16 junho 2014

Resenha Crítica: "Queen Christina" (1933)

 Existe uma aura quase divina a rodear a figura de Greta Garbo, que nos encanta, deslumbra e apaixona em cada gesto que a actriz efectua. Enigmática dentro e fora do ecrã, Greta Garbo teve "Queen Christina" uma das suas obras de maior relevo e um dos seus grandes papéis, onde a sua faceta misteriosa tem liberdade para contaminar o ecrã, enquanto a "esfinge sueca" dá vida à Rainha Cristina da Suécia. Esta adaptação bastante livre da história da Rainha Cristina marcou um regresso de Greta Garbo à representação após um hiato de dezoito meses, com esta a dar vida a uma personagem que procura a todo o custo conciliar a procura pela independência no capítulo da sua vida privada com o seu papel como regente (uma situação semelhante à de Garbo que procurou quase sempre separar a sua vida privada da sua vida profissional), algo expresso desde o início quando encontramos esta, ainda jovem, a ter de assumir o lugar do seu pai após este último ter sido morto em combate. O primeiro terço do filme serve para estabelecer o contexto histórico, nomeadamente, a Suécia durante o Século XVII, tendo como pano de fundo a Guerra dos Trinta Anos, bem como a personalidade da Rainha, uma mulher dedicada ao seu povo e ao conhecimento, que procura rechaçar os possíveis candidatos a marido, entre os quais o primo Karl Gustav (Reginald Owen) e o Conde Magnus (Ian Keith a sobressair como este personagem que facilmente desperta a nossa antipatia). No sentido de se afastar temporariamente dos afazeres da corte e de toda a pressão sobre a sua pessoa, Christina decide disfarçar-se de cavaleiro e passar a noite numa estalagem, onde acaba por conhecer Don Antonio (John Gilbert), Conde Pimentel, Cavaleiro do Império Romano e enviado extraordinário de Sua Majestade, Filipe, Rei da Espanha, Aragão e Castela. Sem saber que estava a falar com uma mulher, Antonio começa a falar amenamente com a protagonista, até ficar no mesmo quarto que esta e descobrir o sexo da interlocutora. Os dois acabam por desenvolver uma relação amorosa, sempre sem que a protagonista revele a sua verdadeira identidade, procurando surpreender o seu interlocutor quando Antonio se reúne com a Rainha e descobre que esta e Christina são a mesma pessoa. Este tinha como missão entregar uma proposta de casamento de Filipe IV, mas o coração da Rainha Christina foi conquistado por este nobre, algo que promete trazer muitos problemas a ambos, com o Conde Magnus a procurar sabotar a relação e a incitar a revolta popular contra o espanhol.

Rouben Mamoulian realiza um drama de pendor histórico marcado por momentos sublimes, ficando particularmente na memória o olhar vazio da personagem interpretada por Greta Garbo num dos últimos planos de “The Queen Christina”, bem como a cena em que esta toca em vários objectos do quarto para recordar o momento que vive. Greta Garbo é a alma deste filme, interpretando uma mulher com ideais vincados, aparentemente forte, mas também dada a romantismos, atribuindo um carisma, sensualidade e presença muito próprios à sua personagem. Christina, mulher e Rainha, frágil e forte, sensual e comum, surge exposta em todas as suas vertentes e complexidade por Greta Garbo, que tem no elenco a companhia de John Gilbert, um actor cuja transição do cinema mudo para os talkies não foi muito feliz, sobretudo devido aos seus problemas com Louis B Mayer e com o álcool. "Queen Christina" marcou a quarta e última colaboração de Gilbert com Greta Garbo, após esta última exigir a sua presença no filme, algo que não viria a revitalizar a carreira do actor que morreria precocemente. John Gilbert tem uma química visível com Greta Garbo (fora do ecrã tiveram uma relação), com a dupla a dar vida a um casal improvável, cujos elementos contam com um estatuto social e nacionalidades distintas, argumentos aparentemente insuficientes para separar Christina e Antonio ao longo deste drama recheado de liberdades históricas, mas também de elevados valores de produção. Não falta um guarda-roupa com algum cuidado, cenários bem aproveitados (sobretudo no quarto da estalagem), embora também estejam presentes anacronismos (a começar pelos diálogos), num filme que até causou alguma polémica para a época. Veja-se a possibilidade de Antonio poder dormir na mesma cama que outro homem, algo problemático para os censores da época, ao longo de um filme onde não faltam sacrifícios por amor, seja à nação ou à pessoa amada, duelos, uma morte marcante e alguns planos belíssimos. "Queen Christina" foi um sucesso junto de parte da crítica. Na Modern Screen salientou-se "Triumph for Garbo! One of the great pictures of the past few years, this historical epic makes a sustained drive for artistry", enquanto na "Photoplay" o crítico não poupou elogios a Garbo: "The magnificent Garbo, after an absence of over a year, makes a glorious reappearance on the screen", um conjunto de elogios mais do que merecidos ou não estivéssemos perante uma obra sublime. Drama de pendor histórico com momentos sublimes, "Queen Christina" deixa-nos perante uma magnífica Greta Garbo, naquele que é um dos grandes papéis da sua carreira, com a lendária actriz a mostrar o seu enorme talento, ao longo de um filme bem executado por Rouben Mamoulian.

Título original: "Queen Christina".
Título em Portugal: "Rainha Cristina". 
Realizador:  Rouben Mamoulian.
Argumento: S. N. Behrman e Ben Hecht.
Elenco: Greta Garbo, John Gilbert, Ian Keith, Lewis Stone, Elizabeth Young, Reginald Owen.

Sem comentários: