06 junho 2014

Resenha Crítica: "Sudden Fear" (1952)

 David Miller tem em "Sudden Fear" um filme noir inquietante, onde o destino da sua protagonista nunca parece claro, enquanto somos deixados perante cenários nocturnos, gentes de carácter dúbio, traições e mortes, ao mesmo tempo que as sombras contaminam o ecrã e ficamos perante uma obra marcante. Os nervos estão à flor da pele, algo adensado pelo trabalho de fotografia, com "Sudden Fear" a ter nos close-ups, sobretudo extremos, uma componente importante, deixando Joan Crawford espelhar de forma avassaladora os sentimentos e emoções da sua personagem. Veja-se no último terço quando esta pensa colocar em prática um plano contra o marido e a amante deste, com os seus olhos a serem expostos diante de nós e a dizerem tanto. Claro que o plano desta não corre como o esperado, tal como o casamento, ao longo desta obra baseada no livro homónimo de Edna Sherry. Crawford dá vida a Myra Hudson, uma famosa escritora de peças da Broadway com uma personalidade forte e de finanças abastadas. Esta recusa a presença de Lester Blaine (Jack Palance) como protagonista de "A Caminho do Céu", a sua nova peça de teatro, devido a considerar que este não é um "galã romântico", algo que gera um certo mal estar entre ambos. Mais tarde, estes encontram-se no comboio que parte de Nova Iorque em direcção a São Francisco, desenvolvendo-se uma surpreendente relação de amizade entre ambos, que avança tão rapidamente como o meio de transporte. Esta decide convidar Lester a passar algum tempo consigo, apresentando-o aos seus amigos, incluindo Steve Kearney (Bruce Bennett), o seu advogado. A relação entre ambos avança de forma rápida, com o estilo galanteador e romântico de Lester a conquistar o coração de Myra, a ponto de chegarem a casar e esta planear deixar-lhe quase tudo como herança, embora deixe de lado a fortuna da família pretendendo dar a mesma para a sua fundação. A chegada de Irene Neves (Gloria Grahame), uma mulher com um passado e um presente em comum com Lester, traz um novo elemento à narrativa, com esta a envolver-se com Junior Kearney (Mike Connors), advogado e familiar de Steve, procurando com o personagem interpretado por Jack Palance um meio de eliminar Myra antes da assinatura do testamento. Myra tem como hábito gravar as suas conversas, deixando o gravador ligado por engano, acabando por ouvir a conversa entre Irene e Lester. Fica inicialmente desfeita, procurando a todo o custo contrariar os desideratos de Irene e Lester, estabelecendo ela própria um plano pronto a mudar o "rumo do jogo", ao longo deste inquietante thriller realizado por David Miller. 

Joan Crawford domina o ecrã como Myra, uma personagem que conhece uma convulsão de sentimentos ao longo do filme, com a actriz a exprimir com igual sobriedade e talento os distintos estados de espírito da sua personagem. Inicialmente algo fria e pronta a defender as suas ideias, passando para uma maior afabilidade no comboio, até à doçura do romance, até ao medo e inquietação quando descobre os planos que colocam em causa a sua vida. Crawford é uma actriz maravilhosa e tem em "Sudden Fear" o palco ideal para expor a sua versatilidade, embora não seja de descurar falarmos da sua boa companhia no elenco, em particular Jack Palance e Gloria Grahame. Palance como um aproveitador que seduz a protagonista, mas apenas pretende a sua fortuna, mesclando um certo romantismo com enorme malícia. No entanto, David Miller gosta de dar destaque às mulheres e consegue fazê-lo também com Gloria Grahame, com esta a interpretar uma mulher sedutora, com uma personalidade pouco recomendável, disposta a tudo para enriquecer e pronta a contribuir para a morte da protagonista. Os planos de parte a parte são arquitectados de forma aparentemente perfeita mas contam com diversas falhas, com David Miller a criar uma enorme inquietação em volta dos personagens, elaborando um último terço de enorme fulgor, onde os nervos dos protagonistas e os nossos ficam à flor da pele. As cenas exteriores são filmadas de forma exímia (veja-se a fuga de Myra pelos becos isolados), mas também as interiores, prontas a exacerbarem as sombras que cobrem estes personagens e os cenários, com a cidade a ser um palco de insegurança mas também a casa da protagonista e até a de Irene. A certa altura do filme as habitações tornam-se espaços quase claustrofóbicos, becos sem saída onde esperamos um crime, mas o que encontramos é muito nervosismo e agendas distintas entre cada elemento, com o argumento a sobressair pela positiva na forma como desenvolve o trio citado. No entanto, ao longo de "Sudden Fear" o que mais sobressai, para além da interpretação de Joan Crawford, é a realização de David Miller, com este a inquietar-nos, a controlar os ritmos da narrativa e a surpreender-nos, explorando de forma bastante eficaz a cidade de São Francisco ao serviço da narrativa, enquanto nos deixa perante uma história onde nada nem ninguém parece estar seguro.

Título original: "Sudden Fear".
Título em Portugal: "Medo Súbito".
Realizador: David Miller. 
Argumento: Lenore J. Coffee e Robert Smith.
Elenco: Joan Crawford, Gloria Grahame, Jack Palance, Bruce Bennett.

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