12 julho 2014

Resenha Crítica: "Ida" (2013)

 As memórias da II Guerra Mundial ainda estão muito presentes nos personagens de "Ida", um drama humano marcado por uma enorme sobriedade e uma cinematografia exemplar. "Ida" coloca-nos perante Anna (Agata Trzebuchowska), uma jovem de dezoito anos de idade que se prepara para celebrar os votos definitivos para se tornar freira no convento onde se encontra a viver desde muito jovem. Os momentos iniciais expõem-nos ao quotidiano neste local e à calma do mesmo, enquanto as freiras cumprem os seus actos aparentemente rotineiros, tais como rezar e comer. Antes de celebrar os votos, Anna é obrigada pela madre superior do convento a visitar a única familiar viva da protagonista, a tia Wanda Gruz (Agata Kulesza), uma juíza. A relação entre Wanda e Anna fica desde logo marcada pela revelação da primeira de que a sobrinha chama-se Ida Lebenstein, sendo filha de pais judeus. Os pais de Ida foram mortos durante a II Guerra Mundial, algo que conduz esta jovem a procurar saber onde os pais se encontram enterrados, contando com a inesperada companhia de Wanda. Estas apresentam diferenças latentes a nível de comportamento. Wanda é fumadora, alcoólica, outrora fora conhecida como "Wanda Vermelha" devido a ter sido uma procuradora do Estado, tendo presidido a grandes julgamentos públicos e chegado a condenar à morte alguns inimigos do Estado. O enredo de "Ida" desenrola-se durante o início da década de 60, pelo que Wanda estará certamente a referir-se ao Governo Comunista deste período, existindo aqui um subtil paralelo entre os elementos mortos devido a serem "inimigos da Nação" e os judeus perseguidos durante a II Guerra Mundial. Se Wanda é uma mulher aparentemente fria e pragmática, já Ida é uma jovem algo introvertida e frágil, pouco conhecedora do mundo exterior ao convento. Esta é a jornada de uma jovem que procura descobrir sobre o seu passado e dos seus pais, ao mesmo tempo que se descobre a si própria e forma uma ligação com a tia, uma familiar que até então desconhecera. É uma jornada delicada e profundamente humana, onde os sentimentos são expostos gradualmente e raramente de forma efusiva, onde os silêncios falam quase tanto como as palavras. Veja-se quando Wanda conta a Ida sobre o facto desta última ser judia, enquanto a jovem a observa, aparentemente impassível, embora seja possível sentir que esta não ficou indiferente à notícia, com o seu olhar a dizer mais do que muitas palavras. Seria possível ficar indiferente? Praticamente impossível, Ida que o diga, com esta revelação a ter um papel fulcral na sua existência, colocando em causa verdades que esta tinha como absolutas, embora nunca perca a fé.

A viagem entre estas duas mulheres pela Polónia surge marcada por algumas peripécias, tais como Wanda ser detida devido a conduzir com excesso de álcool, até estas falarem com os elementos que habitam na casa que outrora pertencera aos pais de Ida, descobrindo aquilo que lhes acontecera. Inicialmente procuram por Szymon Skiba, deparando-se primeiro com o filho deste e a família, um conjunto de elementos que contribuiu para o destino pouco recomendável dos pais da protagonista. Durante a viagem, estas conhecem Lis (Dawid Ogrodnik), um jovem cantor de saxofone, um indivíduo que gradualmente desperta a atenção de Ida e faz com que esta lide pela primeira vez com o desejo sexual. Os dois ficam instalados no mesmo hotel, um local onde Ida e Wanda exibem mais umas vez as suas diferenças e proximidades. Wanda é uma mulher marcada pelo passado. Deu tudo pelos ideais políticos, descurou a família e hoje parece ter um vazio enorme que apenas é compensado pelo álcool e tabaco, sendo que a chegada de Ida veio permitir um confrontar com o passado e exorcizar alguns fantasmas antigos que a atormentam no presente. Este é também um filme sobre uma Polónia a lidar com as consequências do Holocausto e do Comunismo, a enfrentar os efeitos das agruras de que o território padeceu e os pecados cometidos por alguns dos seus habitantes, ao mesmo tempo que somos deixado perante um drama humano sublime, onde a estreante Agata Trzebuchowska sobressai com um desempenho algo minimalista, pleno de silêncios e uma forma delicada de expor os sentimentos da sua personagem. Curiosamente, Trzebuchowska nem tem pretensões de seguir carreira como actriz, tendo sido seleccionada de forma bastante peculiar, algo revelado pelo cineasta: "A director friend of mine, Malgosia Szumowska, who knew I was desperate and running out of time, saw Agata in a Warsaw cafe. She rang me on the spot, I was in Paris at the time, so I asked her to secretly take a picture of Agata on her iPhone and send it over. On the face of it, the girl was totally wrong, a striking hipster with a baroque hairdo, vintage clothes and ultracool demeanour. Hardly material for a nun. But she did look interesting and I really was desperate. It also turned out Agata was a militant feminist, wasn’t sure about the existence of God and definitely had no time for the Church in Poland. In the audition I took away the make up, the hair, the hipster accoutrements and had a closer look: she was spot on". A escolha foi bastante feliz, com a actriz a destacar-se como esta jovem que fica perante um dilema inesperado, tendo de escolher entre ficar no convento para toda a sua vida ou assumir a sua identidade judia e formar uma vida fora do âmbito do espaço religioso.

Não é uma decisão fácil e diga-se que durante boa parte do filme Ida nem parece colocar em causa a vida fora do convento, mas gradualmente vai vivendo um conjunto de experiências que despertam em si algumas dúvidas. Esta é inexperiente e aparenta uma enorme candura, apresentando uma fé latente que contrasta com o pragmatismo da sua tia. No press kit de "Ida", Paweł Pawlikowski salientou que este é um filme sobre "identidade, família, fé, culpa, socialismo e música". As palavras de Pawlikowski resumem paradigmaticamente alguns dos elementos que surgem presentes ao longo do enredo de "Ida", uma obra poética, de aparente simplicidade a nível narrativo, mas de grande beleza nas suas imagens em movimento. Os planos são maioritariamente fixos, elaborados com um notório cuidado, a preto e branco e cheios de significado. Diga-se que tudo parece ter sido pensado com enorme minúcia, incluindo a construção dos personagens, com todos a terem motivos para os seus actos, independentemente de podermos concordar ou não com estes. Veja-se o caso de Ida que fica num dilema moral, mas também de Szymon Skiba e os seus familiares, bem como de Wanda. Esta foi livremente inspirada em Helena Brus-Wolinska, a esposa de um professor amigo do realizador, uma mulher faladora e fumadora, de enorme simpatia, a viver em Oxford com o esposo, que recebeu um pedido de extradição por parte do Governo Polaco devido a crimes contra a Humanidade. Esta foi uma procuradora Estalinista que contribuiu para a morte de vários elementos considerados como inimigos da Nação. O contraste entre a personalidade afável desta mulher e os seus actos sangrentos do passado surgem representados no carácter de Wanda, embora a personagem interpretada com engenho por Agata Kulesza esteja longe de não contar com alguma tormenta, algo visível no último terço. Paweł Pawlikowski não tem problemas em incutir alguma polémica na obra, uma situação notória no facto de Wanda ser uma judia ao serviço do Governo Estalinista e dos pais de Ida terem sido eliminados por polacos e não por alemães, embora o filme nunca entre por caminhos grotescos, abordando as temáticas com alguma contenção e sobriedade. "Ida" coloca-nos assim perante duas mulheres distintas, que em certa parte até representam as dicotomias da Polónia do seu tempo, um território entre o pragmatismo e a fé, mas também em mudança. Essa mudança é visível na música jazz presente no filme, não faltando Lis a tocar com a banda uma canção de John Coltrane, enquanto somos deixados perante uma atmosfera de uma época, por vezes com alguma melancolia e crueza. É um drama de época cuja história ecoa ainda no presente, numa obra que lida bastante com questões de identidade, incluindo da própria Polónia. O enredo desenrola-se a um ritmo pertinentemente brando, pronto a deixar estas personagens crescerem, enquanto a relação entre estas duas mulheres é exposta com enorme humanidade, sobriedade e até alguma poesia, ao longo de um drama magnífico, que não tem problemas em nos transportar para uma Polónia em mudança e apresentar-nos a uma estreante Agata Trzebuchowska que se quisesse poderia dar muito ao cinema. 

Título original: "Ida".
Realizador: Paweł Pawlikowski.
Argumetno: Rebecca Lenkiewicz e Paweł Pawlikowski.
Elenco: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik, Adam Szyszkowski, Jerzy Trela.

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