13 junho 2014

Resenha Crítica: "The Maltese Falcon" (1941)

 Depois de pegar numa relíquia em formato de falcão, o Detective Tom Polhaus (Tom Bond) pergunta a Sam Spade (Humphrey Bogart) sobre o material de que é feito este objecto pesado, algo que o protagonista responde: "The, uh, stuff that dreams are made of". Esta é uma das falas mais marcantes de "The Maltese Falcon" e arriscamos que da História do Cinema, sendo reveladora da desilusão causada pela descoberta de um objecto supostamente valioso: O Falcão de Malta, uma relíquia que move boa parte dos personagens deste filme. O objecto foi elaborado tendo em vista a resultar numa oferta dos Templários de Malta a Carlos X, mas acabou por ser roubado por piratas. Desde então tem andado perdido e sujeito à cobiça de vários curiosos. É na busca por este objecto valioso que se vai envolver Sam Spade, um detective algo imoral que tem um escritório com Miles Archer (Jerome Cowan). Sam é um indivíduo cínico, pouco dado a grandes amizades, pronto a lançar algumas falas sarcásticas, tendo um caso com Iva, a mulher de Miles. A chegada de Ruth Wonderly (Mary Astor) surge como um momento de mudança para os detectives, com esta a contactá-los para encontrar a irmã, que se encontra supostamente envolvida com Floyd Thursby, um indivíduo de aparente má índole. Archer apresta-se a ir com Ruth Wonderley ao encontro da irmã e de Floyd, sendo assassinado no local, com a identidade do assassino a ser desconhecida, com John Huston a procurar explorar o mistério em volta do mesmo. Sam é chamado ao local pelo Detective Tom Polhaus, acabando por ser considerado suspeito pela morte de Floyd pela parte de Dundy (Barton MacLane), o superior do segundo. Sam procura esconder a identidade de Ruth, que afinal até se chama Brigid O'Shaughnessy, acabando por contactá-la e revelar saber que esta não se encontrava totalmente a falar a verdade. Pelo caminho, Sam é contactado por Joel Cairo (Peter Lorre), um indivíduo que lhe oferece 5 mil dólares pelo Falcão de Malta, procurando saber se o protagonista tem o objecto. Quem também pretende o falcão é Kasper Gutman (Sydney Greenstreet), um indivíduo imponente que coloca Wilmer (Elisha Cook, Jr.) a seguir o protagonista. Os destinos destes personagens acabam por se cruzar ao longo deste filme noir cheio de mistério realizado por John Huston, uma obra memorável, definidora do subgénero e da carreira do cineasta.

Estreante na cadeira de realizador com "The Maltese Falcon", a adaptação da obra homónima de Dashiel Hammett, Huston tem aqui um início de uma carreira marcada por sucessos, dando a Humphrey Bogart um papel brilhante, com o actor a contribuir para a imagem do detective noir, quando até nem era a primeira opção para o papel. Este é cínico, duro, capaz de ironizar com polícias, trair o parceiro de trabalho e até preocupar-se em tirar o seu nome quando Miles é assassinado. No entanto, é marcado por valores suficientes para tentar descobrir quem eliminou o sócio, tendo em Brigid uma fonte de desejo e dissimulação, com esta a surgir como a femme fatale tão típica destes filmes, uma mulher bela e perigosa, traiçoeira e sensual. Se Bogart consegue sobressair como este detective que fuma, bebe, mente, já Mary Astor revela-se uma parceira à altura, conseguindo atribuir um mistério latente à sua personagem, beneficiando da atmosfera inquietante que envolve o destino dos protagonistas. Diga-se que o elenco secundário é um luxo. Peter Lorre é praticamente perfeito para o papel de Joel Cairo, com os seus trejeitos meio efeminados a sobressaírem e a sua malícia a ficar implícita. Sydney Greenstreet surge cheio de carisma como o "Fat Man", ou melhor, Kasper Gutman, protagonizando com Bogart alguns momentos memoráveis. A interpretação de Greenstreet é ainda incrementada pelo trabalho de câmara, pronta a realçar a sua imponência, enquanto o filme conta ainda com uma das imagens de marca dos noir: a paradigmática utilização das sombras (muito inspirado nos filmes do chamado Expressionismo Alemão). Estas dominam os cenários, ficando particularmente gravado na memória os célebres efeitos dos estores cujas sombras simbolizam as grades da prisão (boa utilização do chiaroscuro), mas também a metáfora das grades do elevador que se fecham e deixam Brigid presa, algo premonitório do que lhe poderá acontecer no futuro. Huston pontua o filme de simbolismos, ao mesmo tempo que explora o desejo e obsessão humana, tendo como pano de fundo a cidade de San Francisco, num filme revelador de um certo cinismo de uma sociedade em mudança. John Huston revela-se exímio na realização, explorando o mistério em volta do objecto, criando um universo narrativo marcado por personagens ambíguos, utilizando paradigmaticamente a câmara de filmar para incrementar estes episódios que nos apresenta. Acompanhado por um argumento de peso, falas marcantes e interpretações de grande nível, "The Maltese Falcon" é um dos grandes filmes noir e uma das obras maiores da História do Cinema.

Título original: "The Maltese Falcon".
Título em Portugal: "Relíquia Macabra".
Realizador: John Huston.
Argumento: John Huston.
Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Gladys George, Peter Lorre, Sydney Greenstreet.

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