21 julho 2014

Resenha Crítica: "A Flor do Equinócio" (Higanbana)

 Primeiro filme a cores de Yasujiro Ozu, "A Flor do Equinócio" coloca-nos perante um cineasta capaz de dominar e aproveitar a paleta cromática ao serviço da narrativa, enquanto nos deixa perante uma história típica da sua filmografia envolvendo questões relacionadas com os relacionamentos entre pais e filhos. Neste caso estamos perante uma obra cujo enredo se desenrola no pós-Guerra, com o conflito a ainda estar na memória de Wataru Hirayama (Shin Saburi) e a sua esposa, embora a guerra que estes travem nos dias de hoje passe por conciliar os novos valores com a tradição, algo que os leva por vezes a entrar em contradição. Veja-se Hirayama, um homem de negócios de Tóquio que é contactado por Mikami (Chishu Ryu), um amigo de infância, para tentar resolver uma querela entre este último e a filha, após esta se ter decidido casar sem o consentimento do progenitor e ido trabalhar para um bar. Logo no início do filme, Wataru Hirayama salienta num discurso efectuado num casamento que os jovens hoje são felizes por poderem escolher com quem vão casar, um conselho que dá a Yukiko (Fujiko Yamamoto), uma amiga de Setsuko (Ineko Arima), a sua filha mais velha. A mãe de Yukiko quer a todo o custo casar a filha, embora esta tarde em se decidir, algo que é inicialmente apoiado pelo personagem interpretado por Shin Saburu que salienta "O que brilha como ouro pode tornar-se em latão depois do casamento". Hirayama acaba por se contradizer quando Masahiko Taniguchi (Keiji Sada) surge no seu escritório e revela que pretende casar com Setsuko, com esta última a pretender contrair matrimónio com o personagem interpretado por Keiji Sada. Esta situação promete estragar os planos de Hirayama, que já tinha planeado um casamento para a sua filha, revelando-se contra o matrimónio de Setsuko e Taniguchi, expondo um típico conflito entre pais e filhos que é explorado com a assertividade e delicadeza típicas de Yasujiro Ozu. O cineasta volta a colocar-nos perante as complexas relações familiares, deixando-nos numa das famílias típicas de alguns dos seus filmes, ou seja, de classe média/alta, cujos elementos deambulam entre um cumprir da tradição e o desafiar da mesma e das regras da sociedade. Setsuko é o paradigma das personagens das obras de Yasujiro Ozu que ficam entre a modernidade e a tradição. Esta procura casar-se e constituir família, seguindo os valores tradicionais, no entanto, também desafia os mesmos ao querer escolher o noivo, procurando contrariar as ideias do seu pai.

Ineko Arima convence-nos como esta jovem de cabelo curto que procura ter vontade própria na escolha do noivo, mas também respeitar a família, embora o maior destaque do elenco seja Shin Saburi, um colaborador habitual de Yasujiro Ozu, que dá vida a um homem de negócios bem sucedido que procura dar conselhos a vários elementos próximos a si, apesar de ter dificuldade em seguir os mesmos quando o caso em questão diz respeito à sua filha. Saburi transmite uma aura de credibilidade e calma, sendo sublime nos momentos de maior tensão (e a espaços de algum machismo), mas também nos de melhor humor (veja-se quando os homens estão sentados à mesa a discutir sobre o porquê de um deles ter filhos e os outros terem filhas). Diga-se que "Equinox Flower" não descura os momentos de humor, algo visível logo nos momentos iniciais do filme, na estação de comboio, onde dois funcionários falam sobre as mulheres que passam pelo local, mas também na cena em que Hirayama visita o bar Luna, onde trabalha a filha de Mikami, acompanhado por um funcionário, e todos conhecem este último enquanto este procura esconder do chefe que é um cliente habitual do local. O bar Luna surge numa rua onde podemos ver outros estabelecimentos do género, tais como o Arrow, com o nome em inglês a já dar conta da presença americana no território, mas também o próprio whisky "Black & White", com Yasujiro Ozu a não esconder uma sociedade japonesa em transformação, embora algumas questões continuem permanentes, tais como o choque de gerações. Nesse sentido, Yasujiro Ozu volta a saber explorar os relacionamentos familiares, permeando a obra com um estilo muito próprio de filmar, muito marcado por planos fixos (e os célebres planos tatami), algumas elipses (veja-se sabermos que Mikami reuniu-se com a filha mas não vemos o encontro, para além do casamento de Setsuko ser mencionado mas não exibido), bem como os pillow shots a dividirem as sequências onde não descura mais uma vez a roupa estendida num estendal. A novidade em relação aos filmes anteriores de Ozu centra-se na cor, com o cineasta a utilizar a paleta cromática muitas das vezes para combinar o vestuário dos personagens e os cenários, sobressaindo as tonalidades vermelhas (incluindo da chaleira, um objecto muito presente nos filmes do cineasta), ou não fosse a "Flor do Equinócio" do título uma referência à Lycoris vermelha. A tonalidade vermelha domina o filme, bem como os tons acastanhados, embora o maior destaque seja mesmo a realização de Yasujiro Ozu.

 O cineasta denota uma ampla preocupação em criar planos marcados por uma enorme simetria, existindo todo um cuidado na elaboração dos mesmos, bem como na forma como os actores e actrizes surgem enquadrados. No entanto, tudo parece elaborado de forma natural, incluindo quando assistimos às célebres sincronias de movimentos entre vários elementos do elenco (veja-se os personagens na festa de casamento do início do filme), enquanto o cineasta se revela capaz de explorar como poucos o espaço que envolve a narrativa. Yasujiro Ozu volta ainda a rodear-se de vários dos seus colaboradores habituais, tais como Shin Saburi, Kinuyo Tanaka, Chishu Ryu e Keiji Sada, conseguindo mais uma vez contribuir para que estes sobressaiam com as suas interpretações marcadas pela sobriedade muito própria do cineasta (por vezes a assemelhar-se ao trabalho de Robert Bresson com os seus "modelos"). Voltamos a encontrar os personagens a olharem de frente para a câmara de filmar, como se estivessem a falar directamente para o espectador, com o cineasta a não ter problemas em quebrar regras, enquanto nos deixa perante uma obra marcada por temáticas típicas da sua filmografia. O casamento é uma dessas temáticas, algo visível na forma como este afecta quase todas as famílias de "Equinox Flower". Veja-se o caso da mãe de Yukiko, uma mulher que procura a todo o custo encontrar um noivo para a filha. Yukiko é oriunda de Quioto, vestindo-se com o quimono e de forma mais tradicional, algo que contrasta com as vestes ocidentais de Setsuko. A relação entre estas duas é marcada por uma enorme cumplicidade, com Ineko Arima e Fujiko Yamamoto a convencerem como estas amigas que procuram defender-se mutuamente. Ambas não descuram o casamento, mas querem esperar e saber escolher o noivo, enquanto os pais revelam alguma pressa em ver o futuro das suas filhas resolvido. Os pais procuram ainda ter algum poder de decisão nas escolhas das filhas, algo que causa a ruptura de Mikami com a filha, bem como de Hirayama com o seu rebento, duas situações paradigmáticas do "clássico" choque entre gerações. Existe algum conservadorismo, é certo, mas também uma enorme vontade que estas não fiquem sozinhas quando estes partirem, existindo uma visão da figura feminina ainda longe da total independência, com Ozu a voltar a explorar temas ligados com as dissoluções das famílias. Yasujiro Ozu consegue como poucos cineastas abordar a complexidade das relações entre pais e filhos, algo que volta a demonstrar em "A Flor do Equinócio", a sua primeira obra a cores, delicada e harmoniosa como boa parte dos seus filmes e pronta a deixar marca. 

Título original: "Higanbana".
Título em Portugal: "A Flor do Equinócio".
Título em inglês: "Equinox Flower".
Realizador: Yasujiro Ozu. 
Argumento: Kogo Noda e Yasujiro Ozu
Elenco: Shin Saburi, Kinuyo Tanaka, Ineko Arima, Yoshiko Kuga, Chishu Ryu.

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