03 junho 2014

Resenha Crítica: "Heleno" (2011)

 Entre os decadentes últimos dias de Heleno de Freitas e os seus tempos de glória como futebolista, "Heleno" revela-se um filme biográfico sempre mais competente no capítulo do desenvolvimento da vida particular e personalidade desta irreverente figura do que a abordar os seus feitos dentro do campo. Rodrigo Santoro convence e dá uma enorme dimensão ao seu personagem, quer quando este se encontra em decadência física e mental, quer no apogeu onde o seu lado temperamental o levou a ser temido por colegas e adversários, mas também o conduziu ao seu ocaso. Os recortes dos jornais que encontramos Heleno a tentar ingerir no início do filme, quando se encontra internado no hospício (em 1959), revelam os momentos de glória de outrora, não tão distantes quanto isso, quando este jogava no Botafogo, entre 1940 e 1948, onde participou em 235 partidas e marcou 209 golos. De "Príncipe Maldito" a "Gilda" (devido ao seu feitio temperamental), vários foram os epítetos atribuídos a este jogador que tem neste filme biográfico realizado por José Henrique Fonseca um interessante ponto de partida para ficarmos a conhecer um pouco da sua vida (embora de forma ficcional e algumas liberdades criativas à mistura), mas também de outros tempos do futebol. Hoje parece mais ou menos claro que seria impossível um jogador sobrepor-se de tal maneira a uma equipa, mesmo sendo um craque de valor reconhecido e ter comportamentos tão pouco profissionais que fariam Mario Balotelli parecer um menino. "Heleno" não tem problemas em deixar-nos perante a vida boémia deste homem, quer nas suas saídas nocturnas, onde bebia, fumava e conquistava mulheres, entre as quais a cantora Diamantina (Angie Cepeda), quer como jogador, onde arranjava problemas no balneário devido à sua forma directa e dura de criticar os colegas. José Henrique Fonseca não desculpabiliza o seu protagonista, nem tem problemas em expor o seu feitio irascível, enquanto Rodrigo Santoro brilha, quer nos momentos de glória do seu personagem, quer quando o seu olhar apresenta um vazio notório nos últimos tempos da sua vida, nomeadamente, quando a narrativa se encontra em 1959, ano da morte do atleta, quando tinha apenas 39 anos de idade.

A morte prematura de Heleno de Freitas não é surpresa, sobretudo se tivermos em conta todo o seu historial e modo de vida. Este contava ainda com uma grave doença degenerativa, algo que afectava o seu comportamento, para além de ser viciado em comprimidos e éter. Visto como "pé frio" devido a nunca ter vencido um campeonato pelo Botafogo, Heleno é vendido ao Boca Juniors por um valor elevado, embora fique apenas um ano na Argentina. No regresso a casa, este vê ser recusado o regresso ao Botafogo (uma situação que vai proporcionar alguns momentos emocionalmente intensos no filme), acabando por ingressar no Vasco da Gama onde ganha o seu primeiro título, o de campeão carioca. Este ingressaria ainda no Junior de Barranquilla (algo ignorado pelo filme) da Colômbia, até regressar ao Brasil para fazer uma época no Santos, efectuando por fim um jogo em 1953 pelo América, no estádio do Maracanã, cumprindo um sonho já numa fase descendente da sua carreira. A omissão do Junior de Barranquilla na carreira de Heleno não é a única alteração do filme, com a relação com Sílvia (Aline Moraes) a ter várias liberdades. Esta relação é complexa e não poderia ser duradoira, com Aline Moraes a explorar bem a solidão desta personagem que se sentia atraída por Heleno, embora este primasse pelas atitudes erráticas e pouco dadas a grandes fidelidades. Filmado belíssimamente a preto e branco, por vezes a parecer um sonho que ficou perdido pelas areias do tempo, "Heleno" aborda assim um conjunto interessante de elementos da vida de Heleno de Freitas, apresentando-nos a uma figura complexa, pronta a errar, com um enorme ego e vontade de vencer. Foi o maior ídolo da torcida do Botafogo até surgir Garrincha, conquistou um lugar na história do futebol, embora o seu comportamento lhe tenha valido vários dissabores, incluindo uma não convocação para o Mundial de 1950. Padeceu de sífilis, envolveu-se com mulheres, viveu no limite e no final faleceu na miséria. Viveu para o momento, para o agora, jogava para si e para o público, estava pouco preocupado com treinos e colegas mas sentia a camisola do Botafogo como poucos, algo exibido paradigmaticamente pelo filme. As cenas do passado exibem um atleta enérgico e temperamental, enquanto que as cenas do presente deixam-nos perante um homem cujo corpo já não acompanha o seu enorme ego, distante dos tempos de glória. José Henrique Fonseca pode privar-nos de vários momentos desportivos da carreira de Heleno de Freitas, mas não compromete ao realizar um filme biográfico interessante e informativo sobre esta figura complexa, permitindo a Rodrigo Santoro ter um desempenho magnífico.

Título original: "Heleno".
Realizador: José Henrique Fonseca.
Argumento: Felipe Bragança, Fernando Castets, José Henrique Fonseca.
Elenco:  Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Othon Bastos, Herson Capri, Orã Figueiredo.

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