26 junho 2014

Resenha Crítica: "Underworld" (1927)

 Realizado por Josef von Sternberg, "Underworld" é considerado um dos primeiros filmes de gangsters modernos, tendo servido de modelo para várias obras cinematográficas deste subgénero e contribuído para a popularidade do mesmo. Josef von Sternberg coloca-nos perante elementos à margem da sociedade, pouco dados a seguir as leis e as regras, com valores muito próprios, no interior deste espaço citadino de Chicago onde as autoridades encontram enormes dificuldades para travarem os criminosos. Estes não surgem como elementos secundários mas sim como os protagonistas da narrativa, algo que diverge da representação dos gangsters efectuada até então em alguns filmes dos EUA, com Josef von Sternberg a colocar estes indivíduos como anti-heróis merecedores da nossa simpatia. Um dos criminosos que permeiam este submundo é "Bull" Weed (George Bancroft), um indivíduo sorridente mas implacável, que ajuda "Rolls Royce" (Clive Brook), um antigo advogado, hoje alcoólico sem rumo, chegando até a defendê-lo de Buck Mulligan (Fred Kohler), um gangster rival. Buck disputa a atenção por Feathers (Evelyn Brent), a amada de "Bull", com este último a fazer de tudo para satisfazê-la. Feathers acaba por se interessar por Rolls Royce, um sentimento que é gradualmente correspondido por este último, algo que promete trazer problemas a ambos. Durante um baile onde estavam presentes vários gangsters, Buck tenta forçar Feathers a ter relações consigo, uma situação que conduz Bull a eliminá-lo. Bull acaba por ser preso, enquanto Rolls procura tratar da fuga, embora Feathers lhe acena com a possibilidade de ficarem juntos se o primeiro for condenado à morte, com este triângulo amoroso a conhecer alguns desenvolvimentos que prometem mudar a vida destes elementos. O enredo de "Underworld" é bastante simples, com Josef von Sternberg a apresentar-nos vários elementos que vão ser transversais às suas obras, entre os quais a obsessão pela figura feminina e a sexualidade reprimida, para além de uma enorme atenção aos cenários, um aproveitamento certeiro do elenco e uma cinematografia cuidada. Veja-se no último terço, quando Bull pensa que foi traído, encontrando-se no interior do seu esconderijo com Feathers, com o cenário envolvente a surgir marcado por muito fumo, sombras salientes e polícias prontos a dispararem, algo que adensa a inquietação e imprevisibilidade em volta deste gangster interpretado por George Bancroft.

George Bancroft por vezes parece que exagera nos gestos nos momentos de maior leveza, sobressaindo sobretudo quando se encontra em fúria, mas também a procurar ser fiel àqueles que lhe são próximos. Nesse sentido, ficamos perante um gangster violento, mas com alguns valores, embora isso não impeça Feathers e Rolls de se sentirem atraídos um pelo outro, ao longo de uma obra onde estes criminosos que povoam a narrativa surgem simultaneamente como anti-heróis e vilões. Clive Brook consegue efectuar com facilidade a transição do seu personagem de vagabundo sem eira nem beira para um indivíduo de aparência decente e educado, pronto a ser o "cérebro" do crime para Bull, acabando por conquistar Feathers. Já Evelyn Brent interpreta a típica mulher capaz de atrair tudo e todos, com Josef von Sternberg a mostrar um cuidado notório no guarda-roupa desta personagem, algo que se assemelha e muito ao zelo que este colocou nas figuras femininas dos seus outros filmes. Veja-se desde logo a echarpe com penas e os vestidos de Feathers, mas também a maquilhagem, ao longo de uma obra cinematográfica que procura estabelecer e desenvolver as dinâmicas entre estes personagens, embora descure muitas das vezes os assaltos efectuados pelos mesmos. Apresenta a rivalidade entre gangsters (Bull é um indivíduo que não tem problemas em agir sozinho), ainda que levemente, embora as disputas, como a de Bull e Buck surjam por vezes relacionadas com as figuras femininas, neste caso Feathers, e não pelos furtos. Apesar dessa situação, não vão faltar alguns momentos de maior violência (o confronto no baile, o último terço), ao longo de um filme que apresenta um tom relativamente coerente, não faltando um final que pode ser considerado algo moralista embora não macule o valor da obra cinematográfica. A história de "Underworld" surge marcada por uma atmosfera algo negra, embora estes transgressores da lei estejam longe de serem elementos desprovidos de valores e dimensão, algo que voltam a demonstrar no final do enredo, com Josef von Sternberg a desenvolver um filme que viria posteriormente a servir de exemplo a várias obras do subgénero.

Sternberg coloca os gangsters como protagonistas e não como elementos secundários (embora esta não seja uma situação inédita), apoiando-se no argumento de Ben Hecht (um elemento que contribuiu para "Scarface" de Howard Hawks, um dos mais marcantes filmes de gangsters da História do Cinema), embora tenha efectuado diversas alterações ao mesmo. Este ignora elementos como a chamada “Lei Seca” e os negócios ligados à venda ilegal de álcool, procurando antes apresentar um criminoso dado a assaltar bancos e joalharias, um psicopata com "bom coração", capaz de roubar mas também de ajudar aqueles que precisam. Não assistimos à típica história da ascensão e queda de um gangster, algo apresentado em obras como "The Public Enemy", "Little Caesar" e "The Roaring Twenties", nem ao seu envolvimento no crime organizado, mas sim a uma versão algo fantasiosa do mundo do crime, embora vários destes filmes citados possam ter "bebido influência" em "Underworld". Bull está longe de andar sempre acompanhado por companheiros do crime, chegando até a agir sozinho, embora também conte com alguns aliados apesar de não ser um "big shot" como Eddie Bartlett, o protagonista de "The Roaring Twenties", algo que distancia um pouco esta obra de vários dos filmes de gangster dos anos 30 produzidos pela Warner Bros. Ficamos assim perante um filme de gangsters que conta com um enorme valor histórico, onde a morte e o crime estão presentes, mas também laços de amizade e redenções inesperadas, com Josef von Sternberg a conseguir elaborar uma obra com pormenores bastante interessantes e a mostrar o seu enorme valor como realizador. A cena do baile, onde a decoração do espaço sobressai mas também a violência, é tipicamente "à Sternberg", onde este junta o artifício e o conteúdo, ao mesmo tempo que expõe o ponto mais fervilhante da rivalidade entre dois criminosos. Curiosamente, Josef von Sternberg nem era o nome inicial ligado ao projecto, mas o despedimento de Arthur Rosson conduziu a Paramount Pictures a avançar para o cineasta, com "Underworld" a revelar-se uma surpresa para o estúdio, não só a nível do público, mas também da crítica, quando se esperava que a obra não alcançasse toda essa repercussão. "Underworld" exibe algum do notável talento de Josef von Sternberg, surgindo como uma obra cinematográfica capaz de deixar marca na História do Cinema e de desafiar a passagem do tempo.

Título original: "Underworld".
Título em Portugal: "Vidas Tenebrosas".
Realizador: Josef von Sternberg.
Argumento: Charles Furthman e Robert N. Lee.
Elenco: George Bancroft, Clive Brook, Evelyn Brent, Larry Semon, Fred Kohler.

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