26 junho 2014

Resenha Crítica: "An Inn in Tokyo" (1935)

 Em "An Inn in Tokyo", o seu último filme mudo ainda preservado ("Daigaku yoitoko" encontra-se perdido), Yasujiro Ozu coloca-nos perante as gentes das margens de Tóquio, depauperadas e sem grandes esperanças de melhorar as condições de vida, naquele que pode ser considerado o último capítulo da informal "Trilogia de Kihachi", formada ainda por "Passing Fancy" (1933) e "A Story of Floating Weeds" (1934). Em comum estes três filmes têm um protagonista chamado Kihachi (Takeshi Sakamoto), com Ozu a voltar a dar-nos os seus planos sublimes, onde não faltam os célebres pillow shots (veja-se o foco nos postes eléctricos), mas também uma história centrada numa família, destroçada e longe das gentes de classe média que encontramos em várias das obras do cineasta japonês, embora até entronquem em películas como "Passing Fancy" (o pai viúvo) e "A Story of a Floating Weeds" (veja-se que tínhamos as gentes remediadas e um filho que foi educado pensando que o pai tinha falecido). As famílias que nos são apresentadas em "An Inn in Tokyo" são incompletas, não só na felicidade, mas também nos seus membros, a começar pelo trio de protagonistas, formado por Kihachi (Takeshi Sakamoto) e os seus dois filhos, Zenko (Tokkan Kozo) e Masako (Takayuki Suematsu), enquanto o primeiro procura em vão por emprego pela zona industrial citadina de Tóquio durante a Grande Depressão. Os filhos procuram encontrar cães abandonados para entregá-los ao abrigo de um programa do governo onde é oferecida uma recompensa monetária a quem for vacinar estes animais contra a raiva. Pelo caminho, o trio conhece Otaka (Yoshiko Okada), uma mulher empobrecida que desperta a atenção de Kihachi, e a sua filha Kimiko (Kazuko Ojima), uma jovem que vemos regularmente a deitar a língua de fora para os rapazes. Estes são jovens, algo que explica a decisão de Zenko de gastar o dinheiro da recompensa num chapéu, ao invés de dar ao pai para comprar comida, não tendo ainda a perfeita noção dos problemas dos adultos. O progenitor acaba por encontrar Otsune (Choko Iida), uma amiga de infância que lhe arranja emprego e aluga um quarto, embora este aparente momento de mudança logo termine em desgraça. 

Kihachi ainda procura ajudar Otaka, cuja filha até forma amizade com Zenko e Masako, protagonizando alguns momentos de candura, diversão e ingenuidade típicos da infância com estes petizes, contrastando com o duro mundo dos adultos, que até acaba por afectar e influenciar estes jovens. Yasujiro Ozu coloca-nos mais uma vez perante os relacionamentos entre pais e filhos, desenvolvidos de forma delicada, para além de explorar o mundo das crianças, em "An Inn in Tokyo", um dos seus últimos filmes mudos e uma das suas obras que merece muita da nossa atenção. Os planos, maioritariamente fixos, são habilmente elaborados, explorando os cenários das margens por onde circulam estes personagens, onde a esperança chega quase sempre tarde e acompanhada por revezes dolorosos, enquanto o cineasta arranca mais uma vez interpretações dignas de atenção ao seu elenco. As interpretações são de bom nível, destacando-se Takeshi Sakamoto, um colaborador algo habitual de Yasujiro Ozu (tendo estado presente em filmes como "Wakodo no yume","Otona no miru ehon - Umarete wa mita keredo", "Ukikutsa Monogatarai", entre outros), como este pai de dois filhos, viúvo, algo desastrado, sem grandes perspectivas, bem intencionado mas nem por isso feliz nas suas acções. O momento em que este enche o seu copo de saqué (os personagens de Ozu bebem frequentemente esta bebida alcoólica), de forma a ganhar coragem para um acto definidor da sua vida, é marcante, intenso, sublime, eivado de mistério e dor quando descobrimos o que este fez. Ficamos perante a compaixão no meio da desgraça, onde o saqué arde pela garganta, mas quem mais queima são os actos que se seguem, onde um crime é cometido, quando o objectivo passava por ajudar outrem. A ingestão de saqué surge assim cheia de simbolismo, tal como a presença do chapéu de polícia do filho do protagonista (simbolizando um futuro encontro com as autoridades), entre muitos outros objectos, com Ozu a trabalhar a imagem e os símbolos como tão bem sabe fazer. O cineasta contribui ainda para as boas interpretações dos restantes elementos do elenco, colocando os elementos mais jovens a surgirem credíveis e prontos a roubarem a nossa atenção, não faltando os célebres gags entre as crianças, neste caso a língua de fora e a sincronia de movimentos, tal como acontecera com os jovens de "I Was Born, But...", "Ohayô", entre outras obras. "An Inn in Tokyo" surge ainda como uma obra muito comparada aos filmes do neo-realismo italiano, em particular a "Ladri di biciclette" de Vittorio de Sica, com Ozu a deixar-nos perante as gentes das margens a lidarem com a pobreza e as adversidades, embora as comparações entre ambas as películas devam ser vistas com algumas reservas. É um universo narrativo algo pessimista este que Yasujiro Ozu nos apresenta, marcado por desemprego, poucas esperanças e um lugar nem sempre aprazível para os mais jovens, exposto de forma bela, mas nem por isso menos dura pelo cineasta. 

Título em inglês: "An Inn Tokyo".
Título original: "Tôkyô no yado".
Realizador: Yasujiro Ozu
Argumento: Yasujiro Ozu, Masao Arata, Tadao Ikeda.
Elenco: Takeshi Sakamoto, Yoshiko Okada, Choko Iida, Kazuko Ojima.

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