02 julho 2014

Resenha Crítica: "Dishonored" (1931)

  É particularmente agradável encontrar um filme de espionagem onde o centro da narrativa está mais concentrado nos personagens e nos intrincados jogos entre os espiões do que na acção desenfreada e no "fogo de artifício". Junte-se ainda o facto de contarmos com Marlene Dietrich como uma espia sedutora, embora nem sempre fria, naquela que é a terceira colaboração da actriz com Josef von Sternberg, com o cineasta a mais uma vez a atribuir uma aura quase inatingível e sagrada à sua musa e "Dishonored" logo se torna numa proposta quase impossível de recusar. Stenberg não retrata a sua protagonista como um anjo, diga-se que nunca o fez, com Dietrich a surgir mais uma vez como uma mulher sedutora, de moral nem sempre recomendável, fumadora, de aparência frágil mas personalidade forte. Josef von Sternberg utiliza a câmara de filmar para aumentar o encanto em volta de Dietrich, enquanto esta interpreta uma espia que muito nos faz recordar a Mata Hari interpretada por Greta Garbo, com ambos os filmes a terem sido lançados em 1931. Ambas contam com um destino trágico e até se deixam encantar pelo inimigo durante uma missão, quando até então tinham demonstrado alguma competência, algo visível ao longo do enredo de "Dishonored". A narrativa desenrola-se em 1915, em Viena, durante a I Guerra Mundial, seguindo uma viúva (Marlene Dietrich) de um militar austríaco que é contactada pelo chefe dos Serviços Secretos do Império Austríaco (Gustav von Seyffertitz) tendo em vista a que esta trabalhe como espia. Esta não parece muito agradada com a ideia, mas assume as funções tendo em vista a desmascarar o Coronel Von Hindau (Warner Olland), o Adjunto do Comando do Estado Maior do exército, um indivíduo acusado de estar a trair a sua pátria e a conceder informações ao inimigo. Esta contacta Von Hindau num baile, naqueles que são alguns dos momentos mais memoráveis do filme (com Sternberg a voltar a revelar-se exímio na exploração dos cenários ao serviço da narrativa), conseguindo facilmente a informação, até partir em busca do Coronel Kranau (Victor McLaglen), um espião russo que se encontra disfarçado junto dos elementos austríacos. Com o nome de código X27, a protagonista procura a todo o custo conseguir informação deste elemento e capturá-lo, surgindo acompanhada pelo seu gato preto, embora Kranau seja um opositor bem mais complicado de deter do que fora Von Hindau. Kranau até se deixa aparentemente seduzir por X27, acabando por descobrir as intenções desta e fugir, algo que a vai conduzir a uma certa obsessão para o deter. A obsessão é uma temática que marca parte das obras de Josef von Sternberg, veja-se o protagonista de "Der Blue Engel" e a protagonista de "Morocco", algo que se repete em "Dishonored", com o cineasta a colocar-nos perante uma dupla de protagonistas cujas acções muitas das vezes vão ser marcadas pela imprevisibilidade e pouco pragmatismo.

Marlene Dietrich exibe paradigmaticamente a capacidade de sedução da X27 e contribui para esta característica da personagem, conseguindo ainda expor com grande competência as fragilidades e inquietações desta espia. Não parece ter medo de morrer, procurando cumprir as missões para as quais foi designada, embora forme um estranho jogo "entre o gato e o rato" com Kranau que ganha contornos nem sempre esperados. Esta toca piano, surge acompanhada pelo seu gato preto, veste-se a preceito consoante o momento, enquanto a câmara de filmar exibe mais uma vez a veneração de Sternberg por Dietrich. O rosto desta é exposto com delicadeza de forma a deixar a actriz brilhar, com as expressões desta a dizerem muito. Victor McLaglen nem por isso deixa de não cumprir como Kranau, um homem que se digladia internamente entre ceder à sedução de X27 ou eliminá-la, embora falte a "Dishonored" um personagem masculino que evolua no enredo como esta agente que começa no início da narrativa como uma prostituta e acaba por se envolver no mundo da espionagem, onde também tem de utilizar a sua sexualidade. Este não é um mundo onde as mulheres costumam sobressair, com X27 a ser por vezes recordada dessa situação pelo seu superior, embora nem por isso deixe de tentar provar o contrário, com o filme a procurar explorar esta intrigante figura que se envolve no meio dos homens. "Dishonored" aborda ainda que levemente esta questão ligada ao papel da mulher no mundo da espionagem, enquanto Sternberg coloca a sua actriz fetiche no centro de tudo. Veja-se quando a personagem interpretada por Marlene Dietrich contacta pela primeira vez com Kranau enquanto este se encontra a jogar e esta se coloca no meio do inimigo e de outro jogador, com tudo a centrar-se nesta, mas também quando toca habilmente piano e a música volta a ocupar um lugar de destaque nas obras de Josef von Sternberg. A história nem sempre faz sentido, sobretudo se pensarmos como a transição da protagonista de prostituta para espia é efectuada, não existindo treino nem grandes razões para esta ter sido seleccionada logo de início, embora o filme procure regularmente deixar algumas questões subentendidas e prontas a deixar o espectador a utilizar a sua imaginação. Existe ainda uma sexualidade latente ao longo do filme, não só devido a termos uma espia sedutora, mas também pela complexa relação entre X27 e Kranau, dois inimigos que se atraem e se afastam. Vale ainda a pena realçar o habitual acerto de Josef von Sternberg no aproveitamento dos cenários ao serviço da narrativa (a cena do baile é paradigmática dessa situação), mas também a assertiva utilização da luz e das sombras, com o cineasta a voltar a exacerbar o talento de Marlene Dietrich, enquanto esta interpreta uma personagem que a espaços nos faz recordar a protagonista de "The Scarlet Empress", uma mulher que se viu obrigada a mudar os seus comportamentos devido às circunstâncias em que foi envolvida. Embora não atinja níveis memoráveis como "Der Blue Engel" e "Morocco", a terceira colaboração entre Marlene Dietrich e Josef von Sternberg resulta num filme de espionagem intrigante, com uma cinematografia capaz de sobressair pela positiva e uma espia marcante, que não é uma Mata Hari mas também apresenta um poder de sedução latente, deixando-se levar pelas paixões e emoções.

Título original: "Dishonored". 
Título em Portugal: "Fatalidade".
Realizador: Josef von Sternberg. 
Argumento:  Josef von Sternberg e Daniel N. Rubin.
Elenco:  Marlene Dietrich, Victor McLaglen, Gustav von Seyffertitz, Warner Oland.

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