01 junho 2014

Resenha Crítica: "Quantum of Solace" (2008)

 A minha ligação com "Quantum of Solace" nem sempre foi fácil. Se tivesse escrito este texto aquando do lançamento original do filme, muito provavelmente a crítica não seria tão positiva, mas cada vez mais acho que estava errado, com "Quantum of Solace" a revelar-se como uma interessante adição da saga de James Bond. Seguindo os acontecimentos de "Casino Royale", o reboot da saga, "Quantum of Solace" partilha muitas das qualidades do filme realizado por Martin Campbell, não faltando um protagonista a deixar-se ainda levar muito pelos ímpetos, a sofrer com o destino de Vesper Lynd e a não aceitar a sua suposta traição, embora o sacrifício desta até tenha permitido salvar a sua vida. Este é um James Bond marcado por uma morte difícil de ultrapassar, cujas marcas ainda são visíveis no seu comportamento. Não dorme, mostra uma frieza implacável, procura vingança, espalhando a destruição no cumprimento da missão incumbida pelo MI6, com a instituição a ter de lidar com a organização Quantum, que até então desconhecera. Logo no início do filme temos Mr. White (Jesper Christensen) a ser transportado por James Bond, após este último o ter capturado no final do filme anterior, tendo em vista a ser interrogado por M (Judi Dench). White logo revela que a organização se encontra instalada em vários sectores da sociedade, incluindo no MI6, algo comprovado quando Mitchell, um agente duplo, procura eliminar M, sendo desde logo perseguido por Bond que não tem problemas em assassinar o inimigo. Este procura encontrar informação na casa de Mitchell, descobrindo elementos que o conduzem a Edmund Slate (Neil Jackson), um assassino contratado por Dominic Greene (Mathieu Amalric) para eliminar Camille Montes (Olga Kurylenko), a amante do personagem interpretado por Mathieu Amalric. Bond salva Camille, acabando por descobrir que Dominic, um ambientalista proprietário da Greene Planet, conhecido por ter vastas influências, está ligado à organização Quantum. Dominic encontra-se a negociar com o General Medrano (Joaquín Cosío) para voltar a colocar este último à força no poder, salientando que "Faremos a segurança particular, subornaremos as autoridades certas e temos 26 países prontos para reconhecerem oficialmente o novo Governo Boliviano".

Em troca, Dominic pede um pedaço de deserto, especulando-se que o território pode ter petróleo (embora as verdadeiras intenções do antagonista só sejam conhecidas no último terço), algo que lhe servirá para negociar com a CIA, em particular com Gregg Beam (David Harbour), uma situação que não agrada a Felix Leiter (Jeffrey Wright), um aliado de Bond. Diga-se que Dominic Greene, membro da organização secreta Quantum, encontra-se com ligações a vários elementos poderosos e influentes, incluindo junto do Governo Britânico, uma situação que vai dificultar ainda mais a missão de Bond em encontrar White, desmantelar a organização Quantum, descobrir e revelar as intenções de Greene, indo pelo caminho contar com alguma desconfiança no MI6, com excepção de M. Não falta muita acção e emoção a esta missão profissional e pessoal de James Bond, com este a voltar a deslocar-se por vários locais ao redor do Mundo, incluindo Itália, Bolívia, Áustria, Inglaterra e Rússia, enquanto procura cumprir a sua missão e encontrar alguma paz interior. O álcool é consumido em excesso mas não apaga a dor pela morte de Vesper, com Bond a procurar ainda encontrar o antigo namorado desta, um elemento também ele com ligações à organização criminosa. Bond corre, luta imenso corpo a corpo, salta de um lado para o outro, surge aparentemente incansável, forma alianças improváveis, seduz mulheres, procura encontrar paz de espírito, enquanto Daniel Craig revela-se bastante competente a expor as diferentes vertentes deste icónico personagem, dando uma dimensão imensa ao mesmo, surgindo credível quer nas cenas de acção, quer nas cenas emocionalmente mais intensas, tendo em Dominic Greene um antagonista relativamente à altura. Mathieu Amalric salientou que procurou moldar a sua interpretação de forma a Greene ter "the smile of Tony Blair [and] the craziness of Sarkozy", algo que em parte consegue, construindo um antagonista que muito tem deste tempo e até da Guerra Fria, não sendo uma novidade assim tão grande que os serviços secretos contribuíram para colocar ditadores na América do Sul. Marc Foster salientou em entrevista que procurou dar algum realismo a este antagonista e entroncá-lo na actualidade: "Because Bond plays it real, I thought the political circumstances should be real too, even though Bond shouldn't be a political film. I thought the more political I make it, the more real it feels, not just with Bolivia and what's happening in Haiti, but with all these corporations like Shell and Chevron saying they're green because it's so fashionable to be green. During the Cold War, everything was very clear, the good guys and the bad guys. Today there's much overlapping of good and bad. It isn't as morally distinct, because we all have both elements in us".

Temos aqui um comentário bastante crítico aos elementos que contribuíram para a colocação destes Governos, mas também para com as "organizações supostamente verdes", com "Quantum of Solace" a colocar M e Bond como alguns dos poucos personagens cuja honestidade é à prova de tudo e todos. Já Greene é um oportunista bem relacionado, rodeado de capangas prontos a efectuar o trabalho sujo, cujas intenções nem sempre são claras, tendo em Camille uma "pedra no sapato". Camille procura vingança em relação a um hediondo acto cometido pelo General Medrano à sua família, tendo em James Bond um elemento com quem vai partilhar a dor de ter uma vingança a cumprir, com ambos a serem personagens aparentemente frios, embora nem por isso livres de sentimentos. Temos ainda a presença pueril de Gemma Arterton como Strawberry Fields (mantém-se a tendência da Bond Girl ter um nome com duplo sentido), uma agente do MI6 que se envolve com Bond na Bolívia e é rapidamente eliminada, num momento a evocar a morte de Jill Masterson em "Goldfinger". Vale ainda a pena realçar Judi Dench como M, com esta a surgir com uma figura quase maternal e autoritária para com James Bond, ao longo de um filme cujo argumento e enredo podem nem sempre convencer e estar à altura de "Casino Royale", mas está longe de deixar de ser uma das boas adições na saga, seguindo os acontecimentos do reboot e procurando manter a faceta mais realista do mesmo. Claro que numa obra da saga de James Bond o realismo nunca é algo que se pede, mas existe uma procura de criar um antagonista credível, de tornar as cenas de acção menos dependentes do armamento e mais físicas, um protagonista ainda a cometer alguns erros embora aprenda com os mesmos, ao longo de um filme que respeita o legado de 007. Desta vez não temos Martin Campbell como realizador mas sim Marc Forster, um realizador que não deslumbra mas também não se espalha ao comprido, criando um filme de acção intenso, com grande sentido de ritmo, colocando o protagonista de pista em pista, de adversidade em adversidade, enquanto procura cumprir os seus intentos. Este procura voltar a sentir confiança em relação aos outros seres humanos após se ter sentido traído por Vesper Lynd, pretendendo soltar os fantasmas do seu passado, enquanto se revela aparentemente inabalável no cumprimento da sua missão, com Daniel Craig a incutir uma dimensão adicional ao personagem, beneficiando de uma procura latente do argumento em dar uma maior complexidade a James Bond, algo que contribui para incrementar mais uma obra de bom nível desta duradoura saga cinematográfica.

Título original: "Quantum of Solace".
Título em Portugal: "007: Quantum of Solace".
Realizador: Marc Forster.
Argumento: Paul Haggis, Neal Purvis, Robert Wade.
Elenco: Daniel Craig, Olga Kurylenko, Mathieu Amalric, Giancarlo Giannini, Jeffrey Wright, Judi Dench, Gemma Arterton.

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