02 junho 2014

Resenha Crítica: "I Was Born, But..." (1932)

 Os momentos iniciais de "I Was Born, But..." colocam-nos perante a chegada da família Yoshi à sua nova habitação, localizada nos subúrbios de Tóquio, perto da casa do chefe de Kennosuke (Tatsuo Saito), o pai da dupla de protagonistas. Esta família é composta por Kennosuke, a sua esposa Haha (Mitsuko Yoshikawa) e os seus dois filhos Keiji (Tomio Aoki) e Ryoichi (Hideo Sugawara). Keiji e Ryochi logo são alvos das ameaças dos outros rapazes (rapariga não entra no universo de relacionamento destas crianças), incluindo Taro (Seiichi Kato), o filho do chefe do pai de ambos, bem como uma criança mais alta e ameaçadora, com estes a temerem os colegas a ponto de faltarem às aulas. Enquanto faltam aos seus deveres estudantis, Keiji e Ryoichi fumam, treinam a caligrafia, dialogam, convivem, até serem obrigados pelo pai a regressar às aulas, acabando aos poucos por formar amizade com Taro. Demoram a integrar-se mas aos poucos criam amizades, com Yasujiro Ozu a explorar o quotidiano destes jovens enquanto os mesmos se encontram juntos. Quando compram a entrada na casa de Taro para ver filmes caseiros, pagando com ovos de perdizes, um produto na moda junto destes jovens por pensarem que lhes dá força, Keiji e Ryochi logo descobrem que o pai faz uma série de brincadeiras para agradar ao seu chefe, algo que os envergonha, com ambos a não compreenderem bem porque é que o progenitor tem de se rebaixar daquela maneira junto do superior. O humor que caracterizava a narrativa logo dá espaço para o drama entrar em cena, com a primeira desilusão dos dois irmãos em relação ao pai a chegar, conduzindo a comportamentos pouco simpáticos junto do progenitor (a fazer lembrar por exemplo os jovens de “Ohayo”, um filme realizado por Yasujiro Ozu). Estes chegam a discutir com o pai, enquanto Kennosuke fica algo sentido, com o momento em que os jovens visualizam o vídeo a colocar um tom mais sério neste drama familiar de enorme leveza. Yasujiro Ozu deixa-nos perante um conjunto de jovens em transição para a adolescência, enquanto lidam com problemas dos adultos, perdendo alguma inocência, embora até reproduzam na escola as tácticas dos seus pais (será assim tão diferente a oferta do ovo em relação à procura do pai de Keiji e Ryochi em agradar ao chefe), algo que exibe uma certa hierarquização social, mesmo no campo escolar.

Yasujiro Ozu filma os acontecimentos com enorme graciosidade e simplicidade, captando elementos da meninice dos seus dois jovens protagonistas, integrando-os no mundo dos adultos embora não os poupe de alguma ingenuidade típica da idade. Para estes ainda tudo é uma novidade, tendo no confrontar de um novo grupo de rapazes o seu maior desafio, enquanto estudam para ter uma vida melhor, embora estejam mais próximo de ser como a roda presa na lama no início do filme, descobrindo que ascender na vida não é tão fácil como estes esperariam. Keiji e Ryochi podem não compreender o porquê do pai ser um assalariado, mas nutrem uma notória amizade um pelo outro, com Yasujiro Ozu a arrancar interpretações convincentes dos elementos mais novos, conseguindo abordar como poucos estas temáticas relacionadas com as crianças, explorando os seus relacionamentos com a família e os colegas, os seus comportamentos dentro e fora da sala de aula, criando a espaços uma sincronia entre os movimentos de Keiji e Ryochi que adensam a ligação destes e revelam o cuidado colocado na elaboração da obra. “I Was Born, But...” pode ainda ser inserida nas obras mudas de Ozu nas quais este procura abordar temáticas de pendor social, algo que se pode verificar em “Tokyo Chorus”, onde tínhamos um pai desempregado que procurava cuidar da esposa e dos seus três filhos, bem como no mais dramático “An Inn in Tokyo”. Esta foi a primeira obra de Yasujiro Ozu a vencer um prémio Kinema Junpō Critics, situando-se no subgénero shomin-geki, associado aos trabalhos do cineasta, desenvolvendo com algum realismo temáticas relacionadas com as classes trabalhadoras, visível pelos Yoshi, uma família que não vive com grandes luxos, que se alegra com o dia da chegada do ordenado e procura manter a estabilidade financeira e de sentimentos. O realizador permeia a obra de planos maioritariamente estáticos (embora a câmara apresente alguma mobilidade), não faltando ainda os célebres pillow shots (veja-se o plano a fixar o poste da electricidade) ao longo desta comédia familiar que desenvolveu para o estúdio Sochiku, marcada por um cuidado a nível do aproveitamento dos cenários interiores (veja-se a casa da dupla de protagonistas em contraste com a do pai de Taro), mas também por temáticas que vão permear a carreira deste brilhante cineasta, entre as quais as relações familiares, no caso, entre pais e filhos, os ressentimentos mútuos e os laços que os unem, tudo com muito sentimento e uma delicadeza a que Yasujiro Ozu já nos habituou. 

Título original: "Otona no miru ehon - Umarete wa mita keredo"
Título em inglês: "I Was Born, But...".
Título em Portugal: "Eu Nasci, Mas...".
Realizador: Yasujiro Ozu. 
Argumento:  Akira Fushimi e Yasujiro Ozu.
Elenco: Tatsuo Saito, Tomio Aoki, Hideo Sugawara.

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