20 julho 2014

Resenha Crítica: "Dawn of the Planet of the Apes" (Planeta dos Macacos: A Revolta)

 Existe uma notória preocupação na construção de um universo narrativo credível em "Dawn of the Planet of the Apes", com a sequela de "Rise of the Planet of the Apes" a voltar a brindar-nos com um símio que é mais complexo do que muitos protagonistas dos blockbusters, nomeadamente, Caesar. "Dawn of the Planet of the Apes" coloca-nos perante um planeta Terra pós-apocalíptico, ainda a lidar com as consequências do vírus ALZ-113, com boa parte da Humanidade a ter sido dizimada devido à chamada "gripe símia" e os macacos a viverem numa comunidade fechada. A narrativa começa em 2016 mas logo avança dez anos, com Caesar (Andy Serkis) a liderar o grupo de macacos com leis bastante próprias, procurando construir uma vivência pacífica no terreno florestal de Muir Woods, pelo menos até contarem com a presença de uma equipa de humanos em busca de uma barragem que permitiria o acesso à energia eléctrica para o território onde habitam. No grupo encontram-se elementos como Malcolm (Jason Clarke), Ellie (Keri Russell), Alexander (Kodi Smith-McPhee), Carver (Kirk Acevedo), entre outros, que partem de San Francisco, encontrando-se em parte a cumprirem ordens de Dreyfus (Gary Oldman), o líder dos sobreviventes. Malcolm é o pai do jovem Alexander, tendo uma relação com Ellie, uma mulher que perdeu o filho devido ao vírus. Os macacos pensam que a humanidade desapareceu, mas logo descobrem da pior maneira que estão errados quando Carver dispara sobre Ash, o filho de Rocket, um dos macacos, devido a temer os símios, com este momento a simbolizar o final da aparente paz em que estes últimos viviam. Logo Caesar e companhia defendem estes elementos, escorraçando os humanos do local, com o acto de Carver a colocar os macacos em alvoroço. Caesar procura viver de forma pacífica e controlar os seus ímpetos, cuidando da sua esposa, Cornelia (Judy Greer), e dos seus filhos, bem como dos elementos à sua guarda, tendo em Koba (Toby Kebell) um elemento que prefere uma atitude mais musculada contra os humanos. Esta situação vai fazer com que se dirijam a San Francisco para uma demonstração de força contra os humanos de forma a que estes não invadam o seu habitat. No entanto, isso não vai impedir os humanos de procurarem influir na acção dos macacos, com Malcolm, Ellie, Alexander e Carver a deslocarem-se ao reduto dos símios para procurarem colocar a funcionar a barragem, caso contrário Dreyfus irá desencadear um conflito contra os elementos de Caesar. Malcolm gradualmente começa a ganhar confiança de Caesar, enquanto Koba em nada fica agradado com o envolvimento do líder com os humanos e as suas atitudes pacifistas. Uma traição de Koba conduz a um conflito entre macacos e humanos mas também entre os próprios símios, enquanto Matt Reeves procura criar a tensão necessária para o momento da chegada do conflito bélico que prometer ter consequências perenes para ambas as espécies. 

 Matt Reeves assume com eficácia a cadeira de realizador após a saída de Ruppert Wyatt, o realizador da prequela/reboot "Rise of the Planet of the Apes", procurando explorar a relação dos macacos entre si e entre os símios e os humanos, resultando num blockbuster que está longe de surpreender embora procure incutir uma inteligência nem sempre visível neste tipo de filmes. Temos desde logo as questões políticas relacionadas com a liderança de Caesar e a sua atitude algo pacifista, num filme com uma mensagem clara anti-guerra e anti-armamento, enquanto Koba opta por um comportamento dicotómico, mais belicista, por vezes a parecer representar um líder fascista, pronto a afastar todos os que são contra si. Caesar e Koba são duas figuras bem distintas. Andy Serkis é fundamental para Caesar surgir como um personagem credível e complexo, com a tecnologia de captura de movimentos a estar cada vez mais aperfeiçoada e a permitir ao actor humanizar ainda mais o protagonista. Diga-se que os macacos surgem magnificamente elaborados, apresentando um realismo impressionante, quer a nível de textura, quer de movimentos, exibindo claramente as melhorias da tecnologia de captura de movimentos. Essa situação é visível na figura de Caesar, um elemento que mudou bastante em relação ao primeiro filme, cujos dez anos que se passaram certamente terão permitido uma maior maturação da personalidade, procurando a paz e respeitar os macacos como iguais, tentando controlar os ímpetos interiores. Já Koba apresenta uma atitude vingativa, procurando a todo o custo fazer prevalecer os seus valores e liderar um ataque aos humanos, com estes últimos a também não estarem completamente inocentes. Veja-se desde logo o personagem interpretado por Gary Oldman, um líder relativamente unidimensional que procura a todo o custo aceder aos recursos eléctricos, não tendo problemas em poder gerar uma guerra com os macacos. Se Caesar concentra muitas qualidades na sua figura (embora estas não o impeçam de errar), também Malcolm surge representado como alguém recheado de virtudes, formando gradualmente uma relação de respeito e até de amizade com o protagonista. Já Keri Russell interpreta uma enfermeira que, apesar de não ser totalmente irrelevante na narrativa, também não sobressai a um nível que a actriz já mostrou ser capaz (veja-se o seu magnífico papel na série "The Americans"), com "Dawn of the Planet of the Apes" a contar com uma representação algo pueril dos humanos. Temos ainda Kirk Acevedo como um elemento completamente unidimensional que não aprecia a presença dos macacos, um sentimento que é retribuído, ao longo de uma obra que se destaca pela criação gradual de um sentimento de tensão. Matt Reeves procura não seguir por caminhos fáceis, deixando-nos perante algo mais do que a mera luta de "heróis contra vilões", com a linha que separa ambos a apresentar-se bastante esbatida. Temos macacos a divergirem de macacos, humanos a divergirem de humanos, alianças e traições, personagens a procurarem controlar ou exacerbar os seus ímpetos, sendo que as consequências das intensas cenas de acção são sentidas e abrem um gancho para um terceiro filme (e aqui "Dawn of the Planet of the Apes" mostra-se tão mercenário como os outros filmes do género). 

 Uma das questões que atravessa o filme é se será possível a co-existência pacífica entre estes macacos com alguma inteligência e os humanos. A certa altura do filme Matt Reeves deixa antever essa possibilidade, embora ambas as partes apresentem diferenças e comportamentos que tornam essa situação praticamente impossível. O próprio Caesar também comete erros, entre os quais confiar em Koba apenas por este ser um macaco, com o filme a ser suficientemente inteligente para explorar questões relacionadas com a política e os relacionamentos humanos a partir destes personagens, expondo que as divergências e confluências existem independentemente da raça e nação. Koba e Caesar são dois macacos mas apresentam divergências latentes, com o primeiro a não ter problemas em expor o seu lado mais selvagem, enquanto o segundo procura conter os seus ímpetos violentos. Mesmo dentro dos humanos temos diferenças, algo visível entre Malcolm e Dreyfus, com o primeiro a procurar relacionar-se e compreender os macacos, enquanto o segundo apenas pretende o bem dos humanos, esquecendo-se dos restantes seres que habitam a Terra. Matt Reeves apresenta-nos assim um tabuleiro complexo, nem sempre explorado de forma satisfatória, sobretudo nas cenas de acção, embora "Dawn of the Planet of the Apes" sobressaia pela inteligência que este procura incutir ao filme. Estamos longe de estar perante um blockbuster oco, bem pelo contrário, com "Dawn of the Planet of the Apes" a sobressair pela procura de atribuir profundidade a vários dos personagens principais, concedendo-lhes argumentos válidos para defenderem os seus pontos de vista e apresentarem os seus comportamentos. Caesar é o líder que teve no personagem interpretado por James Franco no primeiro filme uma figura paternal, algo que justifica um pouco a sua maior empatia com Malcolm; Koba vê no ataque a Ash e no armamento dos humanos uma ameaça, considerando Caesar demasiado "macio" nos comportamentos para com as figuras humanas; Malcom é um pai cuja esposa faleceu, tendo no seu filho e em Ellie as suas melhores companhias, apresentando uma ponderação potenciada pelas suas vivências e pela admiração que gradualmente apresenta em relação a Caesar; Dreyfus procura defender ou seu povo, ou seja, os personagens não cometem as atitudes de ânimo leve ao longo do filme. Existe a noção de que estamos perante duas espécies a procurarem lutar pela sua sobrevivência, que apresentam no seu interior algumas divergências, sendo criadas algumas relações de empatia mas também de animosidade, uma situação que mina as relações entre as espécies. 

 O que encontramos no filme é também aquilo que nos deparamos por vezes nos conflitos bélicos entre Nações, com Matt Reeves a claramente utilizar os macacos para abordar questões relacionadas com a nossa realidade. Nesse sentido, "Dawn of the Planet of the Apes" recupera um hábito do cinema de ficção científica de explorar questões contemporâneas através de uma realidade alternativa, com este futuro próximo a parecer bem próximo da nossa realidade (algo que o primeiro filme desta longeva saga fazia de forma sublime). Claro que não faltam algumas coincidências forçadas e alguma incapacidade em aprofundar a fundo algumas das temáticas, sendo que o último terço é demasiado previsível em relação ao rumo de Caesar, com a reviravolta a ser mais do que esperada, mas isso não tira alguns méritos a um filme que impressiona ainda a nível dos seus efeitos e da forma como aproveita alguns dos seus cenários. Veja-se desde logo a cidade de San Francisco, marcada pela devastação, mas também a floresta onde habitam os vários macacos como se fosse uma nação muito própria, marcada por espaços verdejantes e aparentemente pacífica até à chegada dos humanos. Uma das regras desta "nação" de símios é "macaco não mata macaco", algo que é quebrado e expõe mais uma vez as divergências internas entre estes seres. Diga-se que Matt Reeves é bem mais competente a explorar o lado dos macacos do que o lado dos humanos, apresentando-nos personagens com muito mais dimensão e realce no lado de Caesar e companhia, algo que se nota desde logo na representação pueril das gentes de San Francisco. Jason Clarke é um dos poucos elementos que sobressai, embora também não se pode dizer que estejamos perante uma interpretação acima da média, com este a limitar-se a cumprir, num filme onde o próprio Matt Reeves está longe de incutir algo de nitidamente pessoal. O último terço é marcado pelo clímax, onde sabemos que nada vai ficar como antes e tudo se promete complicar para os personagens, parecendo certo que falharam uma oportunidade única para uma convivência pacífica. Este pacifismo é impossível devido aos erros, divergências e comportamentos entre ambas as partes, com estes macacos a evidenciarem uma enorme humanidade nesse sentido, ou não estivéssemos também na realidade perante a impossibilidade da paz mundial, com esse desiderato a parecer apenas real nos discursos para Miss Universo, com o filme a também muitas das vezes não ser capaz de explorar algumas destas temáticas a fundo. Embora apresente alguns problemas a nível de ritmo, parecendo por vezes estender-se em demasia sem necessidade, seja algo previsível (sobretudo no seu último terço) e conte com personagens humanos que estão longe de primar pela elaboração, "Dawn of the Planet of the Apes" surge como um blockbuster que procura explorar questões relevantes, colocando-nos perante um dos personagens mais complexos e interessantes dos blockbusters veranis dos últimos anos: Caesar.

Título original: "Dawn of the Planet of the Apes".
Título em Portugal: "Planeta dos Macacos: A Revolta".
Realizador: Matt Reeves. 
Argumento: Mark Bomback, Rick Jaffa, Amanda Silver.
Elenco: Andy Serkis, Jason Clarke, Gary Oldman, Keri Russell, Toby Kebbell, Kodi Smit-McPhee.

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