28 junho 2014

Resenha Crítica: "The Only Son" (1936)

 Yasujiro Ozu é exemplar na exploração dos relacionamentos familiares, dotando as suas obras de um ritmo e "voz" muito próprios. "The Only Son", lançado originalmente em 1936, marca a primeira incursão de Yasujiro Ozu nos talkies, com o cineasta a mostrar estar mais do que preparado para a mudança, ao mesmo tempo que nos apresenta uma história muito ao estilo de filmes como "I Was Born, But...", "A Story of a Floating Weeds", "Floating Weeds", "Ohayo", entre muitas outras que constam no seu currículo e que abordam os relacionamentos familiares com enorme subtileza. Não faltam as expectativas e decepções entre pais e filhos, neste caso entre uma mãe e o seu filho, mas também a procura de um indivíduo em cuidar da sua família na cidade de Tóquio ainda no período pré-II Guerra Mundial e durante uma crise económica que tolda os sonhos daqueles que ambicionam vencer na vida. Esse indivíduo é Ryosuke (Shinichi Himori), um homem que dá aulas à noite, que recebe a sua mãe, Tsune Nonomiya (Chouko Iida), em Tóquio, dando-lhe a notícia que é casado com Sugiko e tem um filho. A primeira vez que encontramos Tsune, a narrativa encontra-se em 1923, com esta a descobrir que o filho se inscreveu no ensino secundário, embora esta não tivesse dado autorização devido a não ter posses para isso. Tsune é viúva e trabalha numa fábrica em Shinshū, acabando por aceitar os conselhos de Ookubo (Chishu Ryu, um "actor fetiche" de Ozu), o professor do petiz, e investir na educação do mesmo. A narrativa logo avança para 1936, deixamos de estar no pequeno espaço de Shinshu e passamos para a metrópole Tóquio, marcada por estruturas industriais, gentes sonhadoras e sonhos por cumprir, a começar por Ryosuke. Este procura agradar a sua mãe, mas logo os seus problemas financeiros começam a vir ao de cima, embora a sua esposa seja dedicada e compreensiva e a sua progenitora alguém que inicialmente esconde a sua decepção, mas também um certo orgulho por ver que criou um bom homem. Os relacionamentos humanos com Ozu são expostos com enorme delicadeza e em "The Only Son" este volta a mostrar a sua singularidade, ao longo de uma história marcada por alegrias e decepções de uma mãe para com o seu filho, a procura deste último em vencer na vida e mostrar o seu valor, enquanto parece existir um certo pessimismo em relação a este espaço das margens de Tóquio que nos é apresentado.

 Este pessimismo já tinha sido visível em obras como "Tokyo Chorus", "Woman of Tokyo" e "An Inn in Tokyo" (em ambos os exemplos também temos os sacrifícios de um familiar em relação ao outro), onde o espaço citadino era representado como propiciador de desigualdades e dificuldades no interior de uma sociedade aparentemente incapaz de dar condições aos seus cidadãos. No caso de "The Only Son" essa situação é visível no protagonista, um homem que estudou mas tarda em encontrar estabilidade, mas também em Ookubo, que se viu na contingência de ter de mudar de profissão para sobreviver, tendo um restaurante especializado na venda de costeletas. É um espaço citadino exposto com alguma poesia e ao mesmo tempo dureza, com os planos fixos típicos de Ozu (incluindo os "planos tatami" nos espaços fechados decorados a preceito) a serem capazes de expor paradigmaticamente a integração e desintegração dos seus personagens no interior deste território das margens da cidade de Tóquio. Temos ainda os célebres planos sem a presença humana (pillow shots), incluindo a focar a roupa estendida, utilizados para dividir as cenas, algo comum nos filmes do cineasta japonês, enquanto este volta a tirar interpretações sublimes dos seus actores, em particular Shinichi Himori. Este personifica na perfeição um certo sentimento de culpa do seu personagem em não conseguir vencer na vida, flutuando entre um conformismo e inconformismo em relação ao destino, com Ozu a colocá-lo muitas das vezes, bem como aos restantes personagens, a parecer que se está a dirigir às nossas pessoas. Ryosuke é o filho único do título, um personagem que lida com as dificuldades do Japão do seu tempo, um território marcado ainda por valores tradicionais (veja-se desde logo o vestuário dos personagens) e a mudança (veja-se o talkie que o protagonista vê com a mãe no cinema), ao mesmo tempo que o cineasta explora um pouco o contraste de gerações. Veja-se desde logo a atitude de Tsune para com o cinema, pouco interessada, sendo uma mulher que passou toda a sua vida dedicada ao trabalho. Esta procura motivar o filho a conseguir os seus objectivos, enquanto Yasujiro Ozu nos compele a seguir cada passo destes personagens, a seguir cada plano magnificamente elaborado e a apaixonar-nos pela enorme delicadeza que atribui às suas obras. 

Título original: "Hitori musuko".
Título em inglês: "The Only Son". 
Título em Portugal: "O Filho Único". 
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento: Tadao Ikeda e Masao Arata.
Elenco: Chōko Iida, Shin'ichi Himori, Chishū Ryū.

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