21 junho 2014

Resenha Crítica: "Sirocco" (1951)

 "Sirocco" procura recuperar vários dos elementos de sucesso de "Casablanca", colocando Humphrey Bogart a dar vida a um indivíduo algo cínico e neutro perante um conflito militar, muito ao jeito de Rick Blaine, embora sem o romance memorável com Ilsa Lund e os momentos de brilhantismo do filme realizado por Michael Curtiz. Diga-se que "Sirocco" pouco tem de memorável, embora a sua história esteja longe de gerar indiferença, alicerçando-se num argumento eficaz, apesar de se encontrar marcado por muitos lugares-comuns (veja-se a representação dos sírios), contando ainda com uma interpretação credível de Humphrey Bogart. Este interpreta Harry Smith, um americano imoral que lucra no mercado negro, quer a vender produtos alimentares, quer a vender armas para os sírios tendo em vista a eliminarem os franceses. A narrativa começa em 1925, em Damasco, acompanhando a guerrilha dos sírios contra a presença francesa no território após a assinatura do Mandato Francês da Síria. Do lado francês, o General LaSalle (Everett Sloane) pretende utilizar a força contra os sírios que continuam a aumentar o número de baixas francesas, algo que vai contra as ideias do Coronel Feroud (Lee J. Cobb), que pretende seguir pela via pacífica e negociar com Emir Hassan (Onslow Stevens), o sanguinário líder rebelde. Se Harry é um indivíduo aparentemente frio e imoral, já Feroud parece concentrar na sua pessoa várias qualidades, procurando uma resolução pacífica entre sírios e franceses, envidando esforços para travar os negócios no mercado negro, tentando descobrir quem se encontra a traficar armas para os sírios, tendo pelo caminho uma relação algo conturbada com Violetta (Märta Torén). Durante um violento atentado a um clube nocturno chamado Moulin Rouge, perpetrado pelos sírios, Harry conhece Violetta, interessando-se por esta. Oferece-lhe o casaco, um trago de bebida e o seu cigarro que logo fica marcado pelo batom de Violetta, embora Feroud não ache muita piada a esta aproximação. Enquanto isso, Balukjian (Zero Mostel), um falso amigo de Harry, denuncia que este é o negociador de armas, algo que conduz o protagonista a tentar fugir de Damasco até ao Cairo, tendo a companhia de Violetta, também ela desejosa de sair do local. A fuga corre mal, tal como tinha corrido mal o anterior negócio que Harry pretendia fazer com Emir Hassan, com o personagem interpretado por Humphrey Bogart a ver-se confrontado no último terço com algumas questões de ordem moral que vão desafiar o seu cinismo, bem ao jeito de "Casablanca" e de vários outros personagens que "Bogie" interpretara (veja-se em "To Have and Have Not") ao longo da sua carreira. 

 Humphrey Bogart consegue como poucos criar uma enorme afinidade entre o seu personagem e o espectador, mesmo quando interpreta um indivíduo oportunista, cínico e fumador, que parece apenas pensar na sua pessoa como Harry Smith. Este contrasta com o personagem interpretado por Lee J. Cobb, uma espécie de Victor Lazlo, idealista, pronto a defender uma via pacífica na presença francesa no território sírio. Por sua vez, Märta Torén interpreta uma espécie de femme fatale, uma mulher sedutora, pronta a despertar a atenção dos homens, embora raramente pareça entregar o seu coração, apresentando alguma superficialidade a nível de personalidade e comportamentos (algo que se adapta também à construção da personagem). Vale ainda a pena realçar Onslow Stevens com o seu emir Hassan a ser um personagem maioritariamente unidimensional, pouco dado a mostrar grandes doses de humanidade, surgindo como um sanguinário (apesar do final moralista do filme), com o filme a explorar pouco que a Síria é que se encontrava a ser ocupada pelos franceses. O argumento raramente sobressai, mantendo-se pela mediania, embora beneficie de intérpretes como Humphrey Bogart e Lee J. Cobb, capazes de atribuírem alguma dimensão aos personagens. No entanto, o contexto político do pós-I Guerra Mundial é demasiado descurado, sendo que o próprio território da Síria é pouco explorado, notando-se que "Sirocco" é claramente filmado em estúdio, estando longe de ser convincente na construção dos cenários exteriores. Já o trabalho de fotografia consegue sobressair em alguns momentos, destacando-se o aproveitamento na utilização das sombras (veja-se como o personagem de Humphrey Bogart é acompanhado pelas sombras da janela a simbolizarem um conjunto de grades, como que pressagiando um destino menos agradável para o seu Harry Smith), ao longo de uma obra marcada pela tensão do conflito entre sírios e franceses. Curtis Bernhardt cumpre na realização deste filme que é muito fruto da sua época, passando uma mensagem pacifista anti-guerra, surgindo eivado de elementos de obras como "Casablanca", não faltando o americano cínico que no final até mostra alguns escrúpulos. O enredo é algo previsível, as temáticas ressoam demasiado a "Casablanca", mas nem por isso "Sirocco" deixa de cumprir em vários quesitos a que se propõe, expondo mais uma vez a enorme credibilidade que Humphrey Bogart atribui aos personagens que interpreta.

Título original: "Sirocco". 
Título em Portugal: "Vento do Deserto".
Realizador:  Curtis Bernhardt.
Argumento: A.I. Bezzerides e Hans Jacoby.
Elenco: Humphrey Bogart, Märta Torén, Lee J. Cobb.

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