24 junho 2014

Resenha Crítica: "A Story of Floating Weeds" (1934)

 É simplesmente impressionante e apaixonante ver a forma delicada, sincera e aprazível com que Yasujiro Ozu aborda os relacionamentos humanos e as relações familiares. "A Story of Floating Weeds", um dos seus mais marcantes filmes mudos, não foge à regra, enquanto Yasujiro Ozu nos apresenta a Kihachi Ichikawa (Takeshi Sakamoto), o líder de uma trupe ambulante de teatro de Kabuki que tem um filho em segredo. O grupo teatral chega num comboio, símbolo de movimento, de chegada e partida, de tradição e progresso, um pouco como o cinema de Ozu vagueia entre o realismo e o formalismo, retratando uma sociedade apresentada de forma algo idealizada mas nem por isso de forma acrítica, tendo neste meio de transporte uma imagem de marca das suas obras. O grupo é-nos inicialmente exposto de forma rápida, sendo formado por cinco homens, um rapaz e duas mulheres, até Ozu colocar Ichikawa frente a frente com Otsune (Chouko Iida), uma mulher com quem outrora tivera um caso. Estes parecem dois amigos que não se encontram há muito tempo mas dialogam como se o último contacto tivesse sido no dia anterior, demonstrando enorme cumplicidade e falando sobre o filho de ambos, que trata o famoso actor como se fosse o seu tio. Shinkichi licenciou-se na faculdade agrícola, vivendo com a sua mãe, tendo em Ichikawa uma figura algo paternal, visto pensar que o seu pai faleceu. Os dois foram pescar peixe de água doce e se dúvidas existissem que são pai e filho, Ozu logo esculpe a imagem colocando ambos em sincronia de movimentos (como fizera com os irmãos em "I Was Born, But...", uma das imagens de marca do cineasta), com as canas de pesca a bailarem em conjunto, antes de sermos apresentados a um espectáculo teatral de Ichikawa. O público enche o espectáculo, mas um conjunto de dias chuvosos e tempestuosos conduzem o grupo a ter de travar temporariamente a actividade. Neste tempo de paragem, encontramos estes elementos a dialogarem sobre o tempo, os desejos alimentares, depauperados, tendo no tabaco uma acalmia, enquanto abordam levemente as ausências do líder que pensam estar a sair regularmente para ir ingerir bebidas alcoólicas. Ichikawa passa os dias com o filho, recuperando algum tempo perdido, embora a aparente candura destes momentos venha a ser colocada em causa por Otaka (Rieko Yagumo), uma actriz do grupo e actual amante do personagem interpretado por Takeshi Sakamoto. 

Otaka descobre que Shinkichi é filho de Ichikawa, pagando a Otoki (Yoshiko Tsubouchi), uma colega da companhia teatral, para seduzir o jovem. Inicialmente Otoki procura enganar o rapaz, mas logo se apaixona pelo mesmo, revelando o plano a Shinkichi. A revelação surge num cenário típico de Ozu, onde não falta o comboio a passar, os postes de electricidade, enquanto os sentimentos são exibidos de forma delicada, a beleza de Otoki exposta e o amor de Shinkichi por esta evidenciado por um agarrar da sua mão delicada e um diálogo simples. O filme é mudo, mas facilmente imaginamos estes personagens a falarem, tal a forma como os actores se expressam, e os intertítulos complementam sagazmente os acontecimentos das imagens em movimento. Não falta sentimento ao filme, enquanto Ozu termina a sua obra num movimento circular, quase como se nada tivesse mudado, mas ao mesmo tempo com tanto a acontecer na vida dos seus protagonistas, "ervas flutuantes" que flutuam sem aparente rumo, conduzidos por um destino incerto e nem sempre agradável. Ozu volta a abordar temas relacionados com a família, as decepções familiares, neste caso entre um filho que não conhecia a identidade do pai, ao mesmo tempo que nos deixa perante um actor na miséria, com a sua arte a não ser compreendida e pouco prestigiada. Este é um actor pouco conhecido, que anda de cidade em cidade, procurando esconder de Shinkichi que é o seu pai de forma a que este não procure seguir a sua carreira, embora apenas provoque ressentimento entre ambos na altura da descoberta. É um momento duro o da revelação, embora não consigamos condenar totalmente o personagem interpretado por Takeshi Shakamoto, ou não tivesse este nas suas intenções proteger o filho, apesar de o privar de uma presença paternal. Estamos perante uma pequena cidade da província (longe das grandes metrópoles de “Tokyo Story”, entre outras obras finais de Ozu), cujas gentes chegam e partem de comboio, num constante fluir, onde os valores tradicionais estão muito presentes, quer no vestuário, quer na arte, quer nos relacionamentos, numa história marcada por relacionamentos complexos expostos com enorme graciosidade por Ozu. Este volta ainda a brindar-nos com um conjunto de planos fixos rigorosamente planeados, pillow shots (veja-se as célebres imagens da roupa a ser estendida), os planos filmados um pouco acima do tatami (como salienta Donald Richie), objectos cheios de significado, permitindo aos seus actores sobressaírem ao longo deste drama bem elaborado, que mais tarde viria a ser alvo de um remake pela parte do próprio Yasujiro Ozu. 

Título original: "Ukikusa monogatari".
Título em inglês: "A Story of Floating Weeds". 
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento: Yasujiro Ozu e Tadao Ikeda.
Elenco: Takeshi Sakamoto, Chouko Iida, Koji Mitsui, Yoshiko Tsubouchi.

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