05 julho 2014

Resenha Crítica: "Blonde Venus" (1932)

 A relação profissional entre Marlene Dietrich e Josef von Sternberg proporcionou-nos momentos memoráveis em filmes como "Der Blaue Engel", "Morocco", "Shanghai Express", sendo que na quinta colaboração entre ambos, "Blonde Venus", temos também aquela que é a obra mais irregular. Tem alguns momentos memoráveis, mas apresenta um argumento com demasiados tropeções e demasiados plot holes para o conseguirmos levar totalmente a sério. Esta situação é visível nas várias mudanças da personagem interpretada por Marlene Dietrich ao longo da narrativa: começa como uma jovem actriz que se apaixona por um americano que se encontrava de férias na Alemanha, depois é apresentada como uma mãe e esposa dedicada, até ir trabalhar num clube nocturno e encantar tudo e todos, chegando ainda a trair o marido, acabando por cair em desgraça a ponto de ter de mendigar para viver, regressando posteriormente ao estrelato num cabaré de Paris até regressar a casa e voltar a uma faceta mais recatada. Tudo isto em apenas cerca de noventa minutos, com o arco da personagem a nem sempre ser construído de forma coerente e credível. Junta-se ainda um deficiente trabalho de caracterização dos personagens e várias incoerências na narrativa e tudo torna-se mais difícil de aceitar ao longo de uma obra que estranhamente consegue cativar a nossa atenção, com Josef von Sternberg a mostrar-se mais uma vez exímio na construção das imagens em movimento e no aproveitamento do talento de Marlene Dietrich. Esta interpreta Helen Faraday, uma dona de casa dedicada ao marido, Edward Faraday (Herbert Marshall), e ao filho, o jovem Johnny (Dickie Moore), que se vê na contingência de ter de trabalhar num clube nocturno para poder ajudar o tratamento do marido. Edward é um cientista, tendo sido diagnosticado envenenamento por rádio, algo que apenas pode ser revertido se for efectuado um tratamento em Dresden na Alemanha. Helen logo se estreia como "Vénus Loira", num número musical marcante, onde Marlene Dietrich canta "Hot Voodoo", após despir as suas vestes de macaco, num número marcado por enorme exotismo e bizarria, onde esta desperta a atenção de Nick Townsend (Cary Grant), um poderoso político. Nick logo a procura conhecer nos bastidores, interessando-se por esta misteriosa mulher que conta com o nome falso de Helen Jones, a quem passa um cheque com uma quantia elevada (não perguntem como a personagem interpretada por Dietrich conseguiu levantar um cheque que foi endereçado a um nome falso) de forma a ajudá-la. Edward parte para a Alemanha, enquanto Helen começa cada vez mais a relacionar-se com Nick, formando com este um romance até Edward regressar e desprezar a mulher devido à traição. Esta foge para não perder a guarda do filho, entrando uma espiral descendente quase a fazer recordar o protagonista de "Der Blaue Engel", embora Josef von Sternberg logo altere as contas, exacerbando o melodrama e oferecendo um final que até poderíamos dizer que não se ajusta ao rumo da narrativa, se esta tivesse algum rumo, portanto até acaba por fazer algum sentido. 

 É uma obra aparentemente sem rumo esta que Josef von Sternberg nos apresenta, pronta a explorar a versatilidade de Marlene Dietrich, embora lhe falte um argumento sólido para alicerçar as diversas variações do enredo. Nem por isso deixa de ter alguns momentos marcantes, com Marlene Dietrich a sobressair mais uma vez como uma mulher a trabalhar num cabaré, embora a personagem que interpreta esteja longe de atingir o nível da vamp fatal de "Der Blaue Engel" e da protagonista de "Morocco", algo que não impede a actriz de exibir o seu talento. Veja-se quando canta "Hot Voodoo", mas também quando entoa "I Couldn't Be Annoyed" com vestes brancas e masculinas em Paris, onde reencontra Nick, com Sternberg a voltar a utilizar o talento da sua actriz para o canto e para estas cenas em clubes nocturnos que cedo ficam na memória. A utilização da luz e das sombras volta a sobressair, bem como o cuidado que Sternberg coloca na exposição de Marlene Dietrich, explorando a sua aura apenas ao alcance das grandes divas, mas fica muito aquém daquilo que já nos apresentou e até do que viria a apresentar. A narrativa é demasiado convulsa, perdendo-se em momentos que muitas das vezes não fazem sentido. Veja-se desde logo a queda em desgraça de Helen, após ter sido um sucesso no clube nocturno e de ter encantado Nick, perdendo o deslumbre e transformando-se num farrapo humano (com a sua queda a surgir marcada pelo simbolismo de começar a fumar após rejeitar inicialmente este hábito). Temos ainda a sua fuga das autoridades para não perder o filho para o marido, parecendo tudo muito pouco sentido e sem sentido. Será possível acreditar que esta caíra na miséria com tanta facilidade? Como é que Johnny praticamente não menciona o pai nos momentos em fuga com a mãe? Como é que este jovem nunca envelhece ao longo de uma narrativa que avança quase dois anos? Será possível acreditar que depois de cair no "fundo do poço" esta regressa tão facilmente à ribalta (sobretudo com as explicações que nos são dadas)? Existem muitos problemas ao longo de "Blonde Venus" e uma falta de sustentação para as mudanças de rumo do enredo, mas Josef von Sternberg ultrapassa muitos destes obstáculos, por vezes colocados pelo próprio, ao mostrar-se mais uma vez exímio a explorar o talento de Dietrich e a compor alguns planos e momentos magníficos. Vale ainda a pena salientar a presença de Cary Grant num dos primeiros papéis de destaque, com o actor a atribuir algum carisma a Nick Townsend, embora este por vezes seja "esquecido" durante boa parte do filme. Temos ainda um credível Herbert Marshall como o marido da protagonista, um homem ponderado que aparentemente não perdoa a traição da esposa. O elenco é de bom nível, Josef von Sternberg é um realizador magnífico, mas o argumento de "Blonde Venus" e as situações que nos são apresentadas são demasiado incoerentes e implausíveis para conseguirmos aceitar tudo o que esta irregular obra cinematográfica tem para nos dar. O que não deixa de provocar um certo sabor amargo ao ficarmos perante uma obra que proporciona tantos momentos memoráveis, naquele que é um exemplo claro onde o estilo ultrapassa a substância.

Título original: "Blonde Venus". 
Título em Portugal: "A Vénus Loira"
Realizador: Josef von Sternberg. 
Argumento: Jules Furthman e S. K. Lauren.
Elenco: Marlene Dietrich, Herbert Marshall, Cary Grant, Dickie Moore.

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