04 junho 2014

Resenha Crítica: "Woman of Tokyo" (1933)

 As ligações familiares e as decepções que podem advir das mesmas são temáticas que atravessam diversas obras de Yasujiro Ozu. Desde "I Was Born, But..." passando por “Tokyo Chorus”, “An Inn in Tokyo”, "The Equinox Flower", “A Story of Floating Weeds”, várias são as obras onde Yasujiro Ozu aborda estas questões de forma delicada e assertiva, algo que também acontece em "Woman of Tokyo", um filme mudo realizado pelo cineasta para o estúdio Sochiku, lançado originalmente em 1933. Curto na sua duração (cerca de quarenta e seis minutos), mas largo no seu valor, "Woman of Tokyo" apresenta-nos a Ryoichi (Ureo Egawa), um estudante universitário e a sua irmã mais velha Chikako (Yoshiko Okada). Esta acumula um emprego diurno como dactilógrafa e um trabalho nocturno que passa supostamente por ajudar um professor, tendo em vista a conseguir os fundos suficientes para pagar as contas escolares do irmão e sustentar a casa, algo revelador das dificuldades económicas de ambos. No entanto, Ryoichi acaba por descobrir que Chikako trabalha num clube nocturno, algo que o conduz a entrar num assomo de fúria e desilusão. A notícia é dada por Harue (Kinuyo Tanaka), a namorada de Ryoichi, uma jovem com quem chegamos a ver o personagem interpretado por Ureo Egawa a partilhar alguns momentos em comum, incluindo a visionar "If I Had a Million", um filme dos EUA, embora a revelação sobre Chikako venha a mudar o rumo da narrativa. Yasujiro Ozu explora rapidamente a dinâmica entre os dois irmãos até dinamitá-la com a revelação sobre a profissão nocturna de Chikako, expondo o conservadorismo de uma sociedade japonesa que se encontra entre a modernidade e a tradição, mas também a lidar com uma crise económica. Esta crise é visível na necessidade de Chikako ter dois empregos, não encontrando outra forma de conseguir sustentar a casa e os estudos do irmão, com Yasujiro Ozu a voltar a abordar questões ligadas às dificuldades económicas, algo que já tinha efectuado em obras como "Tokyo Chorus", embora em "Woman of Tokyo" apresente um tom ainda mais sério (mais próximo de "An Inn in Tokyo"). Já a modernidade e a abertura ao Ocidente são apresentadas subtilmente em elementos como a exibição de "If I Had a Million", enquanto que a tradição é visível em elementos como a condição da mulher (veja-se o preconceito em relação à mulher exercer actividades consideradas pouco dignificantes) e o guarda-roupa dos personagens, com Ozu a brindar-nos mais uma vez com uma obra filmada com enorme sobriedade e engenho, onde os planos fixos adequam-se perfeitamente a uma narrativa na qual os sentimentos estão longe de estar parados. Estes fluem naturalmente, enquanto Ureo Egawa e Yoshiko Okada cumprem nos seus papéis, protagonizando um momento intenso e dramático quando o primeiro esbofeteia a irmã, quando até então demonstravam uma enorme cumplicidade. As relações familiares não são fáceis e Yasujiro Ozu mostra-nos isso mesmo ao longo desta obra muda, filmada quando o sonoro já se tinha imposto, embora o som pouco seja necessário ao longo deste filme que tanto tem da delicadeza própria do cineasta em abordar temáticas relacionadas com a família e a sociedade japonesa (não faltando pelo meio os célebres pillow shots sem a presença humana e a dividirem as cenas). A curta duração de "Woman of Tokyo" não impede Yasujiro Ozu de realizar uma obra bastante recomendável, conseguindo abordar com grande sobriedade as temáticas que nos apresenta, contando com um contributo relevante de Ureo Egawa e Yoshiko Okada, uma dupla que transmite de forma sublime os sentimentos dos seus personagens.

Título original: "Tokyo no Onna".
Título em inglês: "Woman of Tokyo".
Realizador: Yasujiro Ozu. 
Argumento: Kōgo Noda e Tadao Ikeda.
Elenco: Yoshiko Okada e Ureo Egawa.

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