09 julho 2014

Resenha Crítica: "As Crianças do Sacerdote" (Svećenikova djeca)

 A premissa de "Svećenikova djeca" é suficientemente peculiar e intrigante para despertar minimamente a nossa atenção, com esta comédia croata a deixar-nos perante um sacerdote de uma pequena ilha próxima do mar Adriático que decide tomar medidas drásticas para contornar a pouca natalidade do território. Este sacerdote é Fabijan (Krešimir Mikić), um indivíduo que chegou à ilha para substituir o padre Jakob. No começo, Fabijan era capelão, mas logo tornou-se sacerdote, contando ainda com a presença do padre Jakob, visto que os paroquianos pediram ao bispo que deixasse este último na paróquia. Perante o elevado número de falecimentos e a nulidade de nascimentos, Fabijan decide, em conjunto com Petar (Nikša Butijer), o dono de uma tabacaria que também vende preservativos, furar estes contraceptivos e assim aumentar a natalidade deste território. Fabijan e Petar conheceram-se quando o segundo se foi confessar, devido ao facto da sua esposa considerar pecado a venda de preservativos, algo que conduz o padre a ter a ideia de sabotar estes contraceptivos e assim deixar "aos destinos de Deus" as consequências dos actos sexuais. Estes não esperam ser apanhados pelas autoridades, esperando justificar as gravidezes com o facto dos preservativos não serem 100% eficazes (um alerta que também é válido para o espectador). A ineficácia deste acto conduz Fabijan e Petar a contactarem Marin (Dražen Kühn), um antigo militar e actual farmacêutico local, tendo em vista a que este também participe no seu plano, algo a que este responde de forma demasiadamente entusiasmada, chegando até a trocar as pílulas por vitaminas. As razões de Marin não são as mais "católicas", centrando-se sobretudo na sua procura de evitar que a ilha fique "cheia de muçulmanos e ortodoxos". Ficamos perante alguns gags divertidos dos clientes a comprarem os contraceptivos, quer na tabacaria, quer na farmácia, para além de outros momentos recheados de humor, tais como Fabjian e Petar a formarem uma lista de quem dorme com quem na ilha. Não faltam ainda algumas descobertas peculiares efectuadas pelo trio, tais como uma jovem não saber quem é o pai do seu filho, devido a ter feito sexo com vários elementos diferentes num curto período de tempo, algo resolvido de forma pouco recomendável mas eficaz pela equipa. A história é apresentada em flashbacks, com Fabijan a confessar-se a um padre num hospital onde se encontra internado, enquanto assistimos a esta comédia marcada por uma enorme simplicidade, embora seja capaz de subtilmente colocar algumas críticas à igreja e às consequências que poderiam acontecer se não existisse controlo da natalidade, algo defendido por esta conservadora instituição. 

Uma dessas situações provocadas pela falta de controlo de natalidade é paradigmaticamente visível no caso de uma jovem trompetista que tem de decidir se vai ou não ter o filho que concebeu acidentalmente com o namorado. Esta dúvida é gerada devido ao facto do namorado ter falecido recentemente, algo revelador das consequências destas gravidezes indesejadas, mas também dos acidentes de percurso que podem acontecer numa relação, apesar do desenvolvimento desta subtrama nem sempre convencer. Temos ainda algumas críticas subtis à Igreja e à forma nem sempre clara de resolver as situações, algo visível quando o bispo pensa que Fabijan pode estar envolvido num caso de pedofilia, devido a ter sido denunciado que este se encontrava na posse de preservativos. O diálogo é mordaz com o bispo a salientar que: "A única coisa que me importa é que não se trate de menores. Nesse caso, teria que transferi-lo", algo que acaba por representar um "varrer para debaixo" do tapete do caso. Claro que não é esse o caso de Fabijan, com este a pretender apenas aumentar a natalidade da ilha em que habita, embora através de um método pouco legal e peculiar. Fabijan é um padre sui generis, que escolhe alguns métodos questionáveis para aumentar a natalidade, embora não pareça ter pensado muito nas consequências, algo de que gradualmente se vai apercebendo ao longo do enredo. Diga-se que Vinko Brešan, o realizador do filme, também não parece pretender explorar com mais empenho algumas das consequências do acto de não utilizar preservativos, sobretudo no que diz respeito ao facto destes não serem apenas um meio de evitar a gravidez, mas também uma forma de evitar doenças sexualmente transmissíveis, algo que é mencionado mas nunca devidamente abordado ao longo do filme. Percebe-se a procura de Vinko Brešan em tentar manter a história relativamente simples, embora fique a sensação de que muito fica por abordar ao longo do filme, sobretudo porque é o próprio cineasta que se predispõe a lançar algumas dessas temáticas no interior do enredo. "Svećenikova djeca" perde-se ainda em algumas redundâncias da narrativa e no seu último terço, apesar de contar com alguns bons momentos de humor e um conjunto de personagens secundários que conseguem despertar algum interesse. Veja-se desde logo Petar, um elemento casado com Marija (Marija Škaričić), uma mulher infértil, e a subtrama relacionada com estes procurarem adoptar ilegalmente um bebé que é deixado junto da paróquia. Temos também Marin, com este a representar o estereótipo do antigo militar conservador e intolerante, com Dražen Kühn a destacar-se pela positiva, embora no centro da narrativa esteja Fabijan, um sacerdote dedicado à Igreja que se resolve imiscuir na natalidade e vida sexual dos habitantes da ilha onde habita, algo que vai rapidamente sair do controlo do protagonista e trazer consequências inesperadas.

As interpretações estão longe de incutirem uma maior profundidade aos personagens, mas também não desiludem, ao longo de uma obra que procura ainda explorar algumas das excentricidades associadas aos habitantes de uma pequena ilha croata. Nem sempre resulta, algo visível no último terço, quando encontramos Jure (Goran Bogdan) alcoolizado a cantar no topo de um poste elevado, numa cena que demora bastante e perde facilmente o efeito humorístico que procura causar, sobretudo devido a ser efectuada rapidamente a transição para um momento de maior dramaticidade, uma situação reveladora de alguma da irregularidade deste filme. Isso não impede que o filme apresente vários elementos positivos, entre os quais vários momentos de humor, com este a variar entre as situações criadas pela narrativa e o brejeiro, não faltando explicações sobre as variedades de preservativos por parte de Petar, mas também as cenas demasiado explícitas dos actos sexuais de alguns elementos do local. Temos ainda alguns comentários sardónicos e inspirados sobre a Igreja, visível na forma como a Confissão é utilizada para contar alguns pecados condenáveis de forma a fugir a julgamentos externos, mas também no que diz respeito à questão da natalidade. Apesar de ser uma obra marcada por algum humor, vale a pena realçar que "Svećenikova djeca" não abdica de contar com momentos mais dramáticos, tais como o suicídio de uma jovem que se encontrava grávida, a indecisão em relação à manutenção da gravidez por parte da trompetista, mas também a questão da adopção de uma criança por parte de Marija e Petar. Neste sentido, existe uma procura em balancear a narrativa entre os momentos de humor e de maior seriedade, enquanto somos deixados perante as peculiares gentes desta ilha. "Svećenikova djeca" sobressai ainda na exposição e aproveitamento da beleza do cenário desta ilha croata, um espaço quase à parte do resto da humanidade, que até chega a ser visto como um destino para turismo de casais que pretendem ter filhos, devido à fama internacional que cria graças ao elevado número de nascimentos. Quem também alcançou alguma fama foi esta obra cinematográfica bastante bem recebida pelo público da Cróacia, tendo sido exibido em vários festivais de cinema internacionais e granjeado alguma simpatia por parte da crítica internacional, algo que não surpreende ou não estivéssemos perante uma proposta bem intencionada, marcada por algum humor, dramatismo e irreverência. Veja-se quando coloca Fabijan a dirigir-se ao espectador, mas também a premissa do filme e até os comentários sobre a Igreja, enquanto encontramos este padre a lidar com os actos da peculiar decisão que tomou. "Svećenikova djeca" chega às salas de cinema nacionais após ter vencido o Golfinho de Ouro na edição de 2014 do Festróia, surgindo como uma proposta relativamente agradável, embora raramente saia da mediania. No entanto, algo parece certo, depois de ver este filme será praticamente impossível não procurar pela existência de furos nas caixas dos preservativos.

Título original: "Svećenikova djeca".
Título em Portugal: "As Crianças do Sacerdote".
Realizador:  Vinko Brešan.
Argumento: Vinko Brešan e Mate Matisic.
Elenco: Krešimir Mikić, Nikša Butijer, Marija Škaričić, Dražen Kühn, Jadranka Đokić, Marinko Prga.

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