menjou), um indivíduo culto e de elevadas posses, mas também do mulherengo legionário Tom Brown (Gary Cooper). Ambos os pretendentes não poderiam ser mais diferentes. La Bessière é um homem bem relacionado, de fino trato, culto, dado a mostrar a sua afeição por Jolly. Brown é algo rude na forma como lida com as mulheres, embora claramente se interesse pela protagonista. Esta impressiona tudo e todos no clube nocturno, mas também os próprios espectadores de "Morocco", uma situação visível quando Amy Jolly surge vestida de forma masculina, canta e beija uma mulher, algo gerador de polémica na época num filme ainda pré-Código Hays. Posteriormente a esse momento sublime, esta canta com pouca roupa e vende maçãs ao público, tendo entre os compradores da fruta, que remete para o desejo e perdição, La Bessière e Tom Brown. La Bessière oferece uma quantia avultada, enquanto Tom tem de pedir dinheiro emprestado, conseguindo ainda as chaves da habitação desta. Encontram-se após o espectáculo, alguns momentos depois da esposa (Eve Southern) de Caesar (Ullrich Haupt), o superior de Tom, ter procurado por este último, com ambos a exibirem o facto de terem mantido um caso no passado, embora o protagonista esteja mesmo é interessado em dirigir-se para junto de Amy Jolly.

Tom e Amy dialogam bastante na habitação desta. Falam sobre Marrocos, local onde parecem aprisionados, sem rumo e destino, ao qual chegaram sem aparente grande vontade, ao mesmo tempo que exibem algum cinismo em relação ao amor. Ela pede para Tom abandonar o local, mas logo parte em busca deste, interrompendo o encontro que o personagem interpretado por Gary Cooper se encontrava a ter com a mulher de Caesar. Acaba detido, sendo que o romance com a mulher do superior é descoberto, algo que lhe vale ser designado para uma perigosa missão no Sahara. Amy tenta dissuadi-lo, mas este acaba por partir, deixando-a com La Bessière. Este promete-lhe a estabilidade que Tom não lhe dá, embora Amy raramente pareça esquecer o amado, ao longo deste drama que tem como cenário primordial um local de Marrocos marcado por diversas dicotomias. Aprisiona e liberta Tom e Amy, surge quente e exótico mas também inseguro e marcado pelo conflito, enquanto Marlene Dietrich tem mais uma interpretação de relevo e Gary Cooper procura não se ficar atrás da colega de elenco ao longo desta memorável obra realizada por Josef von Sternberg. O cineasta volta mais uma vez a aproveitar paradigmaticamente o talento de Marlene Dietrich, algo que terá gerado alguns problemas com Gary Cooper devido à secundarização a que foi sujeito em relação à musa de Josef von Sternberg, embora conste que a dupla de actores até tenha mantido um romance fora do grande ecrã. Essa admiração para com a actriz é visível na forma como Sternberg filma Dietriech, reverenciando esta, algo desde logo visível a nível da iluminação, transformando-a em algo de quase divino. Diga-se que Gary Cooper também sobressai, atribuindo alguma simpatia a um personagem cujos actos nem sempre são compreensíveis, um legionário que se alistou no exército para esquecer erros e amores passados. É algo cínico em relação ao amor, embora se deixe conquistar por Amy, apesar de ter claros problemas em expor esse sentimento junto desta, tal como a mesma também demora a revelar os seus sentimentos.

Episódios passados certamente deixaram marcas nestes elementos e impedem-nos de se ligarem com mais facilidade, bem como as incertezas das suas vidas em Marrocos, um local aparentemente incapaz de dar estabilidade aos seus habitantes. Logo de início Amy é instigada pelo seu chefe a procurar um companheiro com posses e não soldados sem dinheiro, algo que esta não parece levar muito a sério. Veja-se quando no seu emprego decide ir vender maçãs na parte mais baixa do clube nocturno, onde se encontram os indivíduos menos abonados a nível financeiro (maioritariamente soldados franceses), incluindo Tom. O local de trabalho desta expõe desde logo as dicotomias sociais no interior deste território, com Josef von Sternberg a explorar bastante bem este cenário, mas também alguns espaços exteriores (veja-se a protagonista a caminhar descalça pela areia num dos momentos finais do filme), embora o cineasta esteja pouco preocupado em expor adequadamente o território e o contexto histórico. Interessa mais a Josef von Sternberg a sua protagonista e a obsessiva relação entre esta e Tom (a obsessão amorosa é uma temática que atravessa várias das obras do cineasta), naquele que é o primeiro filme de Marlene Dietrich nos EUA. Dietrich surge graciosa como Amy, embora esta personagem esteja longe de ser ingénua em relação à vida e ao amor, apesar de gradualmente cair nas amarras deste último, com a actriz a ser capaz de expor e explorar todas as dicotomias desta mulher. Amy ironiza com as mulheres que seguem os soldados para onde estes vão, mulheres que amam e sacrificam o seu quotidiano para estarem junto das caras-metades, mas também se prepara para viver momentos semelhantes ao longo desta adaptação da peça "Amy Jolly" de Benno Vigny. Poderia ter o conforto dado por La Bessière, interpretado com a classe necessária por Adolphe Menjou, mas deixa-se levar pelos seus impulsos, quebrando o aparente cinismo inicial e revelando toda a sua humanidade. Temos ainda alguns elementos ligados a diversas obras de Josef von Sternberg, entre os quais a obsessão em relação à pessoa amada, o desejo de cariz sexual, a paradigmática utilização da luz e das sombras, um conjunto de personagens aparentemente cínicos, enquanto o cineasta volta a utilizar paradigmaticamente os cenários que tem à disposição. Marrocos, palco primordial de "Casablanca", é também palco de um romance improvável e aparentemente à prova de toda a lógica entre dois elementos algo à margem da sociedade, com comportamentos nem sempre recomendáveis, mas prontos a exporem os seus sentimentos aprisionados numa capa de aparente cinismo ao longo desta magnífica obra realizada por Josef von Sternberg.

Título original: "Morocco".
Título em Portugal: "Marrocos".
Realizador: Josef von Sternberg. 
Argumento: Jules Furthman.
Elenco: Gary Cooper, Marlene Dietrich, Adolphe Menjou.

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