17 junho 2014

Resenha Crítica: "Stranger on the Third Floor" (1940)

  Qual terá sido o primeiro filme noir? A resposta definitiva para esta questão é difícil de encontrar, sendo que própria definição de filme noir encerra em si muitas limitações, com este subgénero a englobar um variado conjunto de elementos, que podem ser parcialmente encontrados em "Stranger on the Third Floor", uma obra cinematográfica de série b produzida pela RKO Pictures. Por vezes considerado como a primeiro filme deste subgénero, "Stranger on the Third Floor" não poupa em elementos típicos das obras noir, incluindo a narração em off, as sombras salientes, uma cena com um sonho tenebroso, personagens de carácter dúbio, a cidade como local de insegurança, as autoridades como entidades nem sempre competentes, um personagem falsamente acusado de assassinato (veja-se por exemplo o magnífico "The Lady From Shanghai"), entre vários outros elementos. A história é bastante simples e apresentada com enorme poder de síntese pela parte de Boris Ingster, enquanto o cineasta nos deixa perante Michael Ward (John McGuire), um jornalista que testemunha contra Briggs (Elisha Cook Jr.), um indivíduo que se encontra a ser julgado em tribunal devido a supostamente ter cometido um assassinato. Michael vira Briggs no local do assassinato do dono de um café/restaurante, sendo peça vital para a possível condenação à morte do personagem interpretado por Elisha Cook Jr, algo que perturba Jane (Margaret Tallichet), a namorada do primeiro, sobretudo quando o suposto assassino clama desesperadamente por inocência. Briggs é culpado ou inocente? Esta é uma questão que parece perturbar Jane e Michael, chegando a influenciar a relação do casal. A narrativa logo conhece uma reviravolta quando Michael vê um estranho (Peter Lorre) entrar na casa do seu vizinho, Albert Meng (Charles Halton), um indivíduo desprezível e mesquinho, com quem o personagem interpretado por John McGuire já tinha protagonizado alguns desaguisados. Michael deixa de ouvir o ressonar do vizinho, algo que o leva a pensar que este pode estar morto, conjecturando possíveis motivos para as autoridades acusarem-no de ter cometido o crime, entrando em paranóia até adormecer temporariamente e embrenhar-se num pesadelo inquietante. O estranho logo foge, enquanto Michael confirma as suas piores expectativas e encontra o vizinho morto, temendo ser considerado o culpado pelo assassinato de Meng, vendo-se na mesma situação que Briggs, algo que gera uma enorme inquietação na sua pessoa, enquanto o personagem interpretado por Peter Lorre anda a monte e promete colocar mais vidas em perigo.

Embora o argumento raramente dê profundidade ao seu personagem, Peter Lorre consegue atribuir alguma densidade ao mesmo, criando um assassino louco e violento, aparentemente frágil, marcado por alguma malícia e psicose, cujo olhar guarda no seu interior um certo vazio e prontidão para eliminar quem se opuser a si, com o actor a mostrar a sua perícia para papéis do género. Já John McGuire cumpre como este jornalista algo atormentado que tantas características tem dos personagens dos filmes noir, incluindo a habilidade para se envolver em confusões, sobretudo quando Meng é assassinado e a inocência de Michael é colocada em causa. Michael tem uma relação relativamente sólida com Jane, embora o casal conte com alguns contratempos ao longo do enredo, incluindo o julgamento de Briggs, a morte de Meng e a procura pelo estranho, algo que complica as vidas dos personagens interpretados por John McGuire e Margaret Tallichet. Jane apresenta um papel preponderante no último terço do enredo, algo que permite a Margaret Tallichet sobressair um pouco mais e mostrar uma faceta mais corajosa da sua personagem, enquanto esta procura encontrar o misterioso assassino e provar a inocência do amado. A morte, o crime, a insegurança e a paranóia permeiam este espaço citadino por onde circulam os personagens de "Stranger on the Third Floor", com Boris Ingster a atribuir um tom negro a este filme marcado por alguma tensão, inquietação e cinismo, embora o desfecho seja demasiado açucarado para o subgénero (falta-lhe algum cinismo e coragem), surgindo algo desajustado em relação ao rumo da narrativa. Tal como nos vários filmes noir, "Stranger on the Third Floor" conta com alguma influência do chamado expressionismo alemão (veja-se desde logo a utilização do chiaroscuro e os ângulos de câmara invulgares), com Boris Ingster a sobressair pela positiva na sua estreia na realização cinematográfica, sobretudo na intensa cena do sonho do protagonista, criando uma obra marcada por um ritmo fulgurante, uma notória atmosfera negra e uma incerteza latente em relação ao destino dos personagens.

Título original: "Stranger on the Third Floor".
Título em Portugal: "Não Matei".
Realizador: Boris Ingster.
Argumento:  Frank Partos e Nathanael West.
Elenco: Peter Lorre, John McGuire, Margaret Tallichet, Elisha Cook Jr.

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