07 junho 2014

Resenha Crítica: "Holiday" (1938)

 Comédia romântica marcada pelas interpretação sublimes de Cary Grant e Katharine Hepburn, "Holiday" coloca-nos perante um indivíduo de origens humildes que se envolve com uma mulher de classe social mais alta, algo que promete trazer um conflito de ideais e objectivos entre ambos. Este indivíduo é Johnny Case (Cary Grant), um elemento falador, expansivo, sonhador, idealista, que fica noivo de Julia Seton (Doris Nolan), uma mulher que conhecera há dez dias. Julia vive numa habitação de luxuosa decoração e espaço, onde habita ainda Linda (Katharine Hepburn), a sua irmã, Ned (Lew Ayres, um actor capaz de roubar muitas das vezes o destaque das cenas), o outro irmão, e o pai, o poderoso banqueiro Edward Seton (Henry Kolker). Linda é o oposto da irmã, apresentando uma enorme vivacidade e simplicidade, vivendo presa no seu quarto e desprezando as festas e os protocolos do seu pai. Julia gosta deste estilo de vida, parecendo apresentar menos em comum com Johnny do que Linda, algo que até se vai notar com a personagem interpretada por Katharine Hepburn a expor algum interesse pelo noivo da irmã. Por sua vez, Ned é um indivíduo preso à dependência que tem ao pai, afogando as suas mágoas no álcool, parecendo ter quase sempre uma palavras mordaz a dizer. Este tinha talento para a música mas prendeu-se a um desmotivante emprego com o pai, tendo em Linda uma confidente e companheira de sonhos por cumprir. Linda e Ned parecem apreciar Johnny, bem como Potter (Edward Everett Horton) e a sua esposa (Jean Dixon), um casal amigo do protagonista, que partilham com o mesmo uma enorme simplicidade. As cenas da festa do anúncio do noivado exacerbam o quão errado parece esta relação entre Johnny e Julia, com este a surgir de fato e gravata, a deixar de lado o laço que tanto desagrada a amada. Enquanto isso, fora do grande salão, Linda, Ned, o casal Potter e posteriormente Johnny encontram alguma diversão, com Cary Grant a atribuir um carisma muito próprio a este personagem. Johnny é simples, procura manter-se fiel aos seus ideais, não se sente muito interessado pelo poder e o dinheiro, contrastando com os valores de Julia e Edward, com Cary Grant a exibir o espírito livre deste personagem, um elemento que não tem problemas em quebrar as regras de etiqueta e a expor a sua personalidade peculiar. O anúncio deste de que pretende juntar dinheiro para deixar brevemente de trabalhar e descobrir o seu lugar no mundo gera um certo mal-estar entre Johnny e Julia, colocando a relação em perigo, sobretudo devido à excessiva procura desta em mudar o personagem interpretado por Cary Grant. Linda ainda defende os ideais de Johnny e procura que a irmã reveja a situação, embora a personagem interpretada por Katharine Hepburn pareça estar sempre mais preocupada com o relacionamento do que Julia. 

Cary Grant tem em Katharine Hepburn uma colega à altura, naquela que é a terceira de quatro colaborações entre ambos. Esta incute uma enorme vivacidade na sua Linda, uma personagem que tanto tem das mulheres marcantes que interpretou em obras como "The Philadelphia Story", "Bringing Up Baby", duas screwball comedies de grande nível, um subgénero no qual se encaixa "Holiday". Linda é forte, impulsiva, sonhadora, rebelde, convicta das suas ideias, mas nem por isso deixa de apresentar algumas fragilidades, sendo um contraste latente com a fria personagem interpretada por Doris Nolan. Diga-se que não é uma novidade ver George Cukor a criar personagens femininas interessantes, com o cineasta a ter em "Holiday" mais uma agradável entrada de um recomendável currículo, aproveitando novamente a química entre Cary Grant e Katharine Hepburn, enquanto nos deixa perante uma screwball comedy marcada por confrontos entre classes, romances impossíveis, algum humor físico e uma história agradável. O argumento é relativamente simples, embora contenha alguns diálogos inteligentes e diversos momentos de humor bem elaborados, apesar da previsibilidade de toda a estrutura narrativa e do seu desfecho. É uma obra elaborada ainda na ressaca da Grande Depressão, existindo uma certo elogio às classes trabalhadores e ao inconformismo, neste caso ao protagonista, um indivíduo que subiu a pulso, embora conste que a sua ideia para deixar de trabalhar não tenha agradado de todo a um público a lidar com o desemprego. Diga-se que Johnny é o elemento que rompe e contrasta com o quotidiano dos ricos e favorecidos que nos são apresentados, concedendo alguma vida a uma habitação marcada pelo cinismo de diversos elementos que a rodeiam, incluindo Setom Cram, o pedante primo de Linda, um indivíduo que vive de aparências, algo que acontece também com Julia, dois elementos que contrastam com os valores do protagonista desta comédia sublime. Este nova adaptação da peça de teatro homónima da autoria de Philip Barry (a primeira foi realizada por Edward H. Griffith) surgiu ainda numa altura em que Katharine Hepburn se encontrava a ser considerada "veneno" para o box office, coleccionando fracassos, sendo que "Holiday" foi mais uma das obras sem grande sucesso em termos de receitas de bilheteira, embora a crítica e o tempo lhe tenham sido bastante positivos. Ficamos perante um filme agradável e despretensioso, realizado com engenho por George Cukor, marcado por um conjunto de cenários interiores que sobressaem, em particular a casa dos Seton, destacando-se ainda as interpretações de Katharine Hepburn e Cary Grant, uma dupla cuja dinâmica é sempre muito positiva, com estes a partilharem alguns momentos de relevo no grande ecrã. 

Título original: "Holiday". 
Título em Portugal: "A Irmã da Minha Noiva".
Realizador: George Cukor.
Argumento: Donald Ogden Stewart e Sidney Buchman.
Elenco: Katharine Hepburn, Cary Grant, Doris Nolan, Lew Ayres. 

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