04 julho 2014

Resenha Crítica: "Maradona by Kusturica" (2008)

 Irreverente, genial, saudavelmente louco, capaz das proezas mais mirabolantes com uma bola de futebol e alcançar feitos que parecem saídos das lendas dos Deuses gregos e romanos, Diego Armanda Maradona tem em "Maradona by Kusturica" um documentário pouco convencional, interessante e peculiar, embora raramente consiga fazer justiça ao enorme talento que esta lenda apresentou em campo. Perde-se em demasia nos comentários políticos anti-EUA, anti-Inglaterra e anti-capitalismo, mostrando as facetas de esquerda de Maradona e Emir Kusturica, algo que permite explorar a amizade do antigo jogador com Fidel Castro e o seu ódio a George W. Bush, mas sobressai quando nos apresenta ao que "Pelusa" representa para os adeptos e em alguns depoimentos do protagonista deste documentário. Veja-se quando Maradona fala abertamente do que perdeu devido ao consumo de cocaína, passando pelo seu passado em Villa Fiorito (onde regressa após vários anos), até aos seus feitos em campo, incluindo a "Mão de Deus" como ficou apelidado o seu golo com a mão no jogo entre a Inglaterra e Argentina no Mundial de Futebol de 1986, um tento repetido mais do que uma vez ao longo de um filme onde Emir Kusturica não tem problemas em divagar por áreas inesperadas, descurando muitas das vezes o passado do antigo atleta. Nesse sentido, "Maradona by Kusturica" pode desiludir quem espera ver um documentário exclusivamente centrado no passado futebolístico de Diego Maradona, com Kusturica a estar bastante preocupado em mostrar-nos o alvo de estudo do seu documentário nos anos em que a obra foi filmada, nomeadamente, 2005 e 2007, apresentando-nos à lenda, ao pai de família e ao cidadão politicamente engajado, embora também não descure algumas imagens de arquivo com os seus golos e jogadas.

Maradona nunca primou por um discurso politicamente correcto, daí não ser novidade ver a franqueza do mesmo quando é colocado em discurso directo, disparando falas pouco amigáveis contra Bush, mas também contra Sepp Blatter, João Havelange, Príncipe Carlos, entre outros, para além de apresentar algum arrependimento em relação ao consumo de drogas e aos excessos que marcaram parte da sua vida. Este arrependimento é exposto de forma paradigmática quando Diego Armando Maradona fala sobre o que perdeu do crescimento das filhas, mas também da carreira que poderia ter alcançado. O documentário aborda ainda a relevância de Maradona como ícone, visível na Igreja Maradoniana cujos crentes veneram o antigo jogador, mas também na comoção que provocou no povo argentino quando a sua vida esteve em risco, enquanto Emir Kusturica mescla estas imagens do presente com as do passado e até com filmes que realizou (incluindo o célebre "Crna macka, beli macor"), sempre sem descurar a presença da música. Temos ainda o plano político, não faltando a menção à Guerra das Malvinas, bem como ao Imperialismo americano, com "Maradona by Kusturica" a não ter problemas em expor a visão política de Maradona e Kusturica, enquanto nos brinda com alguns momentos marcantes de "El Pibe". Veja-se Diego Armando Maradona a cantar “Maradó”, um dos momentos mais emotivos, comoventes e entusiasmantes do filme, onde o pouco talento do antigo jogador para a cantoria fica latente, mas também a sua genuína paixão pelo jogo, pela luta contra os poderosos, expondo o porquê de ser uma figura tão apaixonante do mundo do futebol. Jogador inigualável, de vastos recursos e personalidade irreverente, Diego Armando Maradona tem em "Maradona by Kusturica" um documentário pouco convencional, sem medo de arriscar, ou seja, muito ao seu jeito. No final fica a ideia que muito mais poderia ser abordado, ou não estivéssemos perante aquele que é o melhor jogador de futebol de sempre, uma talento nato, cujo maior adversário que encontrou foi ele próprio e o seu vício pela cocaína.

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