22 julho 2014

Resenha Crítica: "Bom Dia" (Ohayo)

Entre a inocência da juventude e o cinismo do mundo dos adultos, "Bom Dia" coloca-nos perante um conjunto de personagens que reside nos subúrbios de Tóquio, surgindo como uma obra muito marcada pelo estilo autoral de Yasujiro Ozu. Não faltam os célebres "planos tatami", fixos, habilmente arquitectados, as temáticas relacionadas com a família (em particular a relação entre pais e filhos), a magnífica preparação e utilização dos cenários que envolvem a narrativa, entre outros elementos, naquele que é o segundo filme a cores do cineasta. Diga-se que Ozu apresenta um claro domínio da paleta cromática, algo visível na forma paradigmática como muitas das vezes conjuga as cores do guarda-roupa dos personagens com as tonalidades presentes nas habitações, mas também para realçar sentimentos. Yasujiro Ozu apresenta-nos a um conjunto de famílias dos subúrbios, com especial incidência na família Hayashi, composta por Tamiko Hayashi (Kuniko Miyake), o seu marido Keitaro (Chishu Ryu) e os filhos do casal, Minoru (Shitara Koji) e o mais novo Isamu (Masahiko Shimazu), dois jovens provavelmente ainda na primária que querem à força ter uma televisão de forma a poderem ver as lutas de sumo. A televisão começa a estar na moda e estes procuram ver os combates na casa do vizinho, deixando de lado o rádio e a imaginação provocada pelos relatos. Os pais logo rejeitam, em particular Keitaro devido a alguém ter dito que a "televisão produziria 100 milhões de idiotas", algo que leva a uma atitude radical pela parte dos filhos: deixarem de dizer "Bom Dia" e tudo mais a outras pessoas. Estes não compreendem o porquê dos adultos manterem diálogos de circunstância, onde não faltam o "Bom Dia", "Boa Tarde", o falar sobre o tempo, exposto paradigmaticamente no último terço na estação de comboios, ou seja, uma superficialidade e cinismo que ainda não faz parte da rotina destes jovens. Temos ainda uma história centrada na possibilidade da Srª Hayashi poder estar a dever as quotas do clube local, gerando-se uma série de intrigas entre as mulheres. Tomizawa (Teruko Nagaoka) vai a casa de Okubo (Toyo Takahashi) e faz questão de salientar isto mesmo, colocando-se ainda o rumor de que Haraguchi (Haruko Sugimura), a presidente da associação, pode ter ficado com o dinheiro das quotas para comprar uma máquina de lavar roupa, um luxo que nem todos ainda podem ter. Por sua vez, o marido (Eijirô Tôno) de Tomizawa encontra-se desempregado, enquanto Haraguchi percebe que cometeu um erro, embora continue a espalhar "veneno" em relação a Hayashi. Pelo meio, Ozu vai subtilmente colocando temáticas como a dificuldade em arranjar emprego a partir de uma idade mais avançada (o desemprego e a dificuldade em arranjar em emprego são elementos que acompanham várias obras do cineasta, veja-se os casos de “An Inn in Tokyo” e “Tokyo Chorus”), alguma insegurança, o inglês ser uma língua ensinada aos jovens (revelador da influência dos EUA), a entrada em cena da televisão, para além dos célebres relacionamentos familiares expostos com a delicadeza do costume pelo cineasta.

Yasujiro Ozu permeia "Bom Dia" de vários elementos transversais a alguns filmes do seu recomendável currículo, muitos deles já sugeridos durante o texto, aos quais podemos juntar a presença do comboio, símbolo de partida e chegada, mas também a estrutura eléctrica, a chaleira, e claro está os "pillow shots" (não falta a roupa estendida), ao longo de uma obra cinematográfica onde não faltam mal entendidos, gags relacionados com as brincadeiras dos jovens a soltarem gases, relacionamentos intrincados, planos magnificamente elaborados e cenários bem aproveitados. As casas assemelham-se muito no seu exterior, encontrando-se praticamente ligadas umas com as outras gerando-se quase um clima de "comunidade" entre os habitantes do local, onde praticamente todos se conhecem, embora raramente saibam verdadeiramente uns sobre os outros, algo que leva a especulações como as geradas por Tomizawa. Esta é a típica quadrilheira que procura especular sobre a vida dos outros embora tenha telhados de vidro em casa, ao longo de um filme onde os adultos nem sempre são apresentados da forma mais simpática. Veja-se o vendedor ambulante que procura coagir os clientes a comprarem os seus produtos, mas acima de tudo as intrigas que se geram entre pessoas que até não têm problemas em dizer "Bom Dia" umas para as outras, um cumprimento que dá algum colorido ao quotidiano, mas nem por isso deixa de estar carregado de uma dose de pragmatismo. Vale ainda a pena realçar a relação algo atrapalhada entre o explicador de inglês de Minoru e Setsuko, a tia dos jovens rapazes, com os diálogos entre ambos a ficarem por vezes por falas de circunstância sobre o tempo e o trabalho. Diga-se que Ozu não descura os mais jovens ao longo desta obra livremente baseada em "I Was Born, But...", um dos filmes mudos do cineasta, com este a repetir a dose da decepção dos filhos para com os pais, relacionamentos entre pais e filhos, abordando questões relacionadas com as famílias de classe média, embora as comparações fiquem por aqui. Temos ainda a dicotomia entre os valores tradicionais, expostos no pai dos dois protagonistas, na roupa de alguns dos personagens adultos, nas casas, e os elementos associados à modernidade, algo visível na televisão, nos personagens a falarem inglês (os resquícios da presença americana e a noção de uma sociedade a tornar-se cada vez mais globalizada) e até nos elementos mais jovens. Quer as interpretações dos elementos mais jovens, quer dos adultos, surgem marcadas pela procura de Ozu em despir ao máximo os actores dos seus vícios interpretativos e "transformá-los" nos personagens (a fazer lembrar Robert Bresson), com os vários elementos do elenco a sobressaírem pela enorme sobriedade que incutem aos personagens.

O cineasta volta a recorrer a alguns actores e actrizes que estiveram presentes no elenco de várias das suas obras cinematográficas, algo desde logo visível com Chishu Ryu. Este interpreta com enorme sobriedade o pai das duas crianças que fazem greve de fala, um indivíduo que procura não ceder à modernidade, procurando educar os seus filhos de acordo com os seus valores, embora mais tarde ou mais cedo pareça certo que vai ceder aos anseios dos petizes. Temos também Keiji Sada, Haruko Sigimura e Toyo Takahashi, três actrizes que integraram diversas obras de Ozu, sendo ainda de realçar o trabalho de Eijirô Tôno, um actor que interpreta um elemento desempregado. O desemprego é uma temática que também surge representada no filme, remetendo para uma preocupação que vem desde obras iniciais de Yasujiro Ozu, embora seja representada com maior leveza em "Bom Dia" do que em filmes como "An Inn in Tokyo", com a situação do personagem a resolver-se com mais facilidade e até alguma ironia do que na obra citada. Temos ainda os elementos mais jovens, sobressaindo os gags que estes protagonizam (para além dos gases, veja-se quando temos Isamu a repetir "I Love You" a alguns dos seus interlocutores, entre outros elementos), mas também a forma como Ozu coloca estes elementos em sincronia de movimentos. Em "Ohayo" voltamos a assistir a uma magnífica composição dos planos e dos cenários por parte de Yasujiro Ozu, sendo notório todo um enorme cuidado e atenção ao pormenor, ao enquadramento dos personagens, parecendo tudo natural, embora as imagens em movimento tenham sido esculpidas com enorme cuidado. Vale ainda a pena realçar os momentos em que Yasujiro Ozu coloca os personagens a olharem directamente para a câmara, ao centro, quebrando regras e apresentando um tom muito próprio, numa obra onde já apresenta um estilo aprumadíssimo do final de carreira mesclado com algum do humor que pautou algumas obras iniciais, tais como "Tokyo Chorus" onde a juntar a algumas temáticas mais sérias tínhamos alguns momentos de maior leveza (veja-se o momento que antecede o despedimento do protagonista). Com um tom muito próprio e delicado na abordagem dos relacionamentos, Yasujiro Ozu tem em "Bom Dia" uma das suas obras mais interessantes, marcada por alguns planos que ficam na memória, boas interpretações, algum humor e a certeza de que estamos perante um realizador magnífico.

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